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Produtores fazem ofensiva contra lobby americano por tarifa zero para etanol importado dos EUA

Postado em 10 de Agosto de 2020

Produtores brasileiros de etanol pressionam o governo federal para estabelecer, em setembro, a tarifa de importação de 20% prevista no Mercosul para a importação do combustível dos Estados Unidos.

No próximo dia 31 de agosto vence o prazo da isenção de importação para até 750 milhões de litros de etanol concedida pelo governo brasileiro no ano passado, e os produtores não querem que ela seja renovada.

A isenção para a entrada de etanol americano no Brasil foi dada pelo governo de Jair Bolsonaro em setembro do ano passado em meio ao processo da aproximação da administração de Donald Trump.

Produtores brasileiros vêm defendendo junto ao governo federal a necessidade de, com o fim do prazo previsto na portaria, todo volume importado de etanol americano ter a tarifa fixada pelo Mercosul para o combustível vindo de outros países.

A questão já está provocando uma queda de braço nos bastidores do setor. De um lado, os produtores brasileiros defendem o fim das isenções. De outro, os produtores de etanol americanos pressionam para que o governo brasileiro amplie a tarifa zero para todas as exportações do combustível dos EUA para o Brasil, sem cotas.

Os produtores brasileiros argumentam que os Estados Unidos, apesar de terem sido beneficiados com tarifa zero até o volume de 750 milhões de litros, não concederam qualquer contrapartida em relação às tarifas de exportação do açúcar brasileiro, por exemplo, que chegam perto de 140%.

O forte lobby americano conta com o apoio do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Todd Chapman, que se aproximou bastante do presidente. No último dia 30, Chapman se reuniu com vários ministros do governo brasileiro para tratar do assunto.

Evandro Gussi, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), que reúne grande parte dos produtores de etanol do país, diz que não tem sentido o Brasil zerar as tarifas de importação do etanol americano sem contrapartidas.

“O embaixador Todd Chapman tem procurado uma série de pessoas com dados absolutamente equivocados. Os americanos não assumem que eles têm uma tarifa extremamente abusiva para o açúcar e ainda querem falar sobre livre mercado. A expressão livre mercado para ele só é traduzida do inglês para o português”, afirma.

A Unica encaminhou carta aos ministérios da Economia, da Agricultura, de Minas e Energia e ao próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, alertando sobre a questão.

A produção nacional de etanol seria suficiente para atender a demanda do país, segundo a Unica, mas isenções fiscais como a aplicada à importação do combustível americano viabilizam a importação. Há vantagens logísticas na importação sem a tarifa em algumas regiões do país.

Por conta da pandemia, que reduziu a demanda por combustíveis em todo o mundo, os estoques de etanol atualmente estão 38% maiores que no primeiro semestre do ano passado. Essa situação joga o preço do produto para baixo.

De janeiro a abril deste ano foram importados pelo Brasil um total de 741,6 milhões de toneladas de etanol, das quais 663,7 milhões dos Estados Unidos.

Gussi ainda cobra uma promessa que não teria sido cumprida pelos americanos: abrir mercado para o açúcar brasileiro. O Brasil exporta entre 26 milhões de toneladas a 30 milhões de toneladas por ano de açúcar para os Estados Unidos, e a cota de tarifa zero americana é da ordem de 120 mil a 130 mil toneladas, de acordo com o executivo.

Segundo Gussi, com a alta taxação americana, uma tonelada de açúcar exportada além da cota a US$ 280 para aos EUA embute só de taxa mais US$ 340, tirando a competitividade do produto brasileiro.

“Não tem nenhum sentido os Estados Unidos quererem zerar essa tarifa. Eles não fizeram nada de contrapartida para isso. A proposta que fizemos era zerar a tarifa do etanol e eles zeravam a do açúcar, mas eles fingem que não estão ouvindo essa conversa. É um completo absurdo”, queixa-se. “Eles (os EUA) querem transformar o Brasil no quintal deles para resolver o problema de etanol que eles mesmos criaram”.

Os produtores de etanol nos EUA, que usam predominantemente o milho como matéria prima, são fortes competidores dos produtores brasileiros, que têm como insumo a cana-de-açúcar. O combustível renovável, no entanto, sofre com o forte lobby das petroleiras nos EUA e não deslancha por lá, onde a adição de etanol à gasolina não passa de 10%.

Além de não ter um mercado interno forte, os produtores americanos de etanol vêm perdendo vários mercados como o chinês, o europeu e o colombiano, gerando cerca de 5 bilhões de litros excedentes nos EUA. Daí o interesse em abrir espaço no mercado brasileiro.

 


Fonte: O Globo