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Nunca tantos deveram a tão poucos… - Por Luiz A. Horta Nogueira, Suani T. Coelho e Glaucia M. Souza

As condições não são exatamente comparáveis, mas do mesmo modo que a dedicação dos pilotos ingleses na Batalha da Inglaterra foi crucial para enfrentarem os ataques nazistas e motivou a famosa frase de Churchill, nesse final de semana se travou uma discreta e relevante batalha. Envolveu um seleto grupo de diplomatas e funcionários do governo brasileiro em Genebra, apoiados à distância por cientistas do Brasil, articulados mediante intensa troca de mensagens pela internet, em favor da racionalidade e da verdade científica quanto ao tratamento da bioenergia em importante relatório relacionado à transição energética global. E podemos dizer que os resultados valeram a pena.

Essa discussão aconteceu durante recente reunião em Genebra, no âmbito do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, mais conhecido como IPCC, organização criada em 1988 nas Nações Unidas, para dar suporte às políticas públicas nacionais e acordos internacionais sobre o clima global, envolvendo cientistas de todo o mundo e editando relatórios periódicos, com informações e projeções em cenários futuros. Tais relatórios são preparados por grupos de cientistas e passam por sucessivas análises e ajustes antes de serem finalmente divulgados.

Seguindo esse procedimento, nessa reunião se apresentou para representantes dos países a versão preliminar do Sumário para Tomadores de Decisão (Summary for Policy Makers, SPM) do próximo Relatório Especial sobre Mudança de Clima e Solo. Esse documento deveria sintetizar o corpo de estudos realizados e apresentar as principais recomendações para os países. Contudo, refletia de modo impreciso as conclusões alcançadas pelos cientistas, com restrições controversas em relação à bioenergia, baseadas em valores equivocados de produtividade e disponibilidade de áreas de cultivo. Impunha-se rever essas recomendações no SPM, no interesse de todos e em coerência ao próprio documento que deveria refletir.

Com as crescentes evidências das mudanças climáticas como consequência de ações humanas, a redução das emissões de carbono é um imperativo. Nesse sentido, avançar na substituição das fontes fósseis de energia por fontes renováveis é urgente.

Entre as fontes renováveis, especialmente nos países tropicais com clima adequado e disponibilidade de áreas agricultáveis, a bioenergia é uma das alternativas mais viáveis, em custo e em mitigação das emissões, além de proporcionar importantes impactos no desenvolvimento socioeconômico. Esse potencial tem sido amplamente reconhecido na literatura científica e as mais importantes agências internacionais no campo energético, como a Agência Internacional de Energia, destacam a bioenergia com a principal alternativa para a transição energética nos próximos anos.

O IPCC reconhece tal potencial em seu relatório, cujo resumo precisava ser revisto, sob o risco de apresentar recomendações equivocadas. E o time do Brasil foi decisivo para esse ajuste, apresentando aos autores e aos demais países argumentos sólidos que permitiram a adequação correta do documento.

Certamente, outros embates assim já aconteceram e outros ainda virão, mas esse aconteceu agora e convém registrar para todos. Fomos observadores privilegiados da animada interlocução preliminar entre diplomatas do Itamaraty, servidores públicos federais, professores e pesquisadores brasileiros, em boa parte de universidades paulistas e em sua maioria desenvolvendo estudos com o apoio da FAPESP. E durante as apresentações e a análise do documento em Genebra, inclusive no final de semana e até altas horas, foi grande a disposição, com a retaguarda provendo dados, informações e artigos técnicos bem referenciados, para o diplomata em Genebra.

Assim, em um esforço concentrado e cooperativo, se construiu uma argumentação robusta e convincente, que logrou o apoio de outros países e reposicionou de maneira mais adequada a bioenergia, que tem sido e pode ser ainda mais um elemento indispensável no cenário energético de um futuro desejável para todos.

 

*Luiz A. Horta Nogueira é professor titular do Instituto de Recursos Naturais da Universidade Federal de Itajubá e consultor de agências das Nações Unidas (FAO, CEPAL, PNUD) em temas energéticos. Atua em estudos técnicos, econômicos e ambientais de sistemas energéticos, principalmente relacionados à cogeração, bioenergia (etanol, biodiesel e bioeletricidade) e eficiência energética nos usos finais

*Suani T. Coelho é professora / orientadora do Programa de Pós Graduação em Energia. (PPGE) da USP e do Programa de Pos Graduação em Bioenergia da USP/UNICAMP/UNESP e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Bioenergia (GBIO/antigo CENBIO) do IEE/USP, atuando principalmente nos seguintes temas: biomassa, geração de energia com biomassa, geração descentralizada, resíduos sólidos urbanos e rurais, cogeração, biogás, análise de ciclo de vida, externalidades e cana-de-açúcar. É revisora dos periódicos Energy Policy, JOurnal of Cleaner Production, Clean Technologies and Environmental Policy, Biomass and Bioenergy e Energy for Sustainable Development, entre outros. É Editora de Bioenergia do periódico Reneweable and Sustainable Energy Reviews.

*Glaucia M. Souza é Professora Titular e líder do Laboratório de Transdução de Sinal. A Dra. Glaucia Souza é coordenadora de várias iniciativas em genômica de cana-de-açúcar. Em 2000 ela se juntou a um grupo de 200 pesquisadores para o sequenciamento e anotação de ESTs da cana (Projeto SUCEST) como parte do Programa Genoma da FAPESP. Em 2003 ela assumiu a coordenação do SUCEST e iniciou o Projeto SUCEST-FUN (http://sucest-fun.org) composto por uma rede de pesquisadores dedicados à análise funcional dos genes da cana e à identificação de genes associados à características agronômicas de interesse. A Dra. Souza foi Coordenadora de Área (Biologia II) da FAPESP e em 2008 foi apontada Coordenadora do Programa FAPESP de Bioenergia BIOEN. Em 2009 ela se tornou Eisenhower Fellow tendo participado do Programa Common Interest Program em Energia. Orienta pelos programas de Pós-graduação em Bioquímica, Bioinformática e pelo Programa de Pós-graduação Internacional da USP em Biologia Celular e Molecular (Biologia Vegetal). 


Fonte: UNICA