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Shell aposta em eficiência energética

Em um dos polos globais do desenvolvimento de novas tecnologias de energias renováveis, uma gigante petroleira promove uma competição com foco em eficiência energética e no uso de combustíveis. O cenário pode parecer improvável, mas retrata o evento “Make the Future”, promovido pela Shell em Sonoma, na Califórnia, nos dias 19 a 22 de abril.
A explicação é simples: a companhia não quer ficar para trás quando o inevitável acontecer, e as energias renováveis ficarem mais competitivas que o petróleo. Na Califórnia, isso já é praticamente uma realidade, com as ruas dominadas por carros elétricos e placas de geração de energia solar fotovoltaica.
“Nossos principais produtos são petróleo e gás, mas o uso de ambos está em queda em algumas regiões. Então temos de investir em renováveis. Precisamos manter um portfólio de energia, independentemente da forma dessa energia”, disse, ao Valor, Matthew Tipper, vice-presidente de novos combustíveis da divisão da Shell de novas energias. A participação da companhia na Raízen, por exemplo, está sob sua responsabilidade.

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Segundo o executivo, os combustíveis seguem as mudanças nas formas de mobilidade usadas no mundo. A mensagem das fontes alternativas de energia hoje está mais forte. Reconhecemos que o ritmo das mudanças está mais acelerado, assim como as expectativas da sociedade sobre isso”, explicou.
Durante os quatro dias, a Shell promoveu um verdadeiro festival de incentivo à eficiência energética e às fontes alternativas de energia no autódromo de Sonoma, município localizado a cerca de 80 km de São Francisco, em uma região cercada por vinícolas e belas paisagens. No evento, a companhia reforçou esse discurso com a ajuda de parceiros, como a Toyota e a General Motors (GM), que aproveitaram para expor iniciativas que vão no mesmo caminho.

A Toyota expôs um caminhão movido a hidrogênio, que não emite poluentes. O projeto ainda está no começo, com um protótipo em testes. Para divulgar a iniciativa, a companhia promoveu um painel que discutiu diversos temas relacionados ao meio ambiente, contando com a presença de ambientalistas e engenheiros.
A Shell divulgou o Airflow Starship, caminhão construído com foco em inovação e aerodinâmica, semelhante a um avião sem asas. O protótipo ainda está em testes, e o desafio é exatamente descobrir como produzi-lo em grande escala. “A iniciativa tem o objetivo de aplicar tecnologias existentes para minimizar a energia necessária para o transporte de bens”, disse Bob Mainwaring, líder da tecnologia Starship e gerente de inovação da Shell.

Se antes o apoio a iniciativas do tipo poderia ser visto como uma tentativa das grandes petroleiras de melhorarem sua imagem perante a sociedade, a busca por eficiência e sustentabilidade hoje é uma necessidade para garantir a sobrevivência das companhias no longo prazo. Com a Shell, isso não é diferente.
“No setor elétrico, a geração de energia pelas fontes eólica e solar já é mais competitiva que o carvão ou o gás em vários países. Isso já aconteceu, o momento já chegou. Ainda é difícil para os combustíveis alternativos competirem com o petróleo, mas o etanol chega muito perto disso, é um dos mais competitivos”, disse Tipper.

Quando as tecnologias ficarem mais baratas e competitivas, os negócios devem acompanhar esse rumo. “A Shell nasceu, há mais de 100 anos, como uma empresa de petróleo. Cerca de 50 anos atrás ela se tornou também uma companhia de gás. Agora, buscamos crescer também na área de energias renováveis”, afirmou o executivo de novos combustíveis da petroleira.
Segundo ele, o objetivo da companhia é apostar em todas as frentes, pois não é possível prever quais tecnologias vão despontar com maior sucesso. As mudanças também são diferentes dependendo da região do mundo. A Califórnia, por exemplo, está à frente em termos de energia solar, armazenamento de energia em baterias e outras formas mais sustentáveis.
“Uma vez que a tecnologia esteja competitiva e ganhe escala no mercado, não haverá retorno. Estamos em um caminho para uma transição em termos energéticos nos próximos anos, e a Califórnia está na frente nisso”, disse Tipper, completando, porém, que a mudança não acontece de uma hora para outra.

As mudanças das fontes de energia devem acompanhar a transformação da mobilidade em casa região, uma vez que o combustível é “um elemento menor”.
“O caminho do Brasil hoje, na qual o país tem obtido sucesso, é no desenvolvimento de veículos flex. Isso mudou completamente a natureza da frota de veículos no Brasil”, explicou Tipper.
Foi de olho nisso que a Shell decidiu, há oito anos, investir na Raízen, joint venture com a Cosan voltada para a produção de etanol de cana-de-açúcar. “O Brasil é um mercado muito importante para a Shell, nossa joint venture é muito significativa para nós. Temos motivos para crescer no país”, disse.

De acordo com o executivo, uma questão importante que deve ser respondida no futuro é se o Brasil vai apostar em uma mudança na principal tecnologia de mobilidade do país. “O Brasil vai mudar o foco de veículos flex para elétricos, ou a hidrogênio? Se for o caso, tenho certeza que vamos buscar dar suporte a isso”, disse. Por enquanto, os motores elétricos ainda não competem em igualdade com os a combustão em escala global, mas isso pode acontecer no futuro, e a petroleira tem isso em vista.

O mesmo vale para o petróleo. Segundo Tipper, os preços da commodity sempre vão refletir a dinâmica de oferta e demanda, e isso não deve mudar mesmo com o desenvolvimento das reservas de petróleo não convencional (“shale”) dos Estados Unidos e do Canadá. “Haverá outras tecnologias que vão crescer e ficarem mais baratas, mas isso leva tempo”, disse.
No Brasil, a Shell tem interesse em gás natural e energia elétrica. “É um mercado relativamente liberal para energia, no qual devemos participar mais”, afirmou o executivo. “Buscamos desenvolver nossos negócios de energias renováveis em todas as frentes. Olhamos geração de energia, armazenamento e combustíveis.”


Fonte: O Petróleo