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Sobrou crédito rural na safra 2016/17

Por Cristiano Zaia
 
Nem a supersafra de grãos 2016/17, que deve chegar a 240 milhões de toneladas no país, foi suficiente para evitar que os desembolsos relativos de crédito rural para a agricultura empresarial no Plano Safra 2016/17 alcançassem o pior resultado da história. Os R$ 137,2 bilhões registrados de julho do ano passado a junho último representaram apenas 74,6% do total ofertado em toda a temporada (R$ 183,8 bilhões), muito abaixo da média, e reforçaram os sinais de que a modernização dessa política deverá ser acelerada no país.
 
Pela primeira vez desde a safra 1997/98, quando começa a série histórica do Ministério da Agricultura, os desembolsos representaram menos de 80% do montante ofertado para a agricultura empresarial. Antes disso, o menor percentual de utilização dos financiamentos ofertados pelo governo havia sido registrado no Plano Safra 2015/16, na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff - justamente 80%. Naquele ano-safra, o principal motivo apontado para a baixa demanda foi o volume menor de recursos disponíveis a juros atraentes no chamado pré-custeio do Banco do Brasil, modalidade do crédito rural geralmente usada para a compra antecipada de insumos.
 
Na temporada 2016/17, que acabou de terminar, o patamar mais elevado das taxas de juros de algumas linhas de financiamento (9,5% ao ano para o custeio, por exemplo), a menor diferença entre as taxas em geral e a Selic e uma redução da demanda dos produtores na contratação de crédito nos últimos meses do ciclo, à espera dos juros mais baixos que entraram em vigor com o Plano Safra 2017/18 foram apontados pelo Ministério da Agricultura como as razões que ajudam a explicar o baixo nível de contratação no ciclo passado. "Como havia algumas incertezas em relação à economia brasileira e sobre o cenário político, os produtores usaram muito mais suas reservas de recursos próprios, e é bem possível que tenham segurado a contratação na expectativa de uma redução dos juros do financiamento", afirmou o diretor de Crédito e Estudos Econômicos do Ministério da Agricultura, Wilson Vaz. Ele observou, no entanto, que em momento algum faltaram recursos. Por outro lado, tanto Dilma quanto Temer lançaram mão do artifício de inflar o Plano Safra com dezenas de bilhões de reais com financiamentos a juros livres. Tratam-se de recursos próprios dos bancos, que têm taxas de mercado, bem mais elevadas que as garantidas pelo governo no crédito controlado. Esse expediente esteve ligado a momentos de pressão sobre os dois governantes, que quiseram dar recados políticos positivos ao setor do agronegócio. Mas, de acordo com cálculos da própria Pasta, os Planos Safras têm financiado apenas cerca de 30% da produção agropecuária nacional, que tem se valido de outras fontes de recursos e se mostrado pujante nas últimas décadas.
 
A Safra 2016/17 mostrou um expressivo crescimento de 18%, para R$ 53,4 bilhões, dos bancos privados na concessão do total de crédito rural no Brasil - somando-se as agriculturas empresarial e familiar. E, por outro lado, uma redução de 17%, para R$ 83,2 bilhões, nos desembolsos liberados por bancos públicos. Já os desembolsos para custeio diminuíram e os de investimento se estabilizaram frente à safra anterior. 
 
 
 
 

Fonte: Valor Econômico