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Sem medo, Raízen vê entrada de novos rivais como boa notícia

O presidente da Raízen, Luiz Henrique Guimarães, avalia que a entrada de novos competidores na distribuição de combustíveis no Brasil, como Vitol e PetroChina, representa uma boa notícia para o segmento. “O mercado de distribuição é extremamente competitivo. Mas a entrada dessas empresas traz competidores que jogam um jogo parecido com o nosso. Ou seja, pagam impostos, tem ética e têm qualidade”, afirmou o executivo, em apresentação durante o Cosan Day na manhã desta terça-feira.

Diante dessa característica dos novos competidores, a Raízen Combustíveis vê com bons olhos esse movimento. “É gente que, para crescer, vai ter de comprar ativos, investir. Vai dar trabalho, porque competidor bom dá trabalho. Mas não tenho medo. Tenho medo do pilantra, que não paga imposto”, acrescentou.

Para o executivo, a crescente demanda por energia limpa, a mudança de hábitos de consumo, a discussão sobre carros elétricos e híbridos e a geração distribuída são tendências inexoráveis, que vão acontecer em velocidades distintas. Diante delas, Cosan e Shell, acionistas da Raízen, montaram um plano estratégico para liderar o mercado, que passa pela abertura a novas geografias, trading de energia elétrica e chegada ao consumidor final, entre outras iniciativas, incluindo novos produtos, como plástico verde.

Segundo o executivo, o mercado doméstico de combustíveis voltou a responder no fim do ano passado, após as eleições, e há recuperação importante na demanda no início de 2019. “Há melhora grande em janeiro e fevereiro. Vemos recuperação em relação ao ciclo Otto [gasolina e etanol] e principalmente em diesel”, disse.

A melhora no fim do ano passado ajudou a mitigar os impactos da greve dos caminhoneiros nas operações de combustíveis, cujas perdas com o evento chegaram a R$ 200 milhões. Em 2018, a demanda no ciclo Otto no país caiu 3,1%, diante do aumento dos preços e da continuidade do desemprego. Por outro lado, a demanda de diesel subiu 1,6% após dois anos de retração.

O executivo lembrou que, no encontro com investidores do ano passado, foi criticado por ter apresentado uma projeção de demanda de combustíveis conservadora. “E o ano foi pior em termos de demanda do que a gente previa. Estávamos mais realistas”, disse, acrescentando que, apesar de os resultados não terem sido tão bons como nos anos anteriores, permitiram a manutenção de investimentos e o pagamento de dividendos.

Para 2019, a Cosan projeta para a Raízen Combustíveis no Brasil Ebitda de R$ 2,9 bilhões a R$ 3,2 bilhões, comparável a R$ 2,8 bilhões no ano passado. Os investimentos também devem crescer ligeiramente, com volume de recursos similar ao aplicado no ano passado para ampliar capacidade de armazenamento.

O executivo destacou ainda que a companhia está se esforçando para construir uma empresa integrada de energia, com presença em mercados relevantes como o brasileiro e na Argentina, diversificação de clientes e capacidade distribuição não só de produtos fósseis, mas também de energia limpa e de energia elétrica.

Investimentos na Raízen Energia

A empresa, ainda segundo Guimarães, deve ter “investimentos em ativos específicos” na área de trading, de modo geral nos mercados de combustíveis e energia em que atua, “para poder arbitrar no mercado”.

O executivo ressaltou que a companhia já está atuando na operação de trading em todas as áreas em que atua, desde combustíveis fósseis e etanol até açúcar e energia elétrica, e indicou que deve fortalecer sua estrutura para atuar nessa área.

A Raízen não apenas já vê preços melhores de açúcar pela frente como já fixou as vendas para exportação de mais de 60% de sua produção esperada para a safra 2019/20 a um preço 15% superior ao da safra passada.

Guimarães ressaltou o foco na área de comercialização de açúcar e disse que a empresa deve investir na próxima safra “quase o equivalente” à safra passada em armazenagem do produto. O objetivo, disse, é garantir espaço para estocar 50% da produção da companhia.

“Conforme aumentamos nossa capacidade estática de armazenagem, aumenta nossa capacidade de trading. O contrato [do açúcar demerara na bolsa de Nova York] para [entrega em] março sempre paga mais que [o contrato para entrega em] outubro. O ‘carry’ [custo de carregamento] se paga facilmente, além de facilidade para avançar ou retardar a venda”, justificou.

Ainda sobre açúcar, o executivo afirmou que a Raízen Energia está “indo mais para o destino”, apostando na “qualidade, logística e capacidade de precificação do nosso produto”, que segundo ele “entrega mais valor do que para um trader FOB em Santos”. Guimarães disse também que a companhia está atenta a outros produtos derivados do açúcar, como “açúcares menos açucarados, fragrâncias e outras coisas”.

Ele afirmou também que a Raízen aumentou sua estrutura de trading de etanol, com construções de tanques de armazenagem do biocombustível na Califórnia e “novas posições” na Ásia.

Guimarães disse ainda que a empresa já “comprou o que queria comprar” e que o momento agora é de “gerar novo ciclo de eficiência, com foco em produtividade agrícola, aliado a custo mais baixo”.

O executivo afirmou ainda que a última aquisição de ativo realizada pela Raízen Energia, de duas usinas da Tonon, foram feitas não por causa do momento do ciclo de preços do açúcar, que estavam maiores do que agora, mas para fortalecer o “cluster” de usinas de Piracicaba. Segundo ele, mesmo com um novo ciclo de alta do preços do açúcar, “não vamos sair comprando por aí. Não é o que temos combinado com os acionistas”.

O presidente da empresa afirmou que, antes, o foco da Raízen Energia é alcançar uma moagem de cana de 67 milhões de toneladas em uma safra e, “quem sabe, até 70 milhões, com adições”. Para a próxima safra, a empresa prevê um crescimento de moagem em torno de 5%, para 61 milhões a 63 milhões de toneladas de cana.

Além disso, segundo Guimarães, o aumento dos investimentos em bens de capital para a Raízen Energia em 2019/20 justifica-se pelos aportes para aumentar a produtividade dos canaviais adquiridos junto com as usinas da Tonon há dois anos e em investimentos em plantio que devem reduzir a idade média dos canaviais de toda a companhia.

O executivo disse que a empresa já sabia que os canaviais adquiridos da Tonon não tinham “a produtividade que precisava”. Além disso, a própria Raízen Energia vinha reduzindo sua taxa de renovação de canaviais nos ciclos anteriores, o que aumentou a idade média das lavouras, o que as deixa mais vulneráveis a alterações climáticas e com menor produtividade. A reduções desses aportes, segundo o executivo, ocorreram porque o custo com plantio estava “caro”.

Já para a próxima safra (2019/20), a companhia deve voltar a investir mais nos canaviais, passando de uma área de plantio de 84 mil hectares na temporada que está terminando para 105 mil hectares. Dessa forma, a idade media deve passar de 3,8 anos para 3,4 anos.

Com o aumento de produtividade, o objetivo é ocupar a capacidade ociosa e reduzir o custo unitário, que aumentou neste ciclo por causa da quebra de safra.

Segundo Guimarães, a companhia pretende reduzir seu custo de produção sucroalcooleiro para 10,5 centavos de dólar a libra-peso por tonelada de cana processada ”ou quem sabe até abaixo disso” e se tornar “o melhor produtor em termos de custo global”.

O executivo disse que a empresa já conseguiu reduzir seu custo nos últimos anos, de 12,1 centavos de dólar a libra-peso na safra 2014/15 (resultado ajustado) para 10,9 centavos de dólar a libra-peso na safra atual, que se encerra em março, conforme estimativa.

Operação na Argentina

Os ativos comprados pela Raízen na Argentina são de excelente qualidade e há muitas sinergias em termos de custo a serem geradas, além de oportunidade de expansão dos negócios de conveniência e trading, segundo o presidente da empresa.

Segundo o executivo, o primeiro trimestre de gestão dos ativos, iniciado em outubro, foi difícil por causa da crise econômica enfrentada pelo país vizinho, mas já se nota melhora.

“O trimestre que se encerra em março já deve estar dentro da rentabilidade que a gente imagina para o período. Estamos muito confiantes na qualidade do ativo, do time e na integração com o Brasil”, afirmou.

Para 2019, a Cosan projeta para a Raízen Argentina um Ebitda de US$ 210 milhões a US$ 260 milhões, com investimentos de US$ 100 milhões a US$ 140 milhões.

Ao falar sobre o projeto de empresa integrada de energia, o executivo elencou as iniciativas adotadas no ano passado, entre as quais a joint venture com a WX na área de trading de energia elétrica, o primeiro projeto de energia solar e a aposta em biogás. “Estamos posicionados de fato para pegar a onda da revolução que está acontecendo, onde for”, disse.

Guimarães afirmou ainda que o futuro será diferente em termos de mobilidade, não só por causa das outras fontes de energia mas pelos diferentes modelos, como o compartilhado, mas há obstáculos a serem percorridos no Brasil. “Marca e relacionamento com o cliente serão fundamentais na distribuição”, acrescentou.

 

 

 

 


Fonte: Valor Econômico