Artigos

O café é o açúcar de amanhã? É bom ficar de olho - Por Arnaldo Luiz Corrêa

Postado em 23 de Novembro de 2019

O mercado futuro de açúcar em NY teve uma semana animada com o contrato com vencimento para março/2020 encerrando a sexta-feira cotado a 12.82 centavos de dólar por libra-peso, uma evolução de 10 pontos em relação à semana passada. Em termos de reais por tonelada, o fechamento de sexta apontava para R$ 1,235 equivalente FOB Santos (com polarização). Isso representa R$ 65 por tonelada a mais no bolso da usina acima da média de fechamento dos últimos 40 dias úteis, ou seja, uma evolução para as usinas que seguraram suas fixações no intuito de obter melhores preços e, por fim, conseguiram.

De acordo com o CFTC (Commodity Futures Trading Commision), a agência americana reguladora do mercado de commodities, os fundos estão vendidos 112,000 contratos reduzindo a posição na semana (lembrando que os números sempre se referem à terça-feira anterior) em cerca de 40,000 contratos. Será que os fundos estariam mudando sua estratégia de ficar vendidos à descoberto e decidiram zerar e ir comprando? Muito cedo ainda para afirmar, mas não é algo impossível.

Os fundos long-short, aqueles que se posicionam no mercado futuro de commodities comprando determinado ativo e, simultaneamente, vendendo outro ativo de tal maneira que o valor nocional de ambos se equivalha, podem estar realinhando suas posições. Explico: no passado, o que vimos (e essa é uma percepção particular deste escriba) foi os fundos comprando energia (petróleo WTI, Brent e Gasolina) e concomitantemente vendendo as softs commodities (café, açúcar, cacau, suco de laranja e algodão). Isso pode ter mudado. Explico a seguir.

Observem que no acumulado deste mês o mercado futuro de café em NY subiu cerca de 13%, o cacau subiu 9% e o açúcar apenas 2.5%. Também subiram petróleo WTI 7%, petróleo Brent 6.6% e gasolina RBOB 5%. Olhando essa evolução, não parece fazer sentido o que acabei de mencionar no parágrafo anterior, pois energia e softs deveriam andar em direções opostas. Minha leitura, no entanto, é que os fundos podem estar trocando as softs (recomprando o que estavam vendidos) e vendendo em seu lugar os grãos. No acumulado da semana a soja caiu 4% e o milho caiu 3%.

Se essa teoria tiver o mínimo de plausibilidade, podemos ver os fundos continuando a recomprar suas posições vendidas e evidentemente colocar o mercado em níveis mais altos. O fato incontestável, no entanto, é que as usinas estão fazendo a lição de casa. Começam a acelerar as fixações para a safra 2020/2021. E algumas já estão com percentual fixado bem acima do histórico. A média de fechamento do açúcar em NY convertido em reais pela taxa do Banco Central para o mês de novembro está em R$ 1,190 por tonelada, R$ 110 por tonelada melhor que a média de abril a setembro. Não foi à toa que as usinas esperaram por melhores dias.

Agora, se você olhar os preços em reais por tonelada para 2020/2021, estão em média R$ 1,260. Não tenha dúvida que as usinas vão continuar aproveitando, mesmo que o mercado em NY sinaliza com certa robustez que vamos bater 14 centavos de dólar por libra-peso no primeiro trimestre de 2020, no mais tardar.

Levantamento da Archer Consulting estima que o endividamento das usinas dia 31 de outubro passado somava R$ 104,32 bilhões, sendo aproximadamente 1/3 em dólares e o saldo em reais. O crescimento da dívida nos últimos doze meses foi de 7.6%. Estima-se que esse endividamento seja de R$ 170,72 por tonelada de cana moída.

Durante todo esse ano, em nenhuma vez as exportações mensais de açúcar do Brasil ultrapassaram as duas milhões de toneladas, fato inédito desde o ano de 2005, em que exportamos 18.2 milhões de toneladas de açúcar. O acumulado de janeiro a outubro deste ano soma 14.6 milhões de toneladas de açúcar e projeta uma exportação total para o ano de 2019 de 17.4 milhões de toneladas de açúcar o menor volume desde 2004. O Brasil deve encerrar o ano com uma queda de 18.9% em relação ao volume do ano passado.

Nos últimos doze meses o valor médio das exportações equivale a 12.62 centavos de dólar por libra-peso. No mesmo período, o Brasil exportou 1.8 bilhão de litros que renderam o equivalente em açúcar a quase 14 centavos de dólar por libra-peso.

O mercado de café experimentou uma sensacional recuperação de preços, por razões que não estão muito claras do ponto de vista fundamental. Os rumores davam conta de que uma grande cooperativa brasileira teria sido forçada e recomprar sua posição vendida em NY e alimentou a alta nas cotações. Por outra visão, os fundos com seus robôs e algoritmos zeraram a posição vendida e passaram agora a ficar comprados. Está cada vez mais complicado o processo de tomada de decisão. Rumores também são fortes de que empresas aqui e lá fora estão sangrando com operações de balcão mal estruturadas. Os envolvidos são sempre os mesmos.

Um corretor de açúcar baseado em NY, observando de perto o que ocorre no mercado de café, dispara: “Quando será que os fundos que estão vendidos no açúcar vão olhar o café e dizer: alguma coisa está acontecendo ali [no café], vamos cobrir nossa posição?”. O grisalho corretor lança sua profecia: “O café é o açúcar amanhã, fica de olho”