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Seca e incêndios em SP ameaçam a próxima safra de cana

Postado em 15 de Outubro de 2020

As chuvas abaixo da média nos últimos meses, o calor extemporâneo e o salto no número de incêndios em canaviais do Centro-Sul ampliaram a preocupação dos usineiros com a próxima temporada (2021/22). Embora o potencial produtivo ainda dependa das chuvas de verão, o risco de uma quebra de safra entrou no radar e já colabora para a alta do açúcar na bolsa de Nova York.

No início do mês, o interior paulista testemunhou temperaturas acima de 40ºC. Em regiões ao norte do Rio Tietê, como Ribeirão Preto e São José do Rio Preto, as chuvas da safra 2020/21 estão 70% menores que a média histórica, segundo informações do Sistema Tempocampo divulgadas recentemente pela União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Única). Há regiões com mais de 100 dias sem chuvas significativas.

Para piorar, o tempo mais quente e seco está facilitando incêndios. Em setembro, os focos de queimadas no Estado de São Paulo ultrapassaram 2,2 mil e superaram a série histórica para o mês. Até ontem, os focos já deixaram para trás a média histórica de outubro, com 936 registros, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Os incêndios em áreas já colhidas nesta safra dificultam a rebrota e o crescimento da cana da próxima safra, observa Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da Unica. Nos casos em que os incêndios ocorreram em lavouras que ainda não haviam sido colhidas, as usinas anteciparam os trabalhos para evitar que a cana estragasse no campo.

O fogo provoca atraso no desenvolvimento da cana e falhas de brotação, afirma Plinio Nastari, presidente da consultoria Datagro. Esse atraso para a próxima safra, diz, reforça a indicação de que a entressafra do Centro-Sul se estenderá por mais tempo, o que mantém os contratos de açúcar demerara na bolsa de Nova York para março de 2021 com preços acima do patamar dos papéis para maio. Ontem, março fechou a 14,21 centavos de dólar a libra-peso - 62 pontos acima do nível do início do mês e 49 pontos a mais que os contratos para maio.

Para o resultado da safra atual, o impacto deve ser compensado pela elevada produtividade dos dois primeiros terços da safra e pelo alto índice de sacarose na cana (ATR). Recentemente, a consultoria StoneX elevou a estimativa para a moagem de cana da safra atual para 597,8 milhões de toneladas, mas previu uma redução de 1,2% no volume do próximo ciclo por causa do clima.

A Unica está calculando os impactos da estiagem e dos incêndios, e Padua ressalta que é cedo para traçar uma estimativa para a próxima safra, já que os canaviais têm seu período mais importante de crescimento daqui até março.

Executivos comentam, porém, que como muitas usinas aumentaram a área de renovação de lavouras após a boa rentabilidade da safra passada, há uma extensão maior com plantas novas (“cana planta”), que são mais afetadas pelo fogo do que as áreas com cana rebrotada (“cana soca”).

Na Usina Alta Mogiana, incêndios atingiram 10 mil dos 75 mil hectares de canaviais. Para minimizar os efeitos, a empresa está realizando irrigação de salvamento com vinhaça, diz Luiz Gustavo Junqueira, diretor comercial da companhia. Na Usina Batatais, os incêndios alcançaram 2% das lavouras. Nessas áreas, a empresa deve refazer tratos culturais, diz Luiz Gustavo Diniz, diretor da companhia.

A Somar Meteorologia prevê que a primavera será de chuvas abaixo da média no Sudeste, dado o La Niña, diz a meteorologista Fabiene Casamento. No verão as chuvas devem voltar ao normal, com um hiato em fevereiro, quando as deverão voltar a diminuir. Mas Nastari lembra que mais importante que o volume é a distribuição das chuvas, o que mantém o cenário em aberto.

 


Fonte: Valor Econômico