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Novo ano deve ser açucareiro, acredita presidente da SIAMIG

Postado em 21 de Outubro de 2020

 

Se a pandemia trouxe incertezas para o setor sucroenergético, 2021 pode ser um ano espetacular para o açúcar brasileiro. Presidente da SIAMIG, Mário Ferreira Campos Filho, analisa os impactos da pandemia sobre o setor em Minas e no Brasil e revela as expectativas do setor para o próximo ano. Confira:

JM - Fala-se muito que o agronegócio brasileiro atravessa uma fase excepcional, com recordes em resultados positivos em produção, produtividade, exportações etc. Esse cenário é observado também na cultura da cana-de-açúcar?

MÁRIO CAMPOS - É claro que tivemos um ano muito bom para o agronegócio e que teve um impacto de forma diferenciada entre todos os outros produtos do agro. Eu diria o seguinte: no caso da cana-de-açúcar, que no final vai ser transformada pelas usinas em açúcar e etanol e energia elétrica, precisamos fazer somente uma observação. Primeiro, há a questão do açúcar, que está indo muito bem. O dólar alto ajudou, assim como o mercado internacional mais demandante. Estamos com receita bem superior aos anos anteriores, sem dúvida alguma. Se fôssemos apenas um setor açucareiro, talvez estivéssemos entre os melhores setores do agro em termos de desempenho, este ano. Mas temos também o etanol, que é muito dependente do mercado interno. Etanol e energia elétrica dependem do mercado interno, e o mercado interno teve as suas dificuldades em função da Covid. Então, se observarmos a demanda de etanol hidratado aqui em Minas Gerais, neste ano, era 16% inferior ao mesmo período do ano passado. O mercado de combustíveis, como um todo, reduziu em torno de 11% em 2020. Agora está havendo uma retomada dos volumes vendidos ao longo dos meses, mas não se compara ao período pré-Covid. Quando observamos o número de carros nas ruas, no trânsito, já percebemos um consumo bem interessante e importante de combustíveis. Por isso, é possível que haja uma recuperação do consumo de etanol, da mesma forma com a energia elétrica, com a reativação da indústria nacional, grande demandante de energia. A indústria hoje está sendo impulsionada pela volta da competitividade no mercado internacional. Está demandando energia e tem-se observado uma recuperação também dos preços de energia. Ou seja, também é importante frisar que no caso do nosso setor, como temos essa flexibilidade de transformar a sacarose da cana ao invés de produzir etanol, produzir açúcar, aumentando o seu mix, isso também ajudou a indústria a se adaptar neste momento. Então estamos reduzindo a produção de etanol e consequentemente aumentando a produção de açúcar. Porém, não são todas as empresas que têm esta condição. Temos destilarias autônomas, produzimos etanol; temos usinas que já estavam com a sua capacidade de flexibilidade limitada. Num todo, o setor se adaptou, embora muitas das vezes uma ou outra empresa não tenha conseguido fazer aquela adaptação. Houve também o câmbio, que tem afetado os custos de produção, pois, se ele ajuda na receita, também impacta os custos de produção. Estamos tendo um ano muito bom, mas com estas observações, principalmente relacionadas aos nossos produtos no mercado interno, focando na demanda interna, principalmente no combustível.

JM - Em maio de 2020, uma pesquisa realizada pela USP apontava encolhimento da área plantada com cana, para abrir espaço a outras culturas, como soja e milho, de olho no mercado internacional. Havia, inclusive, previsão de que muitas usinas encerrariam suas atividades. Essa projeção se confirmou? Qual é o cenário atual?

MÁRIO CAMPOS - Eu vejo que no cenário sucroenergético nacional, Minas está um pouco diferenciado dos demais estados. Se observarmos o todo, tivemos, sim, uma redução da área plantada de cana-de-açúcar mais localizada em alguns estados. No caso de Minas, em 2019 para 2020, tivemos uma elevação da área plantada de cana-de-açúcar, principalmente porque, em função de tudo que tem ocorrido no mercado de etanol, tivemos uma reativação de duas unidades produtoras no Triângulo Mineiro e estamos vendo conversas para reativação para uma terceira, na divisa com a Bahia. Ou seja, temos um cenário de recuperação desse segmento em Minas Gerais. Recentemente também tivemos a aquisição por um fundo de investimento de uma unidade que era de uma multinacional no Triângulo Mineiro, mostrando que tem gente vendo valor nesse segmento. Estamos observando uma pequena elevação, do ano passado pra cá, da área de cana. Segundo a Conab, que faz este levantamento de forma sistemática, mais presente com pesquisas, esse crescimento foi de 1,4% do ano passado para Minas. Se o Brasil reduziu a sua área de cana, Minas cresceu a sua área de cana. Outra observação que faço: mais do que crescer a área de cana, para nós o mais importante hoje é trabalhar no aumento da produtividade agrícola, ou seja: temos condição de produzir mais na área que temos. Observamos também uma melhoria gradativa em diversas empresas do setor, em termos de produtividade agrícola. É claro que isso depende muito dos investimentos que são feitos, e também do clima. Então são fatores assim importantes que definem essa produtividade agrícola. Tivemos um crescimento da área, mas principalmente um trabalho para aumento da produtividade agrícola.

JM - Quais foram os maiores impactos sentidos pelo setor sucroenergético mineiro em decorrência da pandemia?

MÁRIO CAMPOS - Sem dúvida alguma foram no mercado de combustíveis. Por dois fatores: primeiro, pela queda natural da demanda naquele momento que estava todo mundo retraído em casa; as ruas ficaram praticamente desertas, sem carros: a demanda reduziu principalmente no mês de abril. Ao longo destes últimos meses, ela tem se recuperado, mas ainda há um longo período pela frente. Tem muita gente trabalhando em home office, as viagens foram reduzidas, os deslocamentos estão ainda mais curtos e isso obviamente reduz o consumo de combustíveis. No início da pandemia, especificamente, nós tivemos uma queda brusca do preço do petróleo no mercado internacional, o que, de certa forma, impactou o preço da gasolina, que é nossa concorrente. Isso também impactou o preço do etanol naquele momento. Contudo, ao longo dos meses subsequentes tivemos uma recuperação do preço do petróleo, uma manutenção no câmbio também do real desvalorizado, o que fez com que a gasolina recuperasse também o seu preço. De certa forma, o etanol teve mais espaço para recuperar o seu preço e hoje vemos, inclusive, uma situação muito interessante em termos de precificação para o etanol. Se observarmos, este mercado teve realmente um grande impacto. O outro impacto foi o mercado de energia elétrica, pois nós somos importantes fornecedores de energia elétrica. Vimos o preço do PLD reduzido bastante. Observamos estas mudanças nas últimas semanas, uma recuperação desse preço com a volta também da atividade econômica. Se o câmbio auxilia a receita, ele prejudica um pouco o custo, os insumos agrícolas, defensivos e fertilizantes, tudo é dolarizado; o diesel, que no início teve uma queda brusca e depois aumentou também, impacta no custo de produção. O agro, em geral, viu os seus custos de produção subirem em função desse real mais desvalorizado e no mercado de maquinários vimos uma demanda muito crescente. Estamos vendo também a recuperação do preço do aço, o que tem um impacto muito forte nos preços dos equipamentos.

JM - Quais as expectativas do setor sucroenergético mineiro para 2021?

MÁRIO CAMPOS - Todo mundo que mexe com área agrícola depende muito das chuvas. Para falar em qualquer tipo de expectativa para 2021 é necessário que a gente espere o que vai acontecer principalmente no nosso verão. Passamos por um período forte de estiagem. A chuva deste ano foi muito mal distribuída, ficamos muitos meses com nenhuma ou pouca chuva em muitas regiões, isso inclusive gerou uma série de problemas relacionados ao setor, haja vista os incêndios que ocorreram em diversas cidades da região. Incêndios não só em canaviais, mas em outras áreas, áreas de outras culturas, pastagens, florestas (é complicado, onde todo mundo teve que se juntar, se aliar para poder combater). Mas, sem dúvida alguma, vai depender muito do que vai acontecer neste verão. Teremos uma entressafra longa, o que quer dizer que esse ano foi tão seco que praticamente não choveu. Nosso aproveitamento de tempo foi muito bom, conseguimos performar nas indústrias de uma forma muito rápida e isso acelerou a moagem e a safra vai terminar mais cedo esse ano. Ora, a entressafra mais longa dá mais tempo para a manutenção, mas obviamente há uma necessidade de que essas chuvas ocorram no período adequado, no volume adequado, nos meses de outubro a março. Em termos de precificação, observamos primeiro o açúcar como uma oportunidade de mercado internacional muito interessante. A tendência é que 2021 seja um ano açucareiro. O mercado de etanol vai depender obviamente muito do retorno em geral, como vai lidar com isso, como vai ser a dinâmica do mercado de combustíveis, como vai ser esse retorno, uma curva normal do consumo de combustíveis, mas, de certa forma, também é o mercado que tem a tendência de melhora muito forte, mas sempre olhando o que acontece com o nosso câmbio e com o preço do petróleo. A tendência não é ser um ano ruim, a depender obviamente de como vão vir essas chuvas no mês de novembro. Muita gente tem falado das questões relacionadas a La Niña, que é um período onde realmente se tem chuvas um pouco mais mal distribuídas ao longo desse período, então a gente realmente precisa verificar como vai ser isso para determinar a real disponibilidade de cana para o ano que vem.

 


Fonte: JM - retirado do Portal SIAMIG