Clipping

Trump vai na contramão do combustível mais limpo

Enquanto líderes globais estão reforçando a defesa do uso de biocombustíveis que emitem menos gases de efeito estufa, como defendeu ontem o ex-presidente americano Barack Obama durante o Fórum Cidadão Global, em São Paulo, ao mencionar expressamente os biocombustíveis brasileiros, o governo de Donald Trump volta a indicar que pretende caminhar na direção contrária.

Nesta semana, a Environmental Protection Agency (EPA), a agência de proteção ambiental dos Estados Unidos que é responsável por estabelecer os mandatos anuais de uso de combustíveis renováveis, reforçou sua argumentação para reduzir os volumes obrigatórios do ano que vem.

Em julho, o órgão apresentou sua proposta para os mandatos a serem cumpridos em 2018, indicando que pode reduzir o volume reservado aos "biocombustíveis avançados" - que possuem uma "pegada" de carbono menor que os "biocombustíveis convencionais". A proposta é que o volume de "biocombustíveis avançados" em 2018 fique em 4,24 bilhões de galões, enquanto o mandato deste ano é de 4,28 bilhões de galões.

O etanol de cana, fornecido basicamente pelas importações do produto do Brasil, é um dos principais "biocombustíveis avançados" utilizados nos Estados Unidos.

A proposta foi objeto de comentários no âmbito de uma consulta pública, mas a agência não indicou que pretende alterar sua proposta, conforme documento publicado na quarta-feira.

Um dos principais argumentos considerados pela EPA é o de proteção ao mercado americano. A agência demonstrou preocupação com a "incerteza substancial" quando ao ritmo das importações, o que poderia dar permissão a ela "renunciar aos volumes legais aplicáveis".

O órgão também mencionou em seu texto que, durante as consultas, foram apresentadas por parte de duas organizações representantes da indústria de combustíveis fósseis a preocupação a respeito de um "severo prejuízo econômico" aos Estados Unidos.

A agência tem sido alvo de forte pressão da cadeia do petróleo, e especificamente de alguns players. No documento, a EPA mencionou três vezes um comentário da companhia Valero, refinaria do bilionário Carl Icahn, que tem uma relação próxima com Donald Trump.

Para Elizabeth Farina, presidente da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica), que representa as usinas do Centro-Sul do Brasil, a postura do governo americano a respeito dos biocombustíveis tem mais um caráter "protecionista", seguindo a tônica geral que vem sendo adotada pelo governo Trump.

A agência americana abriu mais um período de consulta pública, agora até 19 de outubro, para receber mais comentários a respeito dos próximos mandatos.

Farina afirmou que a indústria brasileira continuará a participar das consultas promovidas pela EPA, mas ressaltou que também é preciso "olhar para outros lugares", como a China, que recentemente indicou que pretende elevar a mistura de etanol à gasolina para 10% até 2020.

Ela comentou também que alguns governos estaduais americanos, diferentemente do governo federal, já indicaram que permanecerão no Acordo climático de Paris, mantendo seus programas de incentivo a biocombustíveis. É o caso da Califórnia, que possui uma política específica que oferece um "prêmio" para o etanol brasileiro.
 


Fonte: Valor Econômico