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Novo sistema melhora análise de sementes

Postado em 31 de Agosto de 2021

Modelo criado por Cena/USP e Embrapa combina raio-X, imagens multiespectrais e inteligência artificial

Cientistas do Centro de Energia Nuclear na Agricultura de São Paulo (Cena/USP), em parceria com pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente e da Universidade Técnica de Aarhus, na Dinamarca, desenvolveram um método para análise de sementes que, ao combinar radiografia, imagens multiespectrais e inteligência artificial, alcança precisão de 96%. De acordo com a pesquisadora Clíssia Barboza da Silva, do Cena, que comandou o projeto, a tecnologia torna possível reduzir de uma semana para poucos segundos o tempo do processo e permite diminuir também os custos com mão de obra.

As técnicas são complementares entre si, diz Gabriel Mascarin, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente. A imagem espectral é mais eficiente para verificar textura, atributos físicos e químicos associados a danos por insetos, infecções fúngicas e outros. Já o raio X coleta informações das estruturas internas, como danos no embrião e endosperma, o que a outra tecnologia sozinha não consegue.

O equipamento usado na pesquisa custou cerca de R$ 500 mil e o recurso foi captado junto à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Clíssia explica que o valor é alto, mas o intuito é entender quais os tipos de luzes se adequam à cada cultura para incentivar a indústria a desenvolver equipamentos específicos para cada necesside.

No estudo publicado na Biomed Central, a semente trabalhada foi a do pinhão-manso (Jatropha curcas), oleaginosa que pode ser usada na produção de biodiesel. Os insumos foram exportados a diferentes luzes, em um ambiente controlado, e o maior nível de acurácia foi verificado usando infravermelho. Após a captação, um algoritmo faz as vezes dos analistas e identifica sementes que devem produzir plântulas normais ou anormais, além de sementes mortas.

Hoje, a análise de sementes é subjetiva. Amostras são recolhidas nos lotes e cultivadas em ambiente controlado. Cerca de sete dias depois, responsáveis técnicos dos laboratórios credenciados pelo Ministério da Agricultura avaliam as plantas em busca de deformidades ou sinais de inadequação. Mesmo apresentando um índice satisfatório de precisão, o método atual está sujeito a influências humanas. Um analista menos experiente ou mais cansado pode julgar as plantas jovens com menos rigor, por exemplo.

Clíssia também afirma que o novo método é mais sustentável, pois não produz resíduos como o tradicional e permite o reaproveitamento das sementes usadas nos testes. No modelo atual, a plântula germinada é descartada. Outro diferencial defendido pelos pesquisadores é que o teste de germinação leva em consideração o desenvolvimento em condições favoráveis, o que não reflete necessariamente a realidade no campo. A nova tecnologia permite comparar os dados e simular resultados em situações desfavoráveis, com estresse hídrico ou térmico.

A pesquisadora do Cena também acredita que o desenvolvimento de tecnologias pode dar saltos a cada nova descoberta. Ela conta que, na China, já existem técnicas disponíveis para analisar lotes inteiros. “A partir desse conhecimento, ao descobrir que o infravermelho tem potencial, o pessoal da robótica pode desenvolver equipamentos, para serem usados até mesmo na descarga das sementes pelos caminhões”, diz.

 


Fonte: Valor Econômico