Clipping

Melhora perspectiva para preço do açúcar

Postado em 17 de Abril de 2019

Consultorias veem sinais de queda da produção de açúcar na Tailândia na safra 2019/20, o que vai colaborar para o déficit

As usinas do Centro-Sul iniciaram a safra 2019/20 com um sentimento um pouco mais otimista em relação aos preços do açúcar e do etanol do que há um ano. Além de trabalharem com a perspectiva de que a demanda doméstica por etanol continuará aquecida, também enxergam uma possibilidade de reação das cotações internacionais do açúcar no médio a longo prazos, o que não passava pela cabeça de ninguém do ramo no começo do ciclo 2018/19.

Desde a largada "oficial" da temporada, em 1º de abril, na bolsa de Nova York os papéis de açúcar demerara com vencimento em maio chegaram a subir 2% até sexta-feira, mas nos últimos dias devolveram os ganhos e fecharam ontem em 12,67 centavos de dólar a libra-peso. Porém, em relação ao mesmo período da safra passada, o valor médio está 3,8% maior, conforme dados do Valor Data. Com o avanço da moagem de cana na região brasileira, a tendência é de queda nas próximas semanas, mas a sorte poderá virar.

As previsões de que a próxima safra internacional de açúcar – 2019/20, que começará em outubro – terá mais consumo que produção alimentam a expectativa de que os preços poderão sair do fosso em que se encontram há dois anos. O banco holandês Rabobank prevê que haverá déficit de oferta de 4,3 milhões de toneladas, enquanto a trading francesa Sucden calcula a diferença em 4 milhões de toneladas.

"Para o próximo ciclo, há indicações de redução da produção na Índia, da área de beterraba na Europa e, na Tailândia, troca de área de cana por outras culturas mais rentáveis", diz Matheus Costa, analista da INTL FCstone. Em sua última projeção, a consultoria estimou déficit global de 300 mil toneladas em 2019/20.

Diante desse cenário, as usinas estão mais cautelosas para vender açúcar do que um ano atrás. Até agora as empresas fixaram os preços de exportação de 10,2 milhões de toneladas para esta safra, abaixo das mais de 11 milhões de toneladas de um ano atrás, segundo a Archer Consulting. O preço médio de fixação das vendas em reais, por sua vez, está parecido, em R$ 1.163,49 a tonelada. 

No mercado de etanol as boas notícias são mais concretas. Em alguns Estados do Centro-Sul há uma forte valorização do biocombustível, reflexo da corrida das distribuidoras pela oferta de usinas que não paralisaram sua produção por causa das chuvas dos últimos dias.

Os preços do etanol hidratado entregue no terminal de Paulínia (SP) subiram 18% desde o início do mês, para o equivalente a R$ 1.988 o litro ontem. Mas, dependendo da região, já há usinas vendendo o produto por mais de R$. Mesmo em Ribeirão Preto (SP), onde há maior oferta, foram registradas na semana passada vendas a R$ 2,30 o litro, acima da média para esta época, segundo uma fonte da região. O indicador Cepea/Esalq para Goiás subiu 21% em duas semanas, para R$ 1,6694 o litro (sem frete nem impostos), mas houve na semana passada usinas que fecharam negócios a R$ 2,50.

Segundo Costa, da FCStone, as altas são embaladas pelas chuvas recentes, que desacelararam a moagem de cana. Apertos de oferta neste momento da safra costumam ter forte reflexo nos preços porque as distribuidoras estão com poucos estoques, já que a tendência é de desvalorização progressiva com o avanço da safra.

Os aumentos dos preços da gasolina pela Petrobras também colaboraram para a alta do etanol. No dia 5, a estatal elevou o valor da gasolina vendida às distribuidoras em 5,61%. Até então, a alta acumulada desde o início do ano já era de 21%.

Mas as usinas não acreditam que esse movimento vá durar muito. "Quando a moagem entrar no eixo, o preço começa a cair", afirmou um usineiro de Goiás que preferiu não se identificar. A segunda quinzena de abril, acrescenta, costuma ter um tempo mais seco, o que deverá permitir a ampliação da oferta.

Luiz Gustavo Junqueira Figueiredo, diretor comercial da Alta Mogiana, acredita que pode haver um "piso" para a pressão da oferta sobre os preços. Com novos tanques adquiridos por usinas para estocar o produto e com o aumento dos custos de produção, puxados pela alta do dólar, ele acredita que muitas companhias resistirão em vender o etanol abaixo do custo. Hoje, afirma, apenas o custo operacional está em R$ 1,90 o litro, enquanto há um ano eram de R$ 1,80 o litro.

Em nota, Julio Borges, sócio da JOB Consultoria, disse que há uma perspectiva de que os estoques finais desta temporada sejam menores do que os iniciais, o que tende a garantir preços "em níveis ligeiramente mais altos que os da safra passada".

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

 


Fonte: Valor Econômico