Clipping

Monsanto já custa bem mais que o preço pago pela Bayer

Com a integração da americana Monsanto à alemã Bayer, que começa nesta semana, chegam ao fim as movimentações envolvendo as gigantes globais de agroquímicos. Só o faturamento das duas dá uma ideia do tamanho do desafio. Em 2017, a Bayer CropScience, divisão agrícola do grupo, faturou € 9,6 bilhões (US$ 11 bilhões) enquanto a Monsanto teve receita de US$ 14,6 bilhões.

A transação criou a maior empresa de sementes e agrotóxicos do mundo, mas pode custar mais à Bayer que os US$ 66 bilhões envolvidos na compra da americana. Afora os percalços para consolidar uma operação dessa magnitude, a crise de imagem que colocou a Monsanto na berlinda recentemente pode trazer mais transtornos para a empresa alemã.

A compra da Monsanto pela Bayer foi anunciada em setembro de 2016, mas apenas neste ano, após a venda de ativos de sementes da alemã para a Basf, a operação foi concluída. E desde o anúncio da conclusão do negócio, em 7 de junho, o valor de mercado da Bayer caiu cerca de US$ 15 bilhões, chegando a US$ 86 bilhões, na bolsa de Frankfurt.

Um dos motivos para a perda de valor da Bayer são as polêmicas envolvendo o glifosato, herbicida mais usado no mundo e desenvolvido pela Monsanto. O produto foi responsável pelo sucesso da americana- que também desenvolveu a semente de soja transgênica resistente ao glifosato (Intacta) -, mas virou alvo de questionamentos por seus possíveis efeitos cancerígenos.

No último dia 10, a Justiça da Califórnia decidiu que a Monsanto tem de pagar uma indenização de US$ 289 milhões a um jardineiro de San Francisco que afirma ter desenvolvido câncer após exposição a dois herbicidas à base de glifosato (Ranger Pro e Roundup). A Monsanto recorreu da decisão.

O temor de investidores é que esse processo abra precedentes para outras decisões similares. Só nos EUA, há cerca de 5 mil ações contra a Monsanto por casos de câncer supostamente associados ao insumo. Refletindo esse risco de perda em processos semelhantes, as ações da Bayer caíram 15% na semana passada. Nesta semana, recuperaram parte das perdas, subindo 4,7%.

Tentando reduzir os efeitos negativos da associação da marca Monsanto à Bayer, a alemã já confirmou que a marca será extinta. Fontes do setor acreditam que os benefícios esperados com a compra da rival americana pela Bayer seriam maiores sem a forte rejeição embutida à marca Monsanto – uma "herança maldita", na avaliação de alguns analistas.

A partir de agora, a Bayer também passa a responder pelas questões envolvendo o dicamba, herbicida que está proibido em diversos distritos dos EUA. O princípio ativo do agrotóxico foi desenvolvido pela alemã Basf, e a tecnologia que oferece resistência ao produto, pela Monsanto.

No Brasil, o glifosato também enfrenta problemas com a Justiça e tem causado dor de cabeça à Bayer. Isso porque uma decisão da Justiça Federal determinou a suspensão do registro do produto a partir do dia 3 de setembro até que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) conclua a reavaliação toxicológica do herbicida.

Com a Monsanto, a Bayer torna-se líder de mercado no Brasil. De acordo com a consultoria alemã Kleffmann, na última safra, 26% dos produtos utilizados por agricultores foram produzidos pela Bayer ou pela Monsanto.

A receita combinada das empresas no mercado brasileiro deve somar R$ 12 bilhões em 2018 só na área agrícola, conforme informou o presidente global da divisão da Bayer, Liam Condon, em visita ao Brasil em julho.

Por Kauanna Navarro


Fonte: Valor Econômico