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Pesquisa destaca potencial no aumento da produção de bioenergia de cana na América Latina e África

Uma pesquisa do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Universidade Estadual de Campinas (Nipe-Unicamp) quer destacar o potencial que existe para a geração de bioenergia a partir da cana-de-açúcar em países da América Latina e também da África.

Segundo estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), cerca de 440 milhões de hectares de terra estariam disponíveis globalmente para serem usados para produção de bioenergia até 2050. Desse total de área, 80% dessas terras estariam localizadas justamente na África e na América do Sul e Central, sendo que cerca de 50% delas em apenas sete países: Angola, República Democrática do Congo e Sudão, na África, e Argentina, Bolívia, Colômbia e, em maior parte, no Brasil, na América Latina.

O Brasil é, de longe, o país com maior disponibilidade de terra para plantio de cana para produção de bioenergia. O país é um exemplo raro, caso atípico, de produção de bioenergia a partir da cana com alta produtividade", disse Luis Augusto Barbosa Cortez, professor da Unicamp. As conclusões da pesquisa, denominada Projeto LACAF, foram reunidas no livro Sugarcane bioenergy for sustainable development.

De acordo com o estudo, assim como acontece no Brasil, a Colômbia produz cana e etanol com alta produtividade. Por sua vez, a Argentina iniciou recentemente um programa de geração de bioenergia a partir da cana e do milho e tem atingido níveis de mistura de etanol na gasolina próximos aos do Brasil. E, paradoxalmente, a Guatemala é um grande produtor de açúcar da cana, produz e exporta etanol para os Estados Unidos e importa toda a gasolina de que necessita.

Já na África, as experiências mais bem-sucedidas ocorreram na África do Sul - que hoje é o maior produtor de açúcar da cana do continente africano -, além das Ilhas Maurício, Malawi e, mais recentemente, Moçambique.

Em comum nas duas regiões uma parcela expressiva de suas populações ainda não tem acesso à eletricidade e energia limpa para cocção de alimentos. Na África Austral, por exemplo, estima-se que 59 milhões de pessoas utilizem carvão para cozinhar - o que gera sérios problemas de saúde e ambientais, como o desmatamento. "A energia limpa para cocção na África pode ser a bioenergia", disse o pesquisador do Nipe-Unicamp, Luiz Augusto Horta Nogueira.

A demanda por etanol para cocção de alimentos na África Austral seria muito superior à voltada para o abastecimento da frota veicular da população das cidades, onde até 90% da população usa energia de baixa qualidade e em condições insalubres para cozinhar, estimam os pesquisadores. Uma família típica da região precisaria de 360 litros de etanol por ano para abastecer um fogão a etanol, calcularam.

"A produção de etanol para cocção já foi tentada em alguns países da África, como em Moçambique, mas não foi adiante porque faltou combustível. Mas se tiver disponibilidade de etanol para essa finalidade com certeza o mercado vai absorver a produção", disse Nogueira.

Os pesquisadores estimaram que a produção de 4,1 bilhões de litros de etanol de cana e de 2,7 terawatt-hora (TWh) de eletricidade por ano em Moçambique geraria 3,3 milhões de empregos e aumentaria em 28% o Produto Interno Bruto (PIB) do país africano.

Para produzir essa quantidade de combustível e de eletricidade seria necessário cultivar cana em 600 mil hectares, o que corresponde a menos de 3% da terra disponível para plantação de cana no país africano, afirmaram.

"Há terra adequada e disponível suficiente no país para expandir a produção de cana-de-açúcar, sem prejudicar outros usos, como a produção de alimentos e de ração animal. A visão de que a produção de bioenergia competiria com os alimentos é equivocada", disse Nogueira.

A inclusão de pequenos produtores deve fazer parte do modelo de produção dos países que adotarem a bioenergia da cana, segundo Manoel Regis Lima Verde Leal, professor da Unicamp e um dos editores do livro, juntamente com Cortez e Nogueira.

À exceção do Brasil, da Austrália e dos Estados Unidos, no resto do mundo a cana é cultivada por pequenos produtores, em propriedades agrícolas menores do que 10 hectares. "A Índia, que é o segundo maior produtor de cana no mundo hoje, tem 5 milhões de hectares de cana plantada e 50 milhões de produtores", disse Leal.

 

 

 


Fonte: Datagro