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O desafio da conectividade no agro

Postado em 30 de Setembro de 2019

Dados preliminares do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2017 apontam que 41% das propriedades rurais no Brasil têm acesso à internet. Do total de produtores entrevistados, 63% afirmaram se conectar via celular, e 21% declararam não acessar a rede por causa da indisponibilidade.

“A falta de conectividade no campo tem o mesmo peso da falta de infraestrutura logística”, diz Alfredo Miguel Neto, vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Essa desconexão fica ainda mais relevante quando se levam em conta as tecnologias necessárias para o próximo salto de produtividade brasileiro. Elas se juntam na chamada agricultura 4.0, que utiliza tratores autônomos, inteligência artificial e internet das coisas.

As mais recentes máquinas agrícolas vêm equipadas com computador de bordo e sensores capazes de captar todo tipo de informação. Mas é preciso internet para que esses dados sejam coletados e interpretados a ponto de orientar uma tomada de decisão. “A agricultura sustentável passa pelo uso de tecnologia para produzir mais na mesma área, reduzir o custo de produção e tornar o Brasil mais competitivo no mercado externo”, diz Miguel Neto.

A solução para a ausência de internet no campo, principalmente nas áreas mais remotas, está alicerçada em três pilares, na opinião do vice-presidente da Anfavea. Primeiro: passa por políticas públicas que incentivem as empresas de telefonia móvel a levar internet para o campo. Segundo: envolve a criação de linhas de crédito privadas e públicas para o produtor financiar sua conectividade. Terceiro: engloba parcerias público-privadas.

De acordo com Miguel Neto, a necessidade da participação do governo se dá pelo fato de o campo ser pouco atrativo para as empresas de telefonia. “Enquanto nas cidades elas têm milhões de clientes, na zona rural a clientela é mais rarefeita”, diz. Empresas e grandes produtores gastam muito para colocar internet em sua fazenda, mas são poucos os agricultores com condições de fazer isso.

Iniciativas driblam a falta de internet

A Trópico é um exemplo de empresa que se dedica à banda larga sem fio para o campo. A companhia nasceu no Centro de Pesquisas e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) da antiga Telebras e hoje tem o agro como prioridade. “Nossa solução de conectividade é baseada na tecnologia long term evolution (LTE), que propicia raios de cobertura de até 30 km com uma única torre”, diz Armando Barbieri, gerente de Marketing de Produto da Trópico.

O valor de implantação é variável. “Depende do projeto, do tamanho da propriedade, da topografia, da quantidade de máquinas que precisam ser conectadas e da existência de torres que possam ser aproveitadas”, diz o gerente.

A falta de conectividade no campo tem motivado outras iniciativas. Durante a Agrishow deste ano, oito empresas dos setores de agro e de telecomunicações (AGCO, Climate Field View, CNH Industrial, Jacto, Nokia, Solinftec, TIM e Trimble) lançaram o ConectarAgro, iniciativa para promover uma solução tecnológica aberta e estimular a expansão do acesso à internet ao campo brasileiro.

Fundada por um grupo de engenheiros cubanos em 2007, a Solinftec é uma empresa brasileira de monitoramento e gestão de propriedades rurais. Começou com serviços de telemetria para o setor de cana-de-açúcar no estado de São Paulo. “Nosso principal objetivo é entregar informações para o produtor rural ou operador da máquina usar e evitar erros”, diz Rodrigo Iafelice, CEO da companhia.

Hoje, a empresa tem diversas ferramentas, entre elas o certificado digital cana-de-açúcar, que faz o rastreamento para a certificação da origem, e o Fila Única de Transbordo (FUT), um sistema que utiliza algoritmos e sensores para otimizar o uso dos equipamentos durante a colheita. Essas soluções fizeram a Solinftec crescer rápido – já está presente em 11 países– e chegar a lugares onde não havia internet. “Não é o nosso foco, mas nos vimos obrigados a desenvolver uma solução para fazer monitoramento em tempo real”, diz Iafelice.

Serviço na nuvem

A novata DataFarm, plataforma de inteligência agronômica, é um exemplo de como a precariedade da internet no campo é um desafio para o agronegócio. Criada em 2016, a agritech tem por objetivo propiciar a melhor produtividade possível. Para isso, trabalha com um simulador agronômico.

“Na comparação com a F1, é como conhecer o potencial do carro (fertilidade e clima), as condições da pista (propriedade rural) e os obstáculos que não conseguimos controlar (adversidades climáticas)”, compara Armando Saretta Parducci, diretor de Operações da DataFarm.

Dessa forma, é possível traçar cenários e, com o uso da inteligência artificial, gerar estratégias para o produtor aumentar a eficiência. “Nosso serviço é baseado em nuvem. Quanto mais conectividade, melhor, pois os dados podem ser transmitidos de forma mais automatizada”, diz Parducci.

No momento, para driblar a ausência de conectividade, a startup desenvolveu aplicativos para celulares e tablets que funcionam offline. “Acreditamos que, se o governo tem interesse que as empresas nacionais de serviços em nuvem prosperem, o investimento na distribuição de internet de qualidade em locais remotos deve ser prioridade”, recomenda.

Há várias possibilidades para a conectividade no campo. No curto prazo, a telefonia móvel é a mais viável, porque a internet via satélite ainda é cara. Mas, no médio e longo prazo, isso deve mudar. A boa notícia é que em agosto foi criada a Câmara do Agro 4.0, um acordo de cooperação entre os ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e da Ciência, Tecnologia, Inovações de Comunicações (MCTIC).

“Essa iniciativa visa ampliar a conectividade no campo e estabelecer ações para que o Brasil seja um exportador de soluções de internet das coisas com aplicação no agronegócio”, disse a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, durante o lançamento do acordo.

 


Fonte: Estadão