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Nas usinas, é hora de proteger o caixa

Postado em 7 de Abril de 2020

Diante dos vários revezes pelos quais o setor sucroalcooleiro vem passando nas últimas semanas e da incerteza da extensão da crise que o coronavírus provocará, as companhias com melhor situação financeira defendem que é o momento de reforçar a gestão de risco e proteger o caixa para mitigar os danos que virão, e descartam possibilidade de aquisições de usinas em dificuldade.

Em live promovida ontem pela XP Investimentos, o presidente da Raízen, joint venture entre Cosan e Shell, Ricardo Mussa, afirmou que “o que podemos aprender dessa crise é muita gestão de risco”. Ele exemplificou como estratégia de hedge a atuação no mercado futuro de gasolina, para garantir a margem das vendas de etanol.

Presidente do Grupo São Martinho, Fabio Venturelli, que também participou da live, defendeu a necessidade de garantir proteção financeira, mas questionou a possibilidade de que muitas usinas sigam o caminho. “A crise ensina, mas não sei se vai possibilitar muita gente que não teve a chance de aprender no passado a aprender dessa vez”, afirmou.

Ambos avaliaram como arriscado apostar em um movimento aquisição de usinas menos capitalizadas por outras mais estruturadas, e não só pela circunstância, mas por peculiaridades do setor.

“Quando vejo algumas oportunidades [de ativos], há canaviais sofrendo há quase uma década. Mesmo assumindo uma dívida, precisaria dar o mesmo valor [a mais] para investir e ter canavial com a produtividade que precisamos para sermos competitivos”, observou Venturelli.

Mussa avaliou que há espaço para consolidação, mas não via aquisição de usinas. “Seria até mais fácil fazer isso, mas é um modelo que precisa de muito capital empregado, com risco de retorno complicado”, disse.

Para o presidente da Raízen, que possui uma joint venture de trading de açúcar com a asiática Wilmar, “se o Brasil consolidasse mais a comercialização, iria beneficiar o mercado inteiro”. “Tem valor enorme a ser destravado, mas é difícil achar o modelo. Em crise, empresas ficam mais abertas a discutir diferentes modelos para mudar patamar de comercialização do açúcar brasileiro”, avaliou Mussa.

Carlos Santos, presidente da mineira CMAA, disse na live que a compra da Usina Canápolis, em 2017, foi facilitada por não ter canavial. “É mais fácil consertar uma base nova”.

Para atravessar os próximos meses, a CMAA pretende segurar o etanol em seus tanques, enquanto gera caixa com venda de açúcar e energia - que, na safra passada, representou 25% de seu lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda). “Talvez entre junho e agosto, se a demanda melhorar, podemos colocar etanol no mercado”.

A forte fixação antecipada dos preços de exportação de açúcar deve se tornar uma importante tábua de salvação neste momento, já que o dólar tem favorecido a manutenção da remuneração das usinas. Até 31 de março, mais de 17 milhões de toneladas para exportação estavam com valores travados, segundo a Archer Consulting.

Já a reação do mercado de etanol ainda é incerta. Na visão da Raízen, a demanda do ciclo Otto só deve se normalizar em setembro. No “pico” das medidas de isolamento, a redução pode chegar a 70%, começando a se recuperar em maio, com quedas de 50%, estimou Mussa, com base no comportamento da demanda em países que estão passos à frente na crise do coronavírus.

Na São Martinho, a estratégia usual de carregar boa parte da produção de etanol para a segunda metade da safra deve ser reforçada, favorecida por uma tancagem adicional nova na Usina Boa Vista, em Quirinópolis (GO). “Conseguimos [estocar] pouco mais de 70% da produção. Isso nos leva confortavelmente até setembro”, disse Venturelli.

Para ele, pode ocorrer neste primeiro trimestre uma antecipação das vendas de açúcar, além de oportunidades de exportação de etanol para fins que não o de combustível, como para a indústria de higiene.


Fonte: Valor Econômico