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Rumo do programa de biocombustíveis dos EUA segue indefinido

A reunião do presidente Donald Trump com senadores e secretários para debater possíveis mudanças no Padrão de Combustíveis Renováveis (RFS), já há 13 anos em vigor, não chegou a nenhuma conclusão, segundo agências internacionais. A situação deve prolongar as incertezas dos produtores de biocombustíveis e das refinarias, que têm travado uma dura queda de braço em torno do programa nas últimas semanas.

Trump reuniu-se nesta manhã (27) com os senadores Chuck Grassley e Joni Ernst, de Iowa, Ted Cruz, do Texas, e Pat Toomey, da Pennsylvania. Após a reunião, Grassley publicou em sua conta no Twitter: “Mesma discussão de novo. Sem acordo feito”.

A reunião foi convocada na semana passada, em meio à escalada da pressão das refinarias contra o RFS. O lobby ganhou mais corpo depois que a refinaria Philadelphia Energy Solutions (PES) pediu falência à Justiça americana culpando os altos custos para a operação decorrentes do cumprimento do programa.

A falta de um acordo no encontro desta terça-feira reduziu o pânico no mercado de créditos de biocombustíveis, os RINs, que subiram hoje após uma semana em franca queda.

Após atingirem ontem o menor patamar desde maio do ano passado, os RINs para os biocombustíveis convencionais (como o etanol de milho) fecharam hoje a 61,5 centavos de dólar por papel, ante 58 centavos ontem, de acordo com a Argus Media. Por sua vez, os RINs para os biocombustíveis avançados (como o etanol de cana brasileiro) subiram para 82,5 centavos de dólar o papel, ante 80,5 centavos de dólar o papel ontem.

Os RIN vinham registrando forte queda desde o dia 20, quando surgiram notícias sobre a reunião de hoje. De lá até ontem, o RIN para os biocombustíveis convencionais acumulou desvalorização de 15%, enquanto o RIN para os biocombustíveis avançados caiu 8,8% no período. Mesmo com as altas de hoje, os movimentos não foram suficientes para recuperar as perdas da última semana.

“Os preços dos RINs firmaram-se nesta terça-feira em meio a notícias de que não houve acordo alcançado entre o governo Trump e senadores chave no encontro desta manhã que discutiu potenciais reformas no RFS”, avaliou a Argus Media, em comentário.

Segundo a agência Bloomberg, a Casa Branca pretende agora se encontrar na quinta-feira com representantes das indústrias do etanol e do petróleo.

Nesta semana, entraram na briga os agricultores americanos, que dependem das usinas de biocombustíveis para vender parte de suas safras. Em carta, representantes dos produtores de soja, milho, trigo e sorgo e outras associações rurais pediram a Trump que não altere o programa de forma a “prejudicar o propósito e a intenção do RFS”. “Qualquer ação que pretenda enfraquecer o RFS para beneficiar um punhado de refinarias vai, por extensão, recair sobre os ombros dos nossos agricultores”, afirmaram as entidades.

O impacto de uma mudança no programa sobre as exportações e as importações brasileiras ainda é incerta. Tarcilo Rodrigues, diretor da trading Bioagência, afirma que o Brasil hoje é pouco dependente dos Estados Unidos para exportar etanol, já que a maior parte dos embarques é garantido pela política estadual de estímulo aos biocombustíveis da Califórnia, o CARB.

“Claro que o RFS se sobrepõe ao CARB. Um blender [misturador] da Califórnia deve cumprir com o mesmo mandato que um blender de Nova York. A diferença é que, quanto mais combustível avançado o blender da Califórnia comprar, menos imposto ele paga”, observou Rodrigues. Ele estima que a Califórnia responda hoje por 80% das exportações brasileiras de etanol aos Estados Unidos.

Rodrigues também não acredita que uma flexibilização nas regras americanas elevem a disponibilidade de etanol no mercado internacional a ponto de pressionar o produto para o mercado brasileiro. “Ainda que tenha [a possibilidade da] exportação, o Brasil tem imposto de importação, a China também tem imposto”, diz.


Fonte: Valor Econômico