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Problema no abastecimento de biodiesel é efeito dominó que vem desde o L71

Postado em 17 de Junho de 2020

Segundo a ANP, “a medida é necessária para dar continuidade ao abastecimento nacional, uma vez que as entregas de biodiesel previstas para o período citado poderiam não ser suficientes para atender à mistura de 12% ao diesel B, que vem sendo bastante consumido, apesar da atual situação de pandemia”.

A União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio) explica que o problema vem de uma série de outros embaraços, que começaram na segunda quinzena de abril, quando as distribuidoras reduziram drasticamente a retirada dos volumes adquiridos no 71º Leilão de Biodiesel (L71).

Em abril, as distribuidoras de combustíveis deixaram de retirar biodiesel, alegando força maior, sem justificativa, para não pagarem as multas pelo descumprimento da retirada mínima de 95%. A não retirada do biodiesel gerou uma série de transtornos em efeito dominó que culminaram nessa redução de percentual.

“Chegou a um ponto de não ter como produzir por conta do abrupto represamento da retirada das distribuidoras, que atrapalhou o fluxo de produção das indústrias. Algumas empresas ficaram mais de 10 dias paradas por conta da baixa retirada”, relata o diretor superintendente da Ubrabio, Donizete Tokarski.

“Quando o país entrou efetivamente em isolamento social, as distribuidoras subestimaram o consumo de diesel B (88% diesel fóssil + 12% biodiesel). Com isso, as distribuidoras não retiraram das indústrias, que ficaram abarrotadas e tiveram que parar de produzir. Mas o consumo surpreendeu. Só então, as distribuidoras começaram a retirar biodiesel, possibilitando que as indústrias voltassem a funcionar”.

Na época, também se começou a discutir mudanças no edital do L72 (abastecimento de maio a junho), com as distribuidoras pedindo para que as retiradas mínimas caíssem para até 50%.

“A Ubrabio se manifestou veementemente contra essa redução, perante a ANP e o Ministério de Minas e Energia, alertando que isso poderia tumultuar o abastecimento nacional, por afetar o planejamento das indústrias, que precisam de matéria-prima, insumos, capacidade de armazenagem etc. Apesar disso, o edital do L72 foi alterado para que a retirada mínima caísse para 80%”, explica Tokarski.

“Isso resultou em uma negociação pressionando os preços para baixo e as empresas tiveram que se adaptar para o pior, reduzindo o volume de matéria-prima adquirido, em função dos 80%”.

Tokarski aponta ainda dois fatores que, combinados com a falta de previsibilidade adequada, afetaram a capacidade de atender a demanda do produto. Uma é o óleo de soja, principal matéria-prima do biodiesel. Com a demanda aquecida da soja brasileira para exportação para a China e a alta do dólar – que chegou a superar os R$ 6 –, a retenção para processamento interno ficou restrita. Com a redução da retirada mínima de biodiesel para 80% no L72, os produtores ficaram sem proteções financeiras para competir com a China.

Além disso, as indústrias de biodiesel tiveram que passar por um intenso processo de adequação do ambiente de trabalho, com redução de pessoal e, mais recentemente, afastamentos em função de contaminações externas pelo coronavírus.

Retenção da soja

A indústria de processamento de soja, que gera óleo e farelo, teve dificuldades de retenção de grãos para esmagamento, o que, consequentemente, gerou uma escassez de óleo de soja para produção de biodiesel diante de uma vertiginosa recuperação da demanda de diesel B.

Previsibilidade

“Esse efeito dominó não pode ser atribuído aos produtores de biodiesel. Foi uma sucessão de eventos externos e erros que resultaram na falta de previsibilidade para o setor que não pode, de maneira nenhuma, trabalhar sem planejamento”, conclui.


Fonte: Ubrabio