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No mercado de açúcar, o pior já ficou para trás

Os baixos preços do açúcar no mercado internacional registrados em meados da atual safra do Centro-Sul (2018/19) - as cotações chegaram a cair ao menor patamar em dez anos na bolsa de Nova York - não deverão ser revisitados tão cedo.

As perspectivas de redução do excedente de açúcar no mundo e o petróleo mais valorizado estão contribuindo para que as empresas sucroalcooleiras e as tradings estejam mais otimistas com a remuneração do açúcar ao longo da próxima safra (2019/20).

"O pior já passou. O cenário é mais construtivo", afirmou Mariangela Grola, gerente de inteligência de mercado da Raízen Energia - joint venture entre Cosan e Shell e dona de 26 usinas no país -, em apresentação ontem na Conferência Datagro, realizada na capital de São Paulo.

Para ela, se o etanol continuar bastante competitivo em relação à gasolina nas bombas no país, a um preço médio de 65% do combustível fóssil, o preço do açúcar demerara poderá atingir um "teto" de 14,5 a 15 centavos de dólar a libra-peso na bolsa de Nova York. Ontem, os contratos mais negociados da commodity fecharam a 13,50 centavos de dólar a libra-peso.

A Bunge, dona de oito usinas no país, também está vislumbrando um cenário favorável aos preços do açúcar na próxima safra - entre 13 e 15 centavos de dólar a libra-peso. Para Luciana Torresan, gerente de inteligência de mercado em açúcar da multinacional, que também participou da conferência, "o preço de etanol é que deve ditar o preço do açúcar na safra que vem".

A visão das duas executivas é baseada na perspectiva de que os preços do petróleo vão continuar sustentados nos próximos meses. "Apesar da queda das últimas semanas e da valorização do câmbio, o preço da gasolina ainda está alto, em níveis recorde", disse Torresan.

De acordo com Grola, o petróleo pode se sustentar mais, "principalmente diante da sanção dos Estados Unidos contra o Irã, que entrará em vigor no próximo ano, e de problemas logísticos nos Estados Unidos" que impedem o escoamento da produção de óleo de xisto.

O "teto" de preços previsto pela Raízen poderá ser ainda maior, afirmou Grola, caso os importadores globais percebam que precisam mais do açúcar brasileiro já que os principais produtores deverão ter safras menores neste novo ciclo.

Nesse caso, o "teto" para o preço seria de 16 centavos de dólar a libra-peso, aposta a gerente da Raízen. Por outro lado, no pico da safra no Centro-Sul do Brasil as cotações podem voltar ao patamar dos 13 centavos de dólar a libra-peso, aposta.

A redução da produção de açúcar em outros países, sobretudo na Índia, contribui para um cenário de oferta menos folgada neste novo ciclo internacional, mas o Brasil também precisará moderar sua oferta. "Nossa preocupação é que o preço fique em patamar muito alto e o Brasil volte a produzir muito açúcar. O Brasil tem a missão de ser menos agressivo na produção", disse.

As tradings também estão prevendo possível alta dos preços ante os patamares atuais. Para Jeremy Austin, diretor da trading francesa Sucden, o preço-alvo do açúcar na próxima safra brasileira deve oscilar entre 12 a 15 centavos de dólar a libra-peso.

Já Felipe Ferraz, diretor da trading RCMA do Brasil, acredita que as cotações podem chegar a 18 centavos de dólar a libra-peso no segundo semestre de 2019, quando os fundos especulativos estiverem acumulando posições compradas no mercado futuro diante das expectativas de déficit de oferta na safra internacional 2019/20.


Fonte: Valor Econômico