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Renovabio trará um grande diferencial de eficiência industrial, energética e proteção ao meio ambiente

Postado em 29 de Agosto de 2019

O Portal SIAMIG conversou com um dos mais conhecidos consultores do setor sucroenergético nacional, o engenheiro químico, Thales Velho Barreto, diretor da Velho Barreto Consultoria e Projetos, sobre os avanços do setor nos últimos anos e o que ele pensa para o futuro do segmento. A conversa ocorreu durante a realização do Congresso Nacional de Bioenergia da UDOP.

Portal SIAMIG - O que mais te chama a atenção nessa evolução do setor nos últimos anos?

Thales Velho Barreto - Nessas últimas décadas, houve um avanço significativo na produtividade industrial, ou seja, na quantidade de açúcares recuperados da cana de açúcar que entra na indústria. Para tanto, ocorreu uma grande evolução em todos os setores: na extração do caldo, a melhora na preparação, a alimentação forçada nas moendas, a instalação de rolos perfurados e finalmente a introdução do difusor.

Na produção de etanol muitos pontos devem ser enumerados como a seleção de leveduras, na fermentação, o aumento do teor alcoólico do vinho e implantação de sistemas de resfriamento eficientes. Algumas unidades se beneficiaram pela venda do gás carbônico e levedura seca.

No setor de destilação os aparelhos antigos aumentaram a produção e produtividade através de diversas modificações até que uma nova geração de destilarias foi oferecida ao mercado, mas ainda há muito o que evoluir.

Na fabricação de açúcar a evolução tecnológica se deu principalmente pela entrada de equipamentos mais modernos e eficientes, tais como clarificadores rápidos, evaporadores de múltiplas calandras, vácuos contínuos etc. Na geração de vapor, a adoção de altas pressões e novas tecnologias de caldeiras que melhoraram significativamente o balanço energético permitindo a cogeração de energia e a produção, ainda incipiente, do etanol de segunda geração.

A evolução dos resultados industriais teve como importante complemento a instrumentação e automação de todos os setores produtivos. Tudo isso representou um ganho efetivo de pelo menos 10% na recuperação de açúcares e aumento ainda maior no faturamento através das oportunidades de vendas dos subprodutos já citados.

Portal SIAMIG - Por outro lado, a gente vê uma redução da produtividade do canavial, isso tem sido compensado com um aumento do rendimento industrial?

TVB - Não tenho condições de quantificar se houve compensação no balanço financeiro das empresas, mas sem dúvida a mecanização e os fenômenos climáticos de seca têm interferido na queda da produtividade do canavial. Penso que apesar do ganho da produtividade industrial, essa perda não está sendo recuperada. Hoje a luta na indústria é para melhorar de 1% a 2% a eficiência industrial, porém, isso tem um limite! Uma usina excelente, a depender do mix de moagem, recupera 90% dos açúcares que entram e passar para 92% requer um alto investimento, inclusive na parte agrícola.

Portal SIAMIG - O Renovabio vai dar notas para as usinas, pela sua experiência haverá muita disparidade?

TVB – Infelizmente, há muita disparidade no setor e é preciso uma evolução uniforme. Mas acredito que o Renovabio é um mecanismo extraordinário para alavancar a eficiência industrial, energética e proteção ao meio ambiente. O país está atrasado em dar mais valor ao etanol em função dos benefícios ambientais. Há 30 anos, já havia usina no Nordeste utilizando a vinhaça para produzir biogás como combustível e, hoje, depois de todo esse tempo ainda estamos discutindo isso. Queimamos diesel para buscar cana para produzir etanol, quando o metano da vinhaça poderia ser esse combustível, e o Renovabio é um grande passo neste sentido, pensando no meio ambiente e eficiência energética.

Portal SIAMIG - Existem também outros fatores que você considera importantes para que as usinas tenham uma nota mais satisfatória no Renovabio?

TVB - No meu ponto de vista, seriam esses fatores do aproveitamento do gás carbônico produzido na fermentação, e a produção do gás metano a partir da matéria orgânica da vinhaça, dois pontos que atendem exatamente à necessidade da redução de emissão de gases.

Portal SIAMIG - Você gostaria de comentar também sobre a gestão atual das usinas?

TVB - Tem uma coisa que me incomoda muito hoje em dia e pode trazer grandes distorções para os empreendimentos que é o distanciamento dos gestores do conhecimento do processo produtivo, seja do campo, mas, principalmente, da indústria. Acho que a gestão deve ser feita por um técnico que conheça o chão de fábrica treinado para ser um gestor. Sem dúvida, esse modelo contribuirá para elevar a produtividade com o alinhamento do conhecimento técnico e as indispensáveis ferramentas da gestão.

Portal SIAMIG - O que pensa mais para o futuro do setor?

TVB - Para alavancar a produtividade industrial, por exemplo, na parte de fermentação seria a maior seleção de leveduras com a ajuda da engenharia genética. Na destilação, temos muito a evoluir com a entrada do processo à vácuo que permitirá uma geração de energia para venda muito maior, por causa da economia do consumo do vapor. Eu me lembro quando, há 30 anos, trouxemos um consultor francês e ele disse que uma tonelada de cana deveria gerar 180 litros de etanol. Na época, isso causou um furor muito grande, porém, se o Brasil continuar avançando tecnologicamente, nos próximos 15 anos, isso poderá acontecer. O consultor defendia a destilação a vácuo, o uso de difusor e o mínimo de consumo de vapor, cuja economia se transformaria em bagaço a ser transformado no Etanol 2G, uma discussão já bem antiga e feita na França na década de 80.

Finalizando, e sem querer causar pânico, devemos não perder de vista o avanço do carro elétrico, que pode ocupar espaço do etanol combustível, e pensar em alternativas. Há estudos muito incipientes sobre um possível crescimento da produção de biobutanol a ser usado como combustível de aviões, cujo setor é responsável por 2% de todas as emissões de carbono do planeta. Essa seria uma opção para a destilarias de etanol, não custa pensar na frente!

 


Fonte: Portal SIAMIG