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RenovaBio deve estimular cogeração da cana

Desenhado para estimular o consumo e a produção de biocombustíveis por meio de metas de descarbonização para o setor de transportes, o programa RenovaBio poderá acabar também impulsionando a cogeração de energia elétrica a partir de biomassa.

Na avaliação da Associação da Indústria da Cogeração de Energia (Cogen), apenas as usinas de cana-de-açúcar poderão agregar ao sistema elétrico nacional 8 gigawatt (GW) de capacidade instalada até 2030, ante uma capacidade atual de 11,3 GW, o que representaria um acréscimo de 70%.

"O avanço do RenovaBio deve incrementar a contribuição da cogeração para o setor elétrico em alguns pontos percentuais", afirma Newton Duarte, presidente da associação. No último ano, do total de potência instalada em usinas térmicas à base de biomassa para cogeração, o que realmente foi cogerado e vendido ao mercado somou pouco mais de 7 GW. Isso equivaleu a 6% da energia elétrica consumida no país.

Dos 8GW de potência adicional projetados pela Cogen como reflexo do RenovaBio, metade deve derivar de investimentos para aumentar a capacidade de cogerar energia a partir do bagaço da cana em usinas que já atuam nesse mercado, diz Duarte. Atualmente, das cerca de 400 usinas sucroalcooleiras instaladas no país, 177 vendem energia cogerada do bagaço, segundo balanço da Cogen.

Mas esses 4 GW de potência só devem ser adicionados caso o setor sucroalcooleiro responda da forma esperada pelo governo ao estímulo à produção de etanol até 2030. O pressuposto é que, até lá, as usinas do Brasil estejam produzindo 52 bilhões de litros do biocombustível por ano, ante cerca de 29 bilhões de litros esperados pelo mercado para este ano. Para garantir esse aumento de produção, o setor teria que aumentar sua moagem de cana em 200 milhões de toneladas, sobre as atuais 570 milhões de toneladas esperadas para a safra do Centro-Sul.

"Esse aumento de cogeração viria apenas com a expansão da capacidade em usinas que já exportam energia, sem contar com investimentos [em unidades de cogeração] das usinas que ainda não exportam", afirma Duarte.

Há ainda um potencial de cogeração de mais 4 GW que podem resultar dos estímulos do RenovaBio que é a geração a partir do biogás, diz o presidente da Cogen. Para Duarte, a forma mais eficiente de produzir energia a partir de biogás é utilizando como matéria-prima a vinhaça, um subproduto da moagem de cana. Para cada litro de etanol produzido, uma usina produz cerca de 12 litros de vinhaça.

Muitas usinas atualmente coletam essa vinhaça que sobra do processo industrial e utilizam o produto como fertilizante nas lavouras por causa de seu alto teor de potássio. Mas a vinhaça também pode ser acumulada em biodigestores, grandes tanques onde o produto passa por fermentação e gera biometano, explica Duarte. A produção de biometano pode ser acelerada com o acréscimo de outros materiais orgânicos nesses tanques, inclusive de palha de cana, que tem alto poder calorífico (de geração de energia) e que hoje é deixada nas lavouras após a colheita. 


Fonte: Valor Econômico