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Peugeot e Fiat criam grupo Stellantis para enfrentar um futuro complicado

Postado em 5 de Janeiro de 2021

Os acionistas da Peugeot e da Fiat Chrysler validaram nesta segunda-feira (4) a fusão dos grupos, um casamento franco-ítalo-americano concebido para atingir um tamanho crítico em um mercado automobilístico em plena revolução.

A união dos grupos francês PSA e ítalo-americano FCA criará a Stellantis, quarta maior montadora em número de veículos vendidos e a terceira em volume de negócios, atrás da japonesa Toyota e da alemã Volkswagen.

Após a votação dos acionistas da PSA nesta manhã, os acionistas da FCA, reunidos em assembleia geral, votaram à tarde a favor do projeto de fusão. A união se tornará oficial em 16 de janeiro, informaram os dois grupos.

A Stellantis começará a cotar a partir do dia 18 nas bolsas de Paris e Milão, e do dia 19, na New York.

O novo grupo Stellantis terá mais de 400 mil funcionários e reunirá 14 marcas, como Citroën e Maserati (que já estiveram unidos brevemente há 50 anos), Fiat e Opel, Peugeot e Alfa Romeo, Chrysler, Dodge ou Jeep.

“Nunca tive tanta vontade de viver um momento da história como hoje”, disse o presidente do conselho de supervisão da PSA, Louis Gallois, que se aposentará após a fusão.

“Teremos um papel de primeiro plano na próxima década, na redefinição da mobilidade, como fizeram nossos pais fundadores, com muita energia”, disse o presidente da FCA, John Elkann, referindo-se a uma “fusão histórica”.

“Esta fusão era uma questão de sobrevivência tanto para a Fiat como para a PSA”, afirma Giuliano Noci, professor de estratégia da Escola Politécnica de Comércio de Milão.

Os dois grupos enfrentam enormes desafios tecnológicos e estratégicos –veículos elétricos, digitalização, direção autônoma– e os efeitos devastadores da pandemia de Covid-19.

As marcas do grupo vão reduzir, em particular, os custos de desenvolvimento e de fabricação e completar sua oferta em todas as gamas.

“Graças a sua união com a PSA, a Fiat-Chrysler poderá reforçar sua presença na Europa”, afirma Giuseppe Berta, professor da Universidade Bocconi de Milão e especialista em Fiat.

“O grupo francês colocará novamente um pé nos Estados Unidos, graças a seu aliado ítalo-americano”, acrescenta.

Uma fusão modificada

A votação dos acionistas sela a união contemplada desde 2018, anunciada no fim de 2019 e que teve a preparação afetada pela pandemia.

No fim de dezembro, a Comissão Europeia aprovou a união, com a condição de que os dois grupos cumpram seus compromissos para preservar a concorrência no setor dos pequenos utilitários, área em que controlam grande parte do mercado.

As montadoras já haviam modificado seu contrato para que a união seja um casamento entre iguais, enquanto a pandemia afetava suas respectivas contas.

A FCA aceitou reduzir o valor de um dividendo excepcional pago a seus acionistas. A PSA decidiu vender 7% do fabricante de equipamentos francês Faurecia antes de distribuir o restante aos acionistas da Stellantis. A participação do grupo chinês Dongfeng também será reduzida.

Mas o fundo Phitrust, que tem menos de 1% do capital da PSA, critica uma falta de “equilíbrio entre as partes” que favorece os ítalo-americanos.

HAVERÁ FECHAMENTO DE UNIDADES?

Nos documentos apresentados às autoridades financeiras, PSA e Fiat consideram que a fusão custará 4 bilhões de euros (R$ 25,3 bilhões) e que as sinergias permitirão economizar com o tempo até 5 bilhões de euros (R$ 31,6 bilhões) por ano.

O presidente do conselho de administração da PSA e futuro presidente do novo grupo, Carlos Tavares, disse no final de 2019 que não estava previsto o fechamento de nenhuma fábrica.Os sindicatos duvidam disso.

“Globalmente, é um bom seguro para o futuro do nosso grupo. Os que não tomarem esta curva correm o risco de ficar para trás”, comenta Franck Don, delegado do sindicato CFTC da PSA.

“Hoje, o grupo FCA é uma grande incógnita para nós”, disse o sindicalista. “Que sinergias haverá? Que potenciais consequências para as plantas situadas na França?”, questiona Don.

O fundo Phitrust adverte, porém, que a Fiat não tem margem de manobra na Itália, onde obteve um empréstimo garantido pelo Estado de 6 bilhões de euros (R$ 38 bilhões).

“As fábricas francesas da PSA poderão se tornar a variável dos ajustes, gerando fortes perdas de emprego”, avisa o fundo. ​

 


Fonte: Folha de S. Paulo