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Mais subsídios ao açúcar na Índia e demora em adotar o etanol - Por Prof. Marcos Fava Neves

Postado em 6 de Setembro de 2019

Vamos às reflexões dos fatos e aos números da cana neste agitado agosto.

Desde 1 de abril até 16 de agosto processamos 350,31 milhões de toneladas, apenas 100 mil toneladas acima do ano passado. No açúcar produzimos 15,457 milhões de toneladas, quase 6,4% a menos que na safra passada. No etanol a produção foi de 17,874 bilhões de litros, também 1,4% menor.  O problema principal é o ATR por tonelada de cana, que está menor em 5,35 kg (130,9 kg). Na última quinzena foi 3,86% menor. O mix está em 64,6% para o etanol. E temos 60% da safra já concluída. Com mais esta quinzena, já estamos no terço final.

A FCStone prevê moagem de 583,3 milhões de toneladas, quase 2% maior que as 574,2 milhões previstas em maio, graças à maior umidade. O Açúcar Total Recuperável por tonelada (ATR/t) será de 135,4 kg/t, contra os 136,9 kg/t de maio e 137,9 da safra 2018/2019.  O mix deve ser de 65,3% para etanol (em maio estimaram 62,9%).

Em relação às empresas, foram divulgados os resultados da Usina da Pedra, com lucro aumentando 37% na safra 2018/19 e atingindo R$ 50,2 milhões. A receita cresceu 3%, chegando a quase R$ 1,48 bilhão. Margem operacional cresce de 4,8 para 5,6%. O lucro líquido do grupo Lincoln Junqueira foi de R$ 95,4 milhões na safra 2018/19, redução de 73% em relação à safra anterior, principalmente devido aos menores preços do açúcar. A cana moída recuou 3% (ficando em quase 15 milhões de toneladas) aumentando a renovação dos canaviais de 16 para 22%.  Tiveram também aumento nos preços dos insumos. O EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) foi de R$ 779 milhões. Houve aumento do endividamento. Num ano difícil, considero um bom resultado.

Os resultados da Biosev no primeiro trimestre da safra apresentaram prejuízo de R$ 168,9 milhões, praticamente 70% menor que o mesmo período da safra anterior. A empresa está com estratégia de manutenção de estoques. O Ebitda foi de pouco mais de R$ 290 milhões, com margem subindo para 17%. Operação e resultados da Biosev melhorando sensivelmente.

A São Martinho anunciou a criação do canavial 4.0 nos seus 135 mil hectares cultivados. O projeto envolve desde o uso de vespas inimigas da broca da cana até máquinas gerando dados e conectadas para trocas de informações em tempo real, visando economia nas operações. Tudo com uma rede interna de web privada, banda larga em outra frequência e com antenas próprias. Máquinas têm computadores de bordo que recebem estas informações e emitem ao centro de operações. Qualquer consumo adicional de diesel, alterações de velocidades, temperatura das peças e máquinas, por exemplo, é avisado e a central vai atrás para resolver. Previne-se, economiza o tempo e recursos.

Também com uso de imagens e análises de solo, conseguirão aplicar apenas o demandado em cada área. O sistema serve também para detectar incêndios de maneira antecipada.  Em breve conectarão o ritmo da moagem ao ritmo da frente de colheita, reduzindo filas e economizando combustível, além de otimizar as máquinas. A meta é derrubar o custo de produção entre R$ 2 a 3 por tonelada, uma enormidade quando se considera seu tamanho. A empresa também anunciou seu resultado no primeiro trimestre desta safra, um lucro líquido de R$ 91 milhões, 12% menor que o comparativo com a safra passada. Foram moídos 5% a menos de cana, total de 9 milhões de toneladas. Chuvas em excesso foi o principal argumento utilizado. Praticamente 80% do açúcar a ser vendido já foi fixado.

A Usina Coruripe lançará marca de açúcar para o varejo esperando vender 30 mil toneladas. A marca estampada será Coruripe, em três categorias: demerara (1 Kg), refinado (1 Kg), e cristal (pacotes de 2 Kg e 5 kg). O grupo processa ao redor de 15 milhões de toneladas em quatro usinas, e segundo a empresa deve produzir cerca de 500 milhões de litros de etanol, 900 mil toneladas de açúcar VHP e 120 mil toneladas de cristal.

Nos fatos do açúcar em agosto, os preços ficaram à míngua... tivemos a estimativa da FCStone que produziremos 26,1 milhões de toneladas, 1,5% a menos que as 26,5 milhões de toneladas produzidas na safra 2018/2019. Pela Archer, nos últimos 12 meses vendemos 19,173 milhões de toneladas de açúcar, tirando mais de 9 milhões de toneladas do mercado mundial. E pelas estimativas da empresa seriam 13 milhões de toneladas tiradas em dois anos. Não fosse a Índia inundando o mercado teríamos preços melhores...

E mesmo com a atuação nossa na OMC, a situação da Índia pode piorar. Está provavelmente sendo anunciado novo pacote de apoio ao setor com subsídios para exportação de 6 a 8 milhões de toneladas para a safra 2019/20 (inicia-se em 1 de outubro), num valor que pode chegar a US$ 1 bilhão. A UNICA estima que as ações da Índia prejudicam o Brasil em mais de US$ 1 bilhão por ano. A saída para a crise mundial do açúcar hoje, é a Índia direcionar parte da sua cana para o etanol, mas é muito lenta para fazer isto, já recomendado há mais de dez anos.

De acordo com a Archer apenas 58,2% (11,22 milhões de toneladas) do açúcar a ser exportado nesta safra (19 milhões) foi fixado até o final de julho. O mais baixo das últimas oito safras. Fruto de melhor remuneração no etanol e expectativa de preços melhores, adiados pela Índia. Relatório do Rabobank com dados do USDA colocam outro fantasma na mesa, aumento da produção mexicana em 7,2% e mais exportações vindo por ai. O açúcar na Bolsa de Nova York (contratos de outubro) vieram a pouco mais de 11 centavos de dólar a libra-peso.  No momento deste fechamento estavam a terríveis 11,14 cents/libra peso.

Os preços do petróleo oscilaram preocupantemente neste mês e terminam ao redor de US$ 59/barril (o Brent Crude). O susto foi nos dias 07 e 08 quando desabou, mas a recuperação veio ao longo do mês. Observada neste mês (apesar da recente recuperação). Teria que permanecer nestes níveis.

Nos fatos do etanol em agosto vale destacar que no primeiro semestre de 2019, de acordo com a ANP, consumimos 10,76 bilhões de litros de hidratado, um crescimento fantástico de 33,02% sobre o mesmo período do ano passado. É a maior média mensal de consumo observada em toda a nossa história, de 1,8 bilhão de litros. Segundo o estudo, atingiu-se 48,1% do consumo dos automóveis Ciclo Otto em gasolina equivalente. Em três estados (SP, GO e MT), supera 65%. O consumo de combustível neste período cresceu 2,42%.

A FCStone espera uma produção na safra 2018/19 de 30,4 bilhões de litros de etanol vindos da cana, alta de 1,3 bilhão em relação à estimativa de maio, sendo 21,3 bilhões de litros de hidratado. Do milho, estima-se em 1,1 bilhão de litros, quase 40% acima de 2018/19.  No total teremos 31,3 bilhões de litros de etanol.

Dos estudos internacionais, vale destacar relatório IPCC (Clima e Terra do painel científico das Nações Unidas) que, entre outras conclusões, estimula a produção e consumo de biocombustíveis para se combater o problema do clima, tomando cuidado com qual fonte será utilizada. Recomenda também uma produção agrícola mais sustentável, pois esta, junto com o uso do solo, é responsável por 22% das emissões globais. É uma boa notícia para a cana, a mais eficiente matéria-prima até o momento na produção de energia.

Anunciamos um aumento na cota para o etanol anidro americano no mercado brasileiro, indo de 600 milhões para 750 milhões de litros, sem a tarifa de 20%. Creio que foi um bom gesto de aproximação no âmbito de possível acordo comercial que começa a ser desenhado entre os dois países. Como contrapartida, poderíamos ter mais chances no açúcar. Esta diferença em minha leitura pode ser absorvida pela cadeia produtiva.

Boas notícias foram os anúncios que China pode adotar o E10. Sua frota é de mais de 300 milhões de automóveis. Estima-se que se produza hoje ao redor de 3 bilhões de litros, e seriam necessários cerca de 14 a 15 bilhões de litros, o que abriria um mercado de 10 bilhões de litros, praticamente inexistentes hoje no mercado mundial. Outros países asiáticos estariam na mesma linha, mas precisamos ver com cautela. Nossa produção está ao redor de 31 bilhões de litros, sendo que importamos ainda ao redor de 1,8 bilhão de litros. É muito difícil expandirmos em curto prazo.

Nos EUA já foi liberada a mistura de 15% de etanol na gasolina agora durante o ano todo, mas também o Governo isenta pequenas empresas de petróleo a misturarem o etanol, prejudicando o mercado. Segundo a Associação de Combustíveis Renováveis (RFA), estas isenções tiram mercado de quase 6 milhões de toneladas de milho para o etanol.

Podemos ir a 48 bilhões de litros com a efetiva implantação do RenovaBio. O RenovaBio trará o benefício da mensuração total das atividades das usinas, que terão créditos de descarbonização (CBios). Estes papéis serão negociados em Bolsa. Fica aqui uma mensagem com esta crise da Amazônia, aproveitando o impulso do RenovaBio. Temos que acelerar os registros dos Cadastros Ambientais Rurais, não se brinca com esta questão ambiental. Uma das soluções para o desmatamento passa pela criação do mercado global de carbono pagando pelos esforços e ganhos ambientais e a cana sairá na frente.

Finalizando... qual seria a minha estratégia com base nos fatos?

O que observar agora em setembro: Neste mês de agosto muitos eventos. Anúncios de crescimentos menores, continuidade dos problemas EUA x China, a crise da Argentina, toda a situação ambiental da Amazônia, queda dos preços do petróleo (quase 10%) e da gasolina, e do etanol de milho (8%). Commodities em geral caíram de preços, mas os preços em reais foram compensados com o câmbio. Temos menos ATR sendo produzido e o consumo de hidratado batendo recordes. Dois terços da cana já foram processados. Ao terminar esta coluna os preços do petróleo estavam em USD 57 por barril, com boa recuperação da queda levada no início do mês.

Segundo a Archer, o piso para o petróleo é de 50 a 51 dólares/barril do tipo Brent. Segundo o MAPA, os estoques de etanol em 1º de agosto somavam 5,8 bilhões de litros. Na mesma época do ano passado eram 30% maiores. Será que fecha a conta até o final da safra com níveis de estoques confortáveis? Creio em alta do hidratado.

Marcos Fava Neves é Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio.

 


Fonte: Retirado do Portal Brasilagro