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Linha do BNDES para etanol pode demorar a deslanchar

Postado em 22 de Junho de 2020

Reivindicada pelas usinas desde o início da crise, a linha de R$ 3 bilhões de financiamento de estoques de etanol anunciada pelo BNDES chega num momento em que o mercado do biocombustível se afastou um pouco do fundo do poço - o que poderá gerar, em um primeiro momento, uma demanda mais fraca que a esperada.

A linha foi criada para impedir que o etanol vá para o mercado assim que produzido, justamente no período em que o consumo está mais abalado. Porém, embora as vendas ainda estejam baixas, as quedas têm sido menos avassaladoras do que se esperava no início da crise, e os preços estão inclusive reagindo.

Em maio, as vendas de etanol hidratado das usinas do Centro-Sul ainda estavam 30% abaixo do ano passado, mas superaram em pouco mais de 100 milhões de litros as de abril, quando as medidas de isolamento social eram mais rigorosas.

Paralelamente, as cotações do petróleo começaram a se recuperar em maio conforme o corte de produção dos países da Opep+ passou a fazer efeito e a curva da pandemia começou a achatar em vários países. Nesse ínterim, a Petrobras já elevou a gasolina A em 58% desde a mínima do ano, em 27 de abril.

Na última semana, os preços do etanol hidratado recebido pelas usinas paulistas já estavam acima dos patamares de um ano atrás, em R$ 1,6607 o litro, de acordo com dados do Cepea/USP. No início da safra, o preço estava 30% menor que um ano antes.

“Quando começamos a desenhar [a linha], o preço estava muito baixo, então havia expectativa de que a demanda seria alta. Mas agora como o preço está mais alto, a usina pode não precisar”, avaliou Mauro Mattoso, chefe do Departamento do Complexo Agroalimentar e Biocombustíveis do BNDES. “Era difícil quantificar a demanda porque o mercado está muito instável. É uma realidade que nunca enfrentamos."

A linha começou a operar na semana passada. Segundo Mattoso, como o objetivo é garantir a estocagem da safra em andamento, o desembolso deve ocorrer já no dia seguinte à comprovação dos estoques de etanol pelas usinas.

Segundo Mattoso, a taxa atrelada ao risco de crédito da companhia pode chegar a até 2,5%. Como o custo será composto também por TLP + 1,5%, o custo total da contratação pelas usinas deve superar 6% e chegar a 7%.

Para Willian Hernandes, sócio da consultoria FG/A, essa taxa pode ofuscar o potencial de alta do preço do etanol que for carregado para ser vendido mais à frente. Quando os preços estavam menores, no início da pandemia, o potencial de alta era de até 30%, disse. “Agora, não vejo demanda muito alta para essa linha após o preço ter subido.”

“A maior parte das empresas ainda está avaliando. Nenhuma decisao foi tomada, ainda é muito recente”, afirmou Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica). Ele disse que as vendas continuam 30% abaixo dos patamares do ano passado e que a gasolina ganhou um pouco de participação de mercado no ciclo Otto.

Com a incerteza sobre como ficará a demanda nos próximos meses, “as usinas com problemas de caixa podem preferir vender agora porque [o preço] pode cair na frente”, afirmou Mattoso, do BNDES. E, ainda que o preço seguisse baixo, as usinas com menor liquidez já estariam mais distantes o recurso.

Caso cada companhia demande, em média, R$ 100 milhões, apenas 30 grupos conseguiriam acessar o recurso, o que representa 15% das empresas com usinas em atividade hoje no Brasil, observou Ricardo Pinto, da RPA Consultoria.

Segundo o analista, apenas 40% a 50% das usinas em operação estão hoje sem problemas financeiros precedentes para buscar esse recurso. Atualmente, 23% das usinas no Brasil estão paradas por dificuldades anteriores e, das que estão operando, 20% está em recuperação judicial ou faliram - excluídas, portanto, do acesso a crédito.

O analista da RPA acredita que dificilmente sobrará recurso dos R$ 3 bilhões ofertados pelo BNDES, mas ele avaliou que a procura se dará mais por causa das condições dadas pelo banco de fomento, com prazos mais confortáveis, do que pelo custo.

 


Fonte: Valor Econômico