Clipping

Tristeza no campo – canaviais envelhecidos e com pouco trato, impactam o futuro das empresas

Nas áreas onde as empresas estão impactadas economicamente, muitas delas em processo de recuperação judicial, a visão do campo assusta

As duas maiores preocupações do setor canavieiro é endividamento e o canavial envelhecido. Questões que continuarão a ser impactadas negativamente na safra 2019/2020.

A baixa produtividade na safra atual advém do pouco investimento nos tratos da lavoura, na falta de renovação do canavial e por problemas climáticos. A baixa produtividade alimenta a ciranda de baixos resultados econômicos que aumentam o endividamento e continua impedindo que os investimentos aconteçam.

Circulando pelos canaviais da região Centro-Sul, entristece ver o pouco desenvolvimento da cana em pé e o mato competindo com as áreas colhidas, e não é pouco mato.

Isso pode não ser comum para as pessoas que transitam por áreas de empresas melhores estruturadas economicamente, onde essas áreas estão recebendo os tratos necessários e as renovações estão acontecendo, principalmente em regiões onde as áreas são geridas e melhores cuidadas por fornecedores de cana. Já nas áreas onde as empresas estão impactadas economicamente, muitas delas em processo de recuperação judicial, a visão do campo assusta.

Para entender a real situação do setor, é preciso um olhar crítico para o campo. A queda nos números das estimativas de disponibilidade de cana-de-açúcar em relação as divulgações no início de cada ano safra se dá justamente pela falta desse olhar crítico. Coletas de dados por telefone já não funcionam mais, e menos ainda confiar nos números repassados pelas empresas, que ficam se pautando em passar informações para o mercado que mostram sustentabilidade operacional. Isso ainda prevalece na maior parte das empresas, que informam sempre um percentual que varia de 10% a 15% maior do que a produtividade real estimada.

A estimativa maior de produtividade impacta negativamente nos preços dos produtos e se a ideia era mostrar capacidade de recuperação, o efeito acaba sendo o contrário quando os fatos refletem no caixa. Por isso é importante avaliar como as consultorias estimam essa previsão. Será que visitam o campo?

Os gestores das empresas de pesquisas que divulgam dados, bem como os gestores das unidades produtoras, precisam circular pelo campo e assumir a realidade.

No entanto, o que é ruim para uma grande fatia do setor que sofre economicamente, será a oportunidade de ouro para as empresas que estão fazendo a lição de casa e gerando o produto final no campo, tratando corretamente a lavoura e fazendo as renovações de áreas no tempo certo.

O aumento no consumo de etanol em relação a gasolina e a nova política de preços dos combustíveis, atrelando o preço do etanol ao da gasolina, bem como a implementação do RenovaBio, que vai ampliar a participação dos biocombustíveis na matriz energética, demanda maior produtividade agrícola.

A maior demanda frente a queda da produtividade mundial, que também está desestimulada pelos atuais preços no mercado internacional, elevará a cotação do produto a níveis altamente remuneradores, trazendo novas perspectivas para as empresas brasileiras, principalmente para aquelas que tiverem lavoura para responder as demandas.

Ao contrário do que se imagina, o impacto do aumento de preços não reflete positivamente para as empresas endividadas. Estas geralmente tem grande parte da sua moagem dependente de cana de terceiros e, além de terem custos maiores para manter a empresa em operação (quanto maior o risco, maior o custo de produção), há o impacto dos preços maiores no CONSECANA, tendo que remunerar melhor a cana de terceiros e, na maior parte dos casos, não auferem os melhores preços, já que por dificuldades no caixa vendem a safra antecipadamente.

Para se manter no mercado, as empresas terão que melhorar a sua eficiência em todos os processos, desde o campo, passando pela indústria até a forma de gerenciar seus custos, implementando uma política orçamentária austera, chegando até aos processos de comercialização para o mercado interno e externo.

Nessa linha de melhorar a eficiência, o setor tem que se adaptar a controles mais rigorosos de seus gastos. Como exemplo posso citar os combustíveis e lubrificantes, que pesam muito na composição dos custos e tem perdas não controladas no processo.

Considerando esses produtos, as empresas precisam gerenciar os processos desde a compra, transporte, recebimento e distribuição do diesel, além de implantar controles digitais nos sistemas de controle e abastecimento. Isso já tem sido feito com sucesso por empresas que se especializaram em assessorar as indústrias a reduzir os custos.

Tudo que possa representar impacto ambiental entra na conta dos créditos de descarbonização.

Enquanto aguarda-se do governo as definições das metas de produção, as empresas continuam na luta para aumentar a produtividade sem recursos para se financiarem, o que aumenta o risco de ter maior demanda, mas não ter produto.

Quem ganhará com isso são os grupos que se reorganizaram e que estão gerando margens, por menores que sejam.

 

Por Marcos Françoia - GRANT THORNTON & MBF AGRIBUSINESS 


Fonte: Marcos Françoia - retirado do site CanaOnline