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Títulos ‘verdes’ ganham espaço no mercado financeiro

Postado em 25 de Novembro de 2019

Na esteira de discussões ambientais ao redor do mundo, uma modalidade de investimento vem ganhando espaço no mercado fi’nanceiro: os títulos verdes, ou green bonds em inglês. Esses papéis são emitidos por empresas para captação de recursos destinados a financiamento de projetos com impacto ambiental positivo em diversas áreas, de reflorestamento a transporte público.

O investimento pode ser feito por meio de debêntures, debêntures incentivadas (de infraestrutura), Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), por exemplo. No Brasil já foram emitidos seis títulos verdes, negociados na Bolsa de Valores, a B3, de empresas de energia, papel e celulose e da indústria química. 

Durante viagem a Nova York na última semana, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse que 2020 deve ser a hora de os green bonds acontecerem no Brasil. “Se caminharmos com a MP 897, que precisa ser votada e alterada, acho que temos boa chance de começar e começar grande com esses títulos, pois essa questão está sendo preparada há quatro ou cinco anos.”

A medida provisória 897, a MP do Agro, publicada em outubro pelo governo, aumenta o portfólio de produtos negociados no mercado financeiro com o objetivo de bancar a produção agropecuária.

Segundo a ministra, as emissões podem chegar perto do bilhão de reais. “Muitas usinas de etanol em São Paulo estão preparadas para isso e uma delas deve fazer uma emissão de US$ 50 milhões de CRA como experiência”, afirmou.

O acesso do investidor comum a esse mercado, porém, precisa ser ampliado, de acordo com Tereza Cristina. “Ainda temos alguns desafios para pessoas físicas, pois, por exemplo, não será emitido um título de R$ 10 mil.”

Mercado em expansão

A região da América Latina e Caribe representa apenas 2% do mercado global de green bonds, mas o crescimento tem sido significativo. De 2014 a 2019, as emissões somaram US$ 12,8 bilhões, sendo que só este ano, até setembro, foram US$ 4,74 bilhões, segundo a Climate Bonds Initiative (CBI), organização que levanta informações mundiais do mercado de títulos temáticos.

O Brasil é o maior mercado da região, com participação de 42% das emissões nos últimos cinco anos – US$ 5,41 bilhões. 

A forma de remuneração desses títulos não muda só porque ele é “verde”. De acordo com o analista de investimentos da corretora Ativa, Ilan Arbetman, existem duas vantagens principais nos títulos: a primeira é uma maior transparência em relação à alocação do valor arrecadado; e a segunda é que as companhias que emitem esses papéis costumam ter uma governança corporativa mais forte, o que diminui o risco de perdas.

Para Arbetman, a melhor opção no mercado são as debêntures incentivadas, isentas de imposto de renda. Dos papéis negociados na B3, três são dessa modalidade: papéis da AES Tietê, com remuneração de IPCA + 4,71%; da Neoenergia, IPCA + 4,07% para prazo de 10 anos e IPCA + 4,22% para prazo de 14 anos; e da Taesa, com remuneração de IPCA + 5,5%. 

Aposta

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que trabalhou com bancos da América Latina na estruturação de emissões desses papéis, aposta no avanço dos green bonds. “O investidor está entendendo que o impacto negativo de empresas no meio ambiente não é boa coisa do ponto de vista de negócio e que ele pode ganhar um bônus se (a empresa em que ele investe) fizer a coisa bem feita, com impacto socioambiental positivo”, diz a especialista do BID Maria Netto.

A preocupação com a governança também ajuda o mercado. Segundo a executiva, companhias que tiveram problemas com corrupção, por exemplo, encontram nos títulos “verdes” uma possibilidade de limpar a própria imagem diante do investidor.

Em dezembro o BID lança, em fase de testes, uma plataforma digital para a América Latina onde o investidor poderá acompanhar as atividades das empresas para ter certeza de que o projeto que recebeu os recursos desses papéis se mantém “verde”.


Fonte: Estadão Conteúdo