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Maior competitividade e açúcar em queda favorecem migração de usinas para o etanol

O aumento da competitividade do etanol após a redução do PIS/Cofins em R$ 0,0855 sobre litro do hidratado, na semana passada, e a queda de 23% dos preços do açúcar neste ano devem favorecer a produção do biocombustível e a consequente oferta ao consumidor. Segundo analistas e empresários do setor sucroenergético, as usinas devem "mudar a chave", ou seja, reduzir o perfil mais açucareiro da safra 2017/2018 e aumentar o destino da cana-de-açúcar para a fabricação do etanol.
 
O cenário positivo para o etanol é reforçado pelas seguidas altas na gasolina por conta do reajuste maior do PIS/Cofins e também pelos recentes aumentos diários feitos pela Petrobras no preço do combustível de petróleo. Especialistas ouvidos pelo Broadcast Agro divergem apenas sobre qual o momento em que as usinas irão priorizar a produção do álcool para o mercado interno em detrimento do açúcar, que tem grande parte da oferta destinada ao mercado externo.
 
O presidente da Datagro Consultoria e membro do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), Plinio Nastari, avalia que a partir de agosto algumas usinas devem intensificar a migração para o etanol. Ele lembra que as companhias do setor priorizaram a fabricação do açúcar desde o início da safra 2017/2018. O objetivo era de atender a entrega do produto que teve seu preço fixado no ano passado, mais remuneradores que os atuais.
 
"Entre o fim do ano passado e o começo deste ano houve a oportunidade de hedge (fixação) do açúcar entre 19 cents e 22 cents por libra-peso (na Bolsa de Nova York). Produtores do Centro-Sul estiveram ocupados até o momento em produzir o açúcar para executar compromissos de exportação firmados para esse nível de preço", disse Nastari. No fechamento desta quinta-feira, o contrato outubro do açúcar negociado em Nova York ficou em 14,31 cents.
 
Para Nastari, a parcela da produção de açúcar não fixada seria remuneradora apenas aos produtores da commodity localizados mais próximos dos portos, que têm custos menores e podem vender o produto pelo preço atual, entre 13 cents e 15 cents. "De agosto em diante, principalmente para os produtores localizados mais para o interior do Brasil, o ímpeto de fabricação de açúcar diminui. Independente da recuperação de competitividade do etanol, a orientação é para a produção do combustível", explicou Nastari.
 
Dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) mostram que, mesmo com a safra mais açucareira, já houve uma redução no destino da cana para a produção de açúcar. No acumulado de abril até 15 de julho a oferta para o alimento era 3,8% maior que em igual período da safra passada. Na primeira quinzena de julho essa alta foi de 2,7% sobre a primeira metade de julho de 2016 e a estimativa da Datagro é de que ao final da safra o aumento total fique em 1,2%.
 
Para o conselheiro da Unica e sócio da Canaplan, Luiz Carlos Corrêa Carvalho, a baixa umidade e o longo período sem chuvas na principal região produtora do mundo favorecem a colheita e o aumento do teor de sacarose na cana. Por isso, segundo ele, as usinas devem seguir até setembro produzindo mais açúcar que etanol para ao menos estocar o produto na expectativa de preços melhores. "O mercado ainda não entendeu que a safra brasileira vai ser menor que no ano passado e, quando isso ocorrer, os preços do açúcar vão voltar a subir", disse.
 
Para Carvalho, só a partir do último trimestre da safra a produção do etanol será priorizada.
 
O presidente da União de Produtores de Bioenergia (Udop), Celso Junqueira Franco, concorda que houve um incremento na competitividade do etanol com a redução do PIS/Cofins, mas a entende que nesse período da safra dificilmente as usinas têm flexibilidade técnica e operacional para uma produção maior de álcool. "Em outubro e novembro, com mais chuva e com a queda do ATR (Açúcar Total Recuperável) no processamento, deve acontecer essa migração para o etanol", disse.
 
No entanto, salienta Franco, a produção de etanol pode ser limitada nesse último terço da safra, entre outubro e dezembro, pela queda no volume de cana disponibilizada para o processamento, já que a colheita e o processamento da atual safra caminham rapidamente, sem grandes interrupções por conta das chuvas.
 
 
 
 

Fonte: Estadão Conteúdo