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Seca preocupa e dá mais gás aos fundos - Por Arnaldo Luiz Corrêa

Postado em 19 de Setembro de 2020

São assustadoras as cenas que circulam pelos grupos de WhatsApp dos incêndios de grandes proporções que atingiram os canaviais do Centro-Sul nas últimas semanas. Executivos de várias usinas acreditam que 2/3 das empresas do Centro-Sul terminarão a safra muito antes do estimado. A data que colocam é a primeira semana de novembro, no máximo. Segundo testemunhas oculares dos incêndios, “o fogo atingiu canaviais em fase de crescimento, intermediários e já prontos para a colheita”. As consequências desses incêndios que aniquilaram milhares de hectares de cana poderão ser um duro golpe na disponibilidade da gramínea para a próxima safra 2021/2022.

A combinação da seca, que segundo alguns agrônomos vai encolher a oferta de cana para o próximo ano em 5%, com o impacto dos incêndios que teria ceifado canaviais em crescimento, mais a redução na ATR podem-se traduzir em um enxugamento da disponibilidade de açúcar ao redor de 2.8 milhões de toneladas. Tudo isso ainda é prematuro, mas preocupa.

Não sei apontar se esses fatores influenciaram o mercado futuro de açúcar em NY, mas o fato é que a semana foi de recuperação dos preços. Muito embora acredito que as noticias positivas e negativas que bombardeiam o mercado não parecem ser suficientes para quebrar o restrito intervalo de preços em que o mercado parece estar condenado a ficar, o fato é que a semana se encerrou com o mercado futuro de NY apreciando 18.30 dólares por tonelada no vencimento mais curto (outubro/2020) e 16.50 dólares por tonelada no vencimento março/2021. Para os meses correspondentes à safra 2021/22 do Centro-Sul, isto é, maio-julho-outubro de 2021 e março de 2022, a valorização média foi de 10.50 dólares por tonelada que representaram um acréscimo de 75 reais por tonelada em relação à semana passada.

Os fundos reduziram 14,676 lotes de suas posições compradas vendendo no mercado, mas no período apurado a variação de preço em NY foi desprezível. O mercado pareceu absorver as vendas dos fundos com possível indicação que 12 centavos de dólar por libra-peso é um bom nível de compra. Apenas conjecturando. Agora os fundos estão posicionados no março e os indicadores técnicos apontam para a continuação da solidez do mercado, a ser alimentada pelas histórias de seca e redução de cana. A conferir.

Como dissemos aqui várias vezes, nossa preocupação acerca da evolução dos preços do açúcar em NY esbarra na retração da economia global e seu efeito no consumo de combustíveis e açúcar, em especial nos próximos anos. Nossa estimativa do crescimento do consumo mundial nas próximas cinco safras (de 21/22 até 25/6) é de apenas 0.7% ao ano, sem contar os efeitos do covid-19.

As exportações de açúcar do Brasil animam os altistas. Em agosto, o Brasil exportou 3.47 milhões de toneladas, 122% acima do volume exportado em agosto do ano passado. No acumulado do ano, ou seja, cobrindo o período de janeiro a agosto, o volume exportado soma 17.89 milhões de toneladas de açúcar contra 11 milhões de toneladas no ano passado no mesmo período. No acumulado de doze meses (setembro de 2019/agosto de 2020) as exportações atingem 24.9 milhões de toneladas, 31.5% acima do mesmo período anterior.

No acumulado da safra (abril a agosto) as exportações somam 13.59 milhões de toneladas de açúcar, o maior volume dos últimos onze anos. Com base nas últimas safras e o percentual que o período abril/agosto representou para o ano safra, as estimativas hoje seriam de mais de 31 milhões de toneladas de açúcar. A conferir.

 


Fonte: Archer Consulting