Clipping

Movimento de “desmecanização” dos canaviais acende sinal vermelho para aumento de causas trabalhistas

Descontente com o desempenho das máquinas, algumas unidades sucroenergéticas e produtores retornam para operações manuais

A agricultura de precisão já está ultrapassada, o campo brasileiro vive o movimento da agricultura 4.0, que alia alta tecnologia, conectividade, produtividade e respeito ao meio ambiente e à saúde pública.

A conectividade é total. Basta acoplar softwaresàs máquinas agrícola para que se possa acompanhar, de dentro da própria máquina ou no sofá de casa, pela internet, cada movimento do plantio, pulverização e colheita no campo. Se pintar um problema, uma decisão corretiva pode ser tomada na hora.

Aplicativos reproduzem, virtualmente, exatamente o cenário da lavoura. A máquina e a área de produção são transformadas numa espécie de desenho animado. Os movimentos observados na tela geram mapas instantâneos da propriedade, como a quantidade de sementes lançadas no solo ou o volume colhido.

Mas, a lavoura canavieira parece estar na contramão da agricultura 4.0, reduzindo o uso da máquina e retornando para operações manuais. “Por imposição da legislação ambiental, o setor precisou adotar a mecanização de forma abrupta, sem estar preparado para isso. Queimou-se algumas etapas tanto no aperfeiçoamento das máquinas, como na qualificação e conscientização das equipes para o uso adequado da mecanização. O que levou a ser um dos principais fatores para a grande redução de produtividade dos canaviais”, observa o empresário Maurilio Biagi Filho, grande conhecedor do setor.

A operação de plantio é a mais criticada, em decorrência das falhas na brotação e do excesso de cana utilizada, média de 20 toneladas por hectare, o manual fica em torno de 10 toneladas. Mas não se pode jogar a culpa apenas nas plantadoras, uma vez que o problema começa com a falta de cuidado na colheitada cana-muda, que danifica as gemas da cana, prejudicando a brotação. Resultado, principalmente, do despreparo dos operadores.

Cansados dos maus resultados, algumas unidades sucroenergéticas e produtores de cana estão abandonando as máquinas e voltando para as operações manuais. “Para mim, o abandono do uso da máquina é um retrocesso, o que falta ao nosso setor é persistência para enfrentar as dificuldades, buscar soluções para melhorar o processo. Fiquei sabendo de usinas que contrataram 800 pessoas para o plantio. Isso não é sustentável, uma hora ou outra terá de rever essa solução. A mecanização é um caminho sem volta, o que precisamos é: setor e empresas fabricantes, tornar as máquinas mais eficientes e treinar equipes para fazer bem-feito”, salienta Luiz Carlos Dalben, diretor da Agrícola Rio Claro, de Lençóis Paulista, SP, um dos produtores mais tecnificados. A Rio Claro planta cerca de 500 hectares de cana por ano, tudo com máquina e com média de 10,6 toneladas de cana-muda por hectare.

Biagi Filho alerta para mais dificuldades com o retorno das operações manuais. “Com o grande desemprego, até pode-se ver o trabalho no canavial como uma alternativa para amenizar a situação, mas com a retomada da economia e maior geração de vagas, as pessoas voltam a não querer trabalhar nas lavouras. Vai faltar mão-de-obra”, alerta Maurilio. Porém,para ele, o maior problema será o crescimento das causas trabalhistas. “As exigências estão cada vez maiores. O setor pode se preparar para enfrentar essas questões.”

Na visão do engenheiro agrônomo Dib Nunes Jr, Presidente do Grupo IDEA, o setor sucroenergético necessita do plantio mecanizado de cana em tolete. Dib observa que aproximadamente 65% da cana plantada na região Centro-Sul acontece por meio dessa operação. “O plantio mecanizado surgiu porque as empresas não tinham mão de obra especializada, com o plantio manual ocorriam muitos problemas trabalhistas e o custo ficou proibitivo. Ainda hoje, o custo do plantio mecanizado é menor em torno de 20% a 25% em relação ao antigo plantio manual esparramado”, observa.

 


Fonte: Cana Online