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'Temos que ter equalização de tarifas', diz Trump sobre etanol dos EUA no Brasil

Postado em 28 de Agosto de 2020

Americanos, que possuem cota de exportação, querem tarifa zero para todo o combustível vendido. Presidente dos EUA afirmou que algo pode ser apresentado sobre o tema "muito em breve". Indústria brasileira diz que Trump tem "desconhecimento do assunto".

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu em coletiva de imprensa na Casa Branca na noite de segunda-feira (10) que poderá tomar medidas tarifárias em relação ao Brasil por conta do etanol norte-americano.

Questionado sobre a pressão que estaria fazendo para que o Brasil elimine tarifas sobre a importação do produto dos EUA, Trump afirmou que "em algum momento" esse assunto será discutido. "Nós não queremos pessoas nos tarifando".

Há pouco menos de um ano, o Brasil elevou de 600 milhões para 750 milhões de litros a cota de etanol importado sem tarifa. Acima desse volume, o imposto de importação é de 20%.

Agora, os americanos pedem ao governo brasileiro a extinção da cota e a tarifa zero para a venda de todo o produto.

De janeiro a junho deste ano, o Brasil importou cerca de 467 milhões de litros de etanol dos EUA, movimentando US$ 301 milhões, segundo dados do Ministério da Agricultura.

"Eu acho que, no que concerne o Brasil, se eles fizerem tarifas, nós temos que ter uma equalização de tarifas", disse o presidente dos EUA.

As usinas brasileiras também vendem etanol aos americanos e, neste caso, a taxação é de 2,5% sobre o valor da mercadoria. No primeiro semestre do ano, o Brasil vendeu US$ 146,5 milhões, cerca de 209 milhões de litros.

"Vamos estar apresentando algo que tenha a ver com tarifas, e com justiça. Porque temos, muitos países, por muitos anos, têm nos cobrado tarifas para fazer negócios, e nós não cobramos deles. E isso se chama reciprocidade, se chama tarifas recíprocas, e talvez você veja algo sobre isso muito em breve", afirmou Trump.

Segundo fontes ouvidas pelo G1, a decisão será tomada pelo presidente Jair Bolsonaro e que, caso decida por derrubar as tarifas, a assinatura partirá da Secretária-Executiva de Comércio Exterior (Camex), vinculada ao Ministério da Economia.

Troca do etanol pelo açúcar

Setores do Ministério da Agricultura tentam que, em troca da isenção ao etanol americano, o açúcar brasileiro, hoje taxado em 140%, seja liberado de tarifas. Afinal, ambos os produtos são feitos no país da cana-de-açúcar e seria uma forma de compensar a entrada do combustível dos Estados Unidos.

Porém, como o adoçante nos EUA é de beterraba e o combustível feito do milho, o Brasil terá que enfrentar dois grandes lobbies para avançar com a proposta.

'Desconhecimento sobre o assunto'

Em nota enviada à imprensa na tarde desta terça-feira, a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) afirmou que o presidente dos Estados Unidos “demonstra desconhecimento total sobre assunto quando fala da tarifa de importação do etanol”.

“Ao dizer que ‘Não queremos as pessoas impondo tarifa a nós’, simplesmente ignora que a tarifa já existe desde 1995 (como parte do acordo do Mercosul) e que os EUA, sem o menor pudor, tarifam o nosso açúcar em 140%. Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço, seria um bom resumo dessa história.”

A Unica afirma que os americanos não estão conseguindo cumprir metas para consumo de etanol no país e que, por brigas comerciais, ficaram ser mercado para vender o produto.

“Não temos culpa, portanto, que os americanos não tenham para onde enviar o etanol que produzem, já que Trump fez a opção pela indústria do petróleo em seu país”, diz a nota assinada pelo presidente da Unica, Evandro Gussi.

“Temos ainda menos responsabilidade pela situação eleitoral do presidente Trump junto aos eleitores do Meio-Oeste, que cobram dele o cumprimento das promessas eleitorais. A cultura americana estabelece, por princípio, que cada um é responsável por seus próprios atos: eis a hora de pôr isso em prática", encerra a nota da Unica.

 


Fonte: Valor Econômico