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Riscos e oportunidades do pacote americano para setor energético no Brasil - Por Rosana Jatobá

Postado em 8 de Janeiro de 2021

Sigo ligada na energia verde, que inunda o planeta neste final de 2020, com milhares de projetos voltados para a descarbonização das economias. A energia limpa promete iluminar a humanidade, sobretudo a partir de agora, depois que o Congresso americano chegou a acordo sobre o pacote de estímulos da ordem de US$ 900 bilhões para lidar com crise provocada pela Covid-19.

Leia a seguir os principais impactos para setores importantes da economia brasileira, por meio da avaliação de especialistas do mercado.

Futuro da Petrobrás
A gestão Biden, com foco nas energias renováveis, colocaria em risco o futuro da Petrobrás? Renato Gennaro, da MAC Gestão, afirma que a própria Petrobrás é que pode implodir. A empresa precisa de um reposicionamento estratégico urgente, já que teve sua imagem afetada pelos sucessivos escândalos de corrupção, o que representou um golpe na sua governança. "A companhia está até discutindo biodiesel em cima de óleo vegetal e gordura animal, mas isso é insuficiente. Teria que implementar um processo de inovação disruptiva para se perpetuar no novo ciclo. O primeiro passo é a privatização."

Werner Roger, da Trígono Capital, acrescenta que a Petrobrás acabou de divulgar seu plano estratégico de 5 anos, sem colocar a conta ambiental no peso da balança. Privilegiou o pré-sal, está saindo das refinarias, dos gasodutos, vendendo participação na Braskem, porém não demonstra preocupação em compensar as fontes de carbono. Ademais, a Petrobras está virando uma empresa de petróleo puro, num mundo em que o consumo de petróleo é descendente.

A indústria do gás de xisto
Embora o gás de xisto seja hoje um grande propulsor do PIB americano, Joe Biden defende uma transição da indústria do petróleo, inclusive acabando ou pressionando para o fim do "fracking", técnica de faturamento hidráulico para extração do gás de xisto. Mas no plano de governo dele não há nada em relação ao banimento total para extração do xisto. Para Fernando Rizzo, da Tupy, a indefinição de Biden ocorre porque essa é uma questão muito complexa nos Estados Unidos, que tem a maior reserva de xisto do mundo, mas depende fortemente do carvão. "Na medida em que o país migra do carvão para o xisto, ele reduz a emissão de gases de efeito estufa em 50% pra produzir a mesma quantidade de energia; então, o xisto tem papel importante nesta transição para uma economia de baixo carbono. O problema é a contaminação dos aquíferos e o risco de combustão na exploração. O governo Biden deve focar na regulação do xisto e buscar alternativas para a transição energética, que deve começar pelo carvão".

Protagonismo do etanol brasileiro
Renato Gennaro enxerga que o provável recuo na exploração do xisto durante a gestão Biden, vai resultar no aumento nas exportações brasileiras de etanol. "O etanol deve se tornar uma das principais fontes da matriz energética. Mas seu sucesso depende do reconhecimento dele no mercado externo. Por enquanto, o etanol ainda é uma mistura . O governo brasileiro precisa ter uma política efetiva, as montadoras precisam acreditar nele e a população também. Hoje ainda importamos etanol, mas vamos exportar".

Werner Roger acrescenta dados positivos em favor do protagonismo do etanol e seu potencial de exportação: A Índia e a China anunciaram que vão adicionar 10% de etanol à gasolina. Para ele, "a Europa deveria misturar 10% de etanol a seus combustíveis , em vez de usar as térmicas para recarregar os carros elétricos."

Andre Guillamon, diretor-presidente da BrasilAgro entende que o etanol é de fato a grande solução, mas destaca que para atuarmos no mercado global, temos que resolver a questão do estoque de segurança. Para isso, "precisamos ter uma cadeia de comercialização mais transparente via BMF, o que traria segurança jurídica para todos".

Carros elétricos vs Etanol
Parte dos investimentos anunciados por Joe Biden deve ser usada como um "vale" para as pessoas que trocarem os carros a gasolina pelos elétricos. Além disso, o presidente americano pretende construir cerca de 500 mil novas estações de carregamento e trocar toda a frota do governo, substituindo os veículos a combustão pelos eletrificados. A proposta inclui, ainda, financiar a transição das montadoras para modelos mais limpos e um maior suporte para as pequenas empresas iniciantes no segmento.

Para Fernando Rizzo, da Tupy, Biden não acerta ao eleger o carro elétrico como a estrela do seu programa. Isso porque o líder americano desconhece o ciclo completo da cadeia produtiva do veículo elétrico, desde o uso da mineração dos materiais até a utilização do carro e a reciclagem. Considerando toda a cadeia, o carro elétrico emite de duas a três vezes mais CO2 do que um carro a combustão.

Werner Roger complementa alertando para a pegada hídrica na produção do carro elétrico. Na construção das baterias, são usados metais como níquel, cobalto e lítio. Para obtenção de uma tonelada de lítio, por exemplo, são necessários cerca de dois milhões de litros de água. Além disso, para separar o lítio da rocha em que está contido são necessários produtos químicos altamente tóxicos que acabam poluindo o meio ambiente.

A busca pelo lítio gera outro tipo de problema: a Bolívia detém a metade das reservas conhecidas desse metal, fato que tem gerado instabilidade política no país. Mesma situação ocorre no Congo.

 

*Rosana Rocha Cavalcante Jatobá é uma advogada e jornalista brasileira. Formou-se em Direito pela Universidade Católica do Salvador e Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. Rosana possui mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais pela Universidade de São Paulo. Trabalhou na Procuradoria do Trabalho por 5 anos.


Fonte: Portal UOL (24/12)