Clipping

Novo modelo de produção é desafio para montadoras

Postado em 14 de Março de 2021

Ao mesmo tempo em que precisa resolver grandes desafios do futuro, voltados ao carro elétrico, a indústria automobilística tem que lidar com problemas do passado. A escassez de componentes durante a pandemia colocou à prova o histórico e eficiente sistema de produção sem estoque, uma marca registrada desse setor. Carlos Tavares, presidente mundial da Stellantis, disse ontem que o problema da falta de semicondutores não terminará no primeiro semestre, como muitos creem. Vai durar o ano todo.

O executivo culpou os fornecedores do “primeiro nível” – grandes empresas de peças, que fornecem diretamente às montadoras – pelo problema. Essas empresas, na maioria dos casos, compram os chips para colocar nos conjuntos de peças entregues aos fabricantes dos veículos.

Segundo ele, os “primeiros sinais” de que a indústria automobilística seria afetada começaram a aparecer em outubro. “Se tivéssemos sido avisados naquele momento tomaríamos algumas decisões, como antecipação dos estoques”, destacou.

As montadoras disputam esses chips com a indústria de eletrônicos e celulares. Com a pandemia e a paralisação das linhas de veículos, os fabricantes dos semicondutores, concentrados na Ásia, passaram a atender preferencialmente os clientes que não pararam de produzir. Tavares disse que o problema “deixará lições”.

O executivo encerrou ontem à tarde uma visita de três dias ao Brasil. Foi a primeira vez que veio ao país desde que assumiu o comando da Stellantis, empresa formada em janeiro a partir da fusão de Fiat, Chrysler, Peugeot e Citroën.

Tavares, um executivo português, era do grupo francês PSA Peugeot Citroën. Ele veio ao Brasil visitar as fábricas do lado que não conhecia – a que pertencia à Fiat, em Betim (MG), e a da Jeep Chrysler, em Goiana (PE). Pernambuco foi a parada final antes da viagem de regresso à Europa. De Goiana, ele concedeu entrevista, por vídeo, a um grupo de jornalistas brasileiros.

O fato de ser um dos executivos mais respeitados do setor automotivo lhe permitiria ter encontros relâmpago com a imprensa e limitar a conversa a respostas suscintas, como fazem tantos outros. Tavares, no entanto, faz questão do detalhamento, de ouvir com atenção e não deixar nenhuma questão vaga.

O entusiasma especialmente falar sobre carros elétricos e do desafio da indústria e governos de tornar o produto acessível. Para ele, o maior dilema do setor, hoje, é encontrar meios de evitar que o modelo elétrico se torne um produto de elite.

Segundo ele, a meta é conseguir um produto ambientalmente correto que possa ser comprado por todas as classes que consomem veículos a combustão. “Se os preços forem altos não haverá ganho algum para o meio ambiente porque a classe média não poderá adquiri-los”, destacou.

O executivo criticou a rigidez das regras impostas pelas União Europeia para que a indústria produza veículos cada vez menos poluentes. E disse esperar “uma qualidade melhor de diálogo” quando o tema chegar à América Latina.

Ele também se queixou da pressão nos preços do aço. Disse que a indústria terá que buscar formas de compensar a elevação de preços para não ter que repassar o custo ao consumidor.

Tavares disse que não é intenção da companhia fechar nenhuma fábrica brasileira. Além das duas que ele visitou ontem, o grupo tem uma operação em Porto Real (RJ), que hoje produz veículos Peugeot e Citroën. A partir da fusão, as fábricas deixam também de ser exclusivas para carros das marcas que antes representavam. Com plataformas comuns, poderão ter linhas de qualquer uma das quatro marcas.

Assim, a operação mineira em Betim, por exemplo, deixará de ser exclusiva para carros da Fiat. Durante a visita do executivo a essa unidade, na quarta-feira, a companhia aproveitou para inaugurar ali uma nova fábrica de motores, que atenderá a veículos de todas as marcas da Stellantis.

As observações do presidente mundial da companhia indicam que, ao contrário de enxugar operações, a fusão pode ser uma oportunidade de ocupação da capacidade das unidades que trabalham com elevada ociosidade. E também, como disse Tavares, de valorização das marcas que não receberam o devido investimento nos últimos tempos. É o caso, como ele mesmo confirmou, da operação que reune Peugeot e Citroën.

A Stellantis é o quarto maior fabricante de veículos do mundo e no Mercosul tem 30% das vendas na soma das quatro marcas. A fusão, segundo o executivo, traz uma oportunidade de investimentos em novas tecnologias que, separadas, essas empresas não teriam fôlego de alcançar.

As declarações de Tavares deram a entender que a equipe brasileira, capitaneada pelo italiano Antonio Filosa (ex-Fiat Chrysler), será fortemente cobrada para ajudar a nova companhia a chegar à ambiciosa meta de redução de custos, anunciada quando a união foi sacramentada. 

Por meio da junção de áreas como desenvolvimento de produto e compras, a Stellantis, palavra com origem no verbo latino “stello”, que significa “iluminar estrelas”, almeja ganho anual de € 5 bilhões em sinergias. “São os lucros que nos permitem investir”, destacou Tavares

Na visita ao Brasil, o executivo também teve reuniões virtuais com os governadores Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, e Paulo Câmara (PSB), de Pernambuco. Segundo a empresa, foram encontros de cortesia, em que o executivo se apresentou e reforçou a intenção do grupo de continuar a investir no país. No encontro com Zema, Tavares aproveitou para fazer uma apresentação virtual da nova linha de motores de Betim.

Tavares disse esperar uma melhora no quadro da pandemia no Brasil. A velocidade em que se dará a vacinação contra a covid-19, disse, “é uma incógnita”. O executivo vê “outras limitações” no país, como a volatilidade que, paradoxalmente, ocorre num cenário de “grande potencial”. Mas, destacou, “em qualquer país existem limitações”. “Estou nessa indústria há 40 anos e nunca vi um país em que é possível dizer: aqui está tudo bem; vou ficar por aqui”.

 


Fonte: Valor Econômico