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Tendência de queda da oferta na Índia deverá manter açúcar em alta

Postado em 25 de Março de 2021

O mundo poderá enfrentar restrição de oferta de açúcar na safra internacional 2022/23, que começará em outubro do ano que vem. Isso porque, a partir dessa data, a Índia, que disputa o posto de maior produtor global com o Brasil, terá que reduzir os subsídios a sua cadeia, ao mesmo tempo em que a demanda por etanol absorverá um volume maior de cana no país.

Se considerado o cenário que a trading britânica Czarnikow traçou para a oferta indiana, a atual janela de sustentação dos preços do açúcar no mercado internacional - que já subiram cerca de 40% nos últimos 12 meses - poderá se estender, o que beneficia os principais países exportadores: Brasil e Tailândia.

Em 2023, a Índia terá que deixar de oferecer subsídios à exportação, em linha com um acordo no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), de 2015. Segundo esse acordo, países em desenvolvimento terão que abrir mão de recursos que reduzem o custo dos embarques. No entanto, o governo indiano já descumpriu outros compromissos internacionais no passado recente, como quando aumentou os subsídios à produção acima dos limites permitidos pelo Acordo sobre Agricultura da OMC.

Atualmente, a Índia subsidia a exportação de 6 milhões de toneladas para reduzir o excesso de oferta no mercado interno. O país tem registrado excedentes de oferta desde a safra 2010/2011.

Mas outro fator que tende a enxugar a oferta indiana de açúcar é a política para combustíveis. A Índia vem acelerando seu plano de adição de etanol à gasolina, como via de descarbonização, e pretende chegar a 2025 com um percentual de 20% de mistura, o que demandará uma conversão maior da cana disponível no país para a produção do biocombustível.

Esses dois fatores vão reduzir a oferta de açúcar da Índia - o que, segundo a Czarnikow, levará os preços da commodity a patamares elevados. A trading inclusive fez uma comparação com o que ocorreu em 2010 e 2011, quando a Europa retirou os subsídios à produção de açúcar refinado e os preços chegaram a 36 centavos de dólar a libra-peso, três vez mais que os valores próximos de 12 centavos de dólar registrados um ano antes.

A Índia não deve ser o único país cuja demanda por etanol “roubará” espaço da produção de açúcar. Novos mandatos de mistura do biocombustível no Reino Unido e na China, por exemplo, também devem fazer com que uma parcela maior da cana processada no Brasil seja destinada ao etanol e menos ao açúcar, observou a trading.

Se for confirmado o cenário de redução da oferta global de açúcar em 2022/23 - e, consequentemente, de alta dos preços -, a Czarnikow avaliou que poderá haver uma expansão da área cultivada com cana no Brasil e na Tailândia. Porém, para que o aumento da área de cana resulte em maior produção de açúcar, há um período de ao menos um ano de diferença, e também terá que haver mais investimentos na capacidade instalada das usinas.

No Brasil, a trading avalia que a moagem de cana não ultrapassará a barreira dos 600 milhões de toneladas ao menos até meados de 2023. No ano passado, as exportações brasileiras de açúcar alcançaram o recorde de 30 milhões de toneladas, ou 45% dos embarques mundiais, e renderam ao país US$ 8,7 bilhões.

No caso da Tailândia, segundo maior exportador global, a Czarnikow também não acredita que a moagem de cana voltará às máximas históricas (de 135 milhões de toneladas em 2017/18) ao menos até 2023. O país perdeu espaço no mercado internacional de açúcar nas últimas duas safras após sofrer com longas estiagens e hoje representa cerca 9% do comércio global do adoçante.

Uma reação da produção na Europa também não é vislumbrada antes do fim de 2022. Embora os produtores europeus utilizem como matéria-prima a beterraba, cultura que resulta em produção após seis meses do plantio, os contratos de remuneração aos produtores são mais de longo prazo e atualmente oferecem aos agricultores remunerações referentes ao período de 2019, quando os valores estavam depreciados.

Entretanto, a Czarnikow não descarta a possibilidade de os produtores europeus responderem mais rapidamente a um estímulo de preço e ampliarem a área cultivada com beterraba, que vem caindo desde a safra 2017/18.

Dessa forma, a restrição da oferta na Índia, se confirmada, não deverá ser compensada logo por seus principais concorrentes, avaliou a trading. Para a Czarnikow, um aumento da oferta para atender a essa demanda só deverá vir a partir de 2023, mas as possibilidades de adversidades climáticas a fazem prever um cenário de preços ainda elevados para os próximos cinco anos.

 


Fonte: Valor Econômico