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Rolagem das usinas anula recuperação do mercado - Por Arnaldo Luiz Corrêa

O mercado futuro de açúcar em NY fechou a sexta-feira abaixo dos 14 centavos de dólar por libra-peso, 13.98 acumulando uma queda de mais de 12 dólares por tonelada na semana. O spread outubro/2017-março/2018 alargou um pouco mais na semana devido a um razoável volume de rolagem por parte das usinas das fixações que eram para ser feitas contra o vencimento outubro que elas passaram para o março, na esperança de preços melhores.

Tem tudo para dar certo, pois nosso modelo de previsão de preços mostra que, apesar de a previsão do preço médio de setembro apontar para uma média de 14.01 (até sexta-feira estava em 14.12), em outubro o modelo aponta para um preço médio acima do de setembro (15.45 centavos de dólar por libra-peso), podendo chegar no limite a 16.81 centavos de dólar por libra-peso. O setembro, no entanto, ainda tem espaço para cair um pouco mais (uns 13.50 talvez).

Enquanto os fundos se divertem pela falta de notícias fundamentalistas que justifiquem as subidas momentâneas de preço no mercado futuro, a pressão vai continuar e certamente levará ao pânico algumas daquelas usinas que há muito se apaixonaram pelo mercado, na vã esperança de que o mesmo continuasse seu caminho no terreno dos 20 centavos de dólar por libra-peso, e possuem um percentual de fixação da safra 2017/2018 muito abaixo da média do mercado, que deve estar em torno dos 75-80%.

Acredito, no entanto, que a diversão dos fundos está com os dias contados. Apesar de alguns profetas do apocalipse noticiarem que o açúcar deverá atingir o preço mais baixo em dez anos (8.90 centavos de dólar por libra-peso em 28 de setembro de 2007), essa análise que correu pelo noticiário na semana passada, carece de um conhecimento mais profundo acerca do que está para ocorrer na economia brasileira (que se recupera rapidamente) e, principalmente, no atual estágio em que o setor se encontra, com expansão zero e um potencial de consumo de combustíveis batendo à porta.

Os fundos especulativos não-indexados ainda possuem uma posição vendida de 73.500 contratos (equivalentes a 3.7 milhões de tonelada de açúcar) e não estão pressionados para sair dela e embolsar um lucro estimado de US$ 300 milhões, exatamente porque da parte dos comerciais (leia-se usinas) ainda existe um movimento grande de rolagem. No entanto, isso deve acabar a semana que vem. O contraponto reside no fato de que outros fundos especuladores recompraram grande parte de suas posições vendidas e moveram o mercado irrisórios 11 pontos. Não é exatamente algo animador ver o mercado demandar quase 5.000 lotes de compra para mexer 1 pontinho.

O alento para os altistas virá, como dissemos aqui na semana passada, do etanol. As contas que as usinas fazem utilizando a curva de preços do açúcar em NY e a minguada curva de reais futura, que considera um cupom cambial de 4%, faz com que o etanol trazido para valor presente seja bem superior ao preço do açúcar. A disponibilidade da commodity produzida pelo Centro-Sul no ano que vem poderá ser bem menor se combinada com a recuperação econômica e o crescimento do consumo do combustível.

Existem fortes razões por parte de alguns bancos e instituições para acreditar que as soft commodities (café, açúcar, cacau, algodão e suco de laranja) irão se recuperar em 2018/2019. Um trader na Europa comentou que acredita que o mercado pode tomar rumo diferente quando as primeiras previsões da safra de cana para 2018/2019 alcançarem o mercado. Da parte das usinas, o que se ouve é que muitas acreditam que vão parar de moer mais cedo do que esperavam; outras, que a produção do ano continuará estagnada.

O mercado de petróleo vai continuar a ser o fator determinante para a formação de preço do açúcar. O outono começa no hemisfério Norte. Uma eventual elevação no preço do barril de petróleo por conta de questões geopolíticas ou apenas de aumento sazonal de demanda poderá ser decisivo na antecipação por parte das usinas do Centro-Sul de um reenquadramento do mix de produção para o próximo ano. São coisas que acontecem no mundo real que ninguém está prestando atenção.

A entrega de outubro no vencimento do contrato futuro de NY, que expira a semana que vem, pode trazer surpresas desagradáveis. Mas tem participante do mercado que acredita que será um não-evento. Aperte os cintos e aprecie a viagem.

 

Fonte: Archer Consulting