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Por que a gasolina vai subir se o petróleo está caindo – Fábio Alves

Postado em 5 de Novembro de 2014
Especialistas explicam as razões por trás do reajuste que pode ser anunciado nesta terça-feira, 4, após o fechamento do mercado financeiro
 
Em dia de forte queda no preço do barril de petróleo no mercado internacional, cresce a especulação de que a Petrobras poderia anunciar, ao final da reunião do seu Conselho de Administração, hoje, um reajuste da gasolina.

É fato que a defasagem entre os preços internacionais do petróleo e os dos combustíveis no mercado nacional caiu bastante nos últimos meses. Há quem diga que, no caso da gasolina, essa relação é até negativa neste momento, o que tiraria a pressão do governo em autorizar um reajuste nesse preço agora.


Ontem, o petróleo para dezembro negociado na Nymex caiu US$ 1,76 (-2,2%), para US$ 78,78 por barril, o fechamento mais baixo desde 28 de junho de 2012. Na ICE, o Brent para o mesmo mês recuou US$ 1,08 (-1,3%), para US$ 84,78 por barril. Por volta das 11h35 da manhã desta terça-feira, o barril de petróleo negociado na Nymex caía 2,3% para US$ 76,97, enquanto o Brent era cotado a US$ 82,56, com queda de 2,62%, ainda sob o impacto da notícia de que a Arábia Saudita reduziu o seu preço de venda do produto para os Estados Unidos.


Mas a defasagem é o único fator a se levar em conta nesta equação?


Não, dizem interlocutores desta coluna.


Em relatório a clientes hoje, os analistas da LCA Consultores afirmam que a expectativa é de um reajuste de 5,0% nas refinarias para a gasolina. “Apesar de a defasagem ter sido praticamente eliminada na ponta por causa da forte queda dos preços do petróleo no exterior, este reajuste se faz necessário por causa do forte endividamento da empresa”, diz o relatório. Segundo os analistas da LCA, o peso da gasolina no IPCA é de 3,75%.


Em conversa com esta coluna, um economista de um grande fundo de investimento do Rio de Janeiro argumenta que a defasagem mede se daqui em diante a Petrobras vai perder dinheiro ou não com a gasolina no seu preço atual. “Hoje, a defasagem está negativa, o que quer dizer que a Petrobras, daqui para frente, vai ganhar dinheiro com esse preço da gasolina comparado com o preço internacional”, diz ele.


Por outro lado, ressalta a fonte acima, a estatal passou os últimos anos perdendo dinheiro com o represamento nos preços dos combustíveis, o que deixou a empresa numa situação complicada em termos de endividamento.


Assim, o que é mais importante: o que está acontecendo, na margem, com os preços do petróleo neste momento ou uma avaliação mais geral da situação financeira da Petrobrás?
“Se for fazer uma análise da situação da empresa, é razoável conceder um reajuste”, diz ele.


Todavia, diante da deterioração significativa das contas fiscais, refletidas no enorme déficit primário consolidado do setor público em setembro, o governo precisará em algum momento elevar a alíquota da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) dos combustíveis para tentar melhorar a arrecadação tributária.


Ou seja, dar um reajuste agora para melhorar a situação da Petrobras colocará o governo numa situação delicada para, mais adiante, elevar a alíquota da Cide da gasolina a fim de aliviar a sua situação fiscal. Mas os dois, combinados, poderão ter um impacto grande sobre a inflação.


Para o economista do fundo de investimento carioca, um eventual reajuste de 5% da gasolina agora poderá aumentar o IPCA em cerca de 0,20 ponto porcentual, o que, ao final deste ano, poderá levar a inflação a superar o teto oficial da meta, de 6,5%.


Nos cálculos de um experiente economista paulista, um eventual reajuste de 5% da gasolina teria um impacto de 0,15 ponto porcentual no IPCA.


E qual o efeito psicológico que teria no mercado um anúncio de reajuste?
Para a ação da Petrobras na Bolsa, em particular, o impacto seria positivo, diz o economista paulista. “Para o ambiente macroeconômico como um todo a sensação – justa ou não – seria de que está começando o processo de ajuste dos nossos muitos desequilíbrios, na sequencia da alta da Selic da semana passada”, explicou a fonte acima.


Sobre a questão da defasagem, ele argumenta que, de fato, considerando-se os preços atuais no exterior versus a taxa de câmbio, o preço doméstico não tem defasagem.
“Ocorre, porém, que se criou um buraco enorme nas contas da Petrobras nos últimos meses (ou anos) e um reajuste agora seria um importante alívio para o caixa da empresa e sua capacidade de investir”, diz ele.


Se, de fato, o governo se antecipar e conceder o reajuste da gasolina, fortalece a interpretação do mercado sobre uma eventual guinada mais ortodoxa do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, além de compensar o efeito de possíveis notícias negativas no campo macroeconômico ou político, como novas derrotas do governo em votações no Congresso.
 

Fábio Alves é jornalista.

Fonte: O Estado de S. Paulo