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Negociações do Plano Safra na reta final

A tradicional queda de braço entre a equipe econômica e o Ministério da Agricultura na elaboração do Plano Safra caminha para uma vitória do Ministério da Economia. Nas discussões, a equipe comandada por Paulo Guedes sinaliza com um menor volume de recursos com juros controlados e barra qualquer possibilidade de redução das taxas de juros – na verdade, há até quem defenda um aumento dessas taxas.

O aumento de subsídios ao seguro rural, pedido constante da ministra da Agricultura Tereza Cristina, também deve ficar aquém do esperado. A ministra quer R$ 1 bilhão para o programa de subvenção ao seguro. Para este ano, estão reservados R$ 440,5 milhões, sem contar os eventuais cortes de Orçamento.

A depender da equipe econômica, as taxas de juros e a oferta de crédito do Plano Safra 2019/20, que entrará em vigor em 1º de julho, serão piores do que nos anos anteriores. O entorno do ministro Paulo Guedes dá sinais de que o orçamento para equalização das taxas de juros do crédito rural, que soma R$ 10 bilhões por ano-safra, deverá sofrer cortes. A intenção da equipe econômica, como já indicado, é reduzir sobretudo o volume de recursos subsidiados para os grandes produtores, preservando "quem mais precisa", afirmou uma fonte, mencionando os pequenos e médios. Aos produtores de menor porte, o volume de crédito rural a juros controlados seria mantido.

Nesse cenário, a tendência é que o montante total de recursos reservado ao Plano Safra fique em linha com o volume efetivamente liberado pelos bancos, que deve bater o recorde e atingir a marca de R$ 178 bilhões até o fim deste ciclo (em 30 de junho), conforme cálculos do governo.

Na leitura da equipe econômica, também não há espaço para redução das taxas de juros do crédito rural. Hoje, a taxa dos empréstimos para o custeio agropecuário está em 8,5% por ano. Tamanha é a intenção de cortar gastos da equipe de Guedes que a manutenção da taxa de juros seria vista como uma vitória do Ministério da Agricultura.

Nesse sentido, a equipe econômica entende que o governo Temer errou ao reduzir as taxas fixas, que estavam em 9,5% por ano para o custeio. Ao reduzir a taxa, argumentou uma fonte, o governo gerou uma demanda superaquecida por crédito nas agências bancárias que fez aumentar os preços de produtos como máquinas agrícolas. Não à toa, acrescentou a fonte, os R$ 8,9 bilhões destinados para o Moderfrota, linha para financiar a aquisição de máquinas agrícolas, acabaram antes do fim da safra.

A visão da equipe econômica não é, definitivamente, a mesma de representantes do agronegócio. "A derrota para a agricultura no próximo Plano Safra seria continuarmos como está hoje, com juros livres de 9%, em média, e juro controlado de 8,5% ao ano", disse o vice-presidente da Comissão Política Agrícola da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Antônio da Luz. "Vamos brigar até o último dia para que o juro baixe, porque o governo não precisa botar mais dinheiro no crédito, é só mexer no spread, que é muito elevado hoje", avaliou.

Em meio ao embate, o Ministério da Agricultura tenta convencer o governo a frear as mudanças estruturais no sistema de crédito rural com a velocidade com que desenha a Economia. Nos próximos dias, Tereza Cristina deverá ter reuniões com Guedes e Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, para afinar detalhes do Plano Safra. A ministra tenta evitar uma derrota nessa disputa, mas na melhor das hipóteses só conseguirá a manutenção das taxas do crédito rural a juros reais de 4,5% por ano, caso a taxa básica de juros (Selic) permaneça no patamar de 6,5% por ano, avaliou uma fonte a par do assunto.

 

 


Fonte: Valor Econômico