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Petrobras segue com defasagem após reajuste

Postado em 9 de Fevereiro de 2021

No dia em que os preços do petróleo fecharam acima de US$ 60 pela primeira desde janeiro do ano passado, as ações ordinárias da Petrobras caíram 4,1%, em cenário de dúvidas do mercado sobre a autonomia da política de preços de combustíveis da companhia - tema politizado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Ontem a estatal anunciou reajustes de 6,2% para o diesel, de 8,2% para a gasolina e de 5% para o gás liquefeito de petróleo (GLP) nas refinarias, depois de um fim de semana em que tentou desmentir que esteja mudando a política de alinhamento de preços ao mercado internacional. Investidores questionam o fato de a companhia estar segurando os reajustes.

Segundo analistas, mesmo depois da alta de ontem, a estatal continua praticando preços abaixo da referência internacional. A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) estima que o litro do diesel vendido pela empresa ainda está R$ 0,23 abaixo do preço de paridade de importação (PPI). Para a gasolina, a defasagem é de R$ 0,07. A XP Investimentos calcula que o preço do diesel está 14% inferior à paridade, enquanto a StoneX ainda vê perspectiva de alta de R$ 0,19.

Ontem bancos de investimento, como a XP e o Bradesco BBI, cortaram, ambos para neutro, a recomendação de compra das ações da Petrobras. O preço-alvo dos papéis da empresa também foram reduzidos: de R$ 35 para R$ 32 no caso da XP e de R$ 37 para R$ 34 no caso do Bradesco. “Embora a Petrobras controle o tempo de seus ajustes de preço do diesel, a situação com os caminhoneiros nos faz acreditar que esse timing pode não estar de acordo com as expectativas do acionista”, alerta o Bradesco BBI.

Houve quem considerasse “exagerado”, caso do BTG, o ruído sobre a independência da administração da Petrobras, e reiterasse que, enquanto Castello Branco e equipe permanecerem no cargo, os pilares para criação de valor para o acionista permanecerão “intocados”. O Morgan Stanley divulgou relatório falando em “mais barulho do que substância”.

Em entrevista à TV Bandeirantes, Bolsonaro voltou a dizer que o governo federal não controla os preços dos combustíveis praticados pela Petrobras.

A discussão sobre os preços dos combustíveis ganhou força novamente na semana passada. Na sexta-feira, Castello Branco foi convocado à Brasília para participar de reunião com Bolsonaro, para prestar esclarecimentos sobre a política de preços da Petrobras, considerada pouco transparente por agentes de mercado. O executivo afirmou o governo “nunca interferiu” nos preços ou qualquer assunto interno da Petrobras.

No fim de sexta-feira, quando Castello voltava para o Rio, onde está a sede da estatal, a Reuters informou que a Petrobras havia decidido, ainda em 2020, estender de trimestral para anual o período limite de apuração da aplicação da política de preços de combustíveis. No começo daquela noite, a companhia soltou nota confusa confirmando que havia alterado o período limite de acompanhamento da aplicação da política de preços.

A estatal destacou que também adota métricas de monitoramento de preços de curto prazo e que ela pode, num dado trimestre, praticar preços eventualmente abaixo do PPI desde que a diferença “seja mais do que compensada nos trimestres seguintes”. Não quer dizer que a petroleira ficará meses sem reajustar os preços, mas que pode trabalhar com defasagens em relação ao PPI por tempos maiores. O mercado reagiu mal à mudança, implementada em junho do ano passado, mas que não havia sido comunicada até então.

A Petrobras divulgou outra nota no domingo na qual acrescentou que a mudança “não deve ser confundida, de forma alguma, com modificação de política comercial” - a companhia alega que os pilares da política de preços, de alinhamento ao mercado internacional e periodicidade de reajustes não definida, estão mantidos. Ontem, a estatal insistiu: “Como se trata de uma aferição a posteriori, não tem impacto nos reajustes de preços.”

A XP vê como negativa a mudança uma vez que coloca a empresa em situação difícil em momento em que há depreciação do real e alta nos preços do petróleo. A corretora estima que a manutenção dos preços atuais do diesel implica em redução de 12,7% nas estimativas iniciais de Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) para 2021. Na avaliação da XP, não há evidências de interferência do governo, mas a empresa, mesmo agindo de forma independente, “tomou decisões equivocadas” que aumentaram a percepção de risco sobre as ações da petroleira.

Para o analista Gabriel Francisco, da XP, faltou transparência da Petrobras na decisão de estender para anual o período limite de apuração da aplicação da política de preços. “Entendo que é uma estratégia comercial da empresa, mas tendo em vista o quão relevante é esse tema e o quão sensível ele é historicamente para essa companhia, acredito que merecia uma comunicação melhor sim.”

O analista da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman, faz coro. “Quanto maior o nível de assimetria [de informações], maior é o custo que o mercado vai requerer da empresa... Não é possível cravar se teve ou não interferência [do governo], mas é muito claro que, quanto menores os ruídos e arestas sobre a atuação da Petrobras, melhor para a empresa.”

Em meio às repercussões sobre o tema, questionou-se se a estatal não deveria ter divulgado a mudança na época de sua implementação, no primeiro semestre de 2020. A divulgação por companhias abertas está prevista na instrução 358 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que determina que isso seja feito quando se trata de informações que podem influenciar a tomada de decisão por investidores. A única exceção ocorre quando se trata do que a regra chama de “preservação de interesse legítimo da companhia” (uma fusão ou aquisição cujas informações ainda não estejam circulando, por exemplo).

“A política de preços da Petrobras é um assunto sensível, mas uma mera mudança na periodicidade pode ser considerada um fato relevante?”, questionou um especialista no mercado de capitais. Procurada, a CVM respondeu que não comenta casos específicos.

O presidente da Abicom, Sérgio Araújo, disse que a Petrobras está ferindo o termo de compromisso com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) de 2019, no qual a estatal se compromete a “demonstrar transparência e isonomia competitiva junto aos demais players”. Os importadores reclamam que a empresa tem praticado preços predatórios desde o segundo semestre de 2020 e que períodos muito longos de defasagem desestruturam a cadeia. Ele lembra que tradings têm contratos com terminais, com compromissos de pagamentos mínimos mesmo quando não importam.

Um ex-conselheiro da Petrobras disse que Castello Branco era, no tempo em que foi do conselho da estatal, um dos integrantes mais ortodoxos, na defesa do alinhamento com o PPI. “A tentação [de interferir] existe, mas duvido que o Roberto [Castello Branco] fique num cenário desse [com interferência governamental]”, disse.

A história da política de preços da Petrobras é de idas e vindas. A greve dos caminhoneiros de 2018 pôs fim aos reajustes diários da gestão Pedro Parente. Para aplacar os ânimos do movimento, o governo Michel Temer adotou programa de subsídios temporários, com desconto de R$ 0,30 no diesel e reajustes mensais. Em 2019, a Petrobras voltou a ter liberdade e passou a praticar preços sem periodicidade definida.

 


Fonte: Valor Econômico