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UE oferece cota pequena para carne e etanol

A União Europeia (UE) decidiu oferecer ao Mercosul acesso para carne bovina inferior ao que já propôs no passado e volume também modesto para etanol, em meio a uma clara divisão entre países europeus, desidratando o pacote final para o acordo entre os dois blocos, apurou o Valor.

Em reunião informal com técnicos dos Estados-membros, a Comissão Europeia avisou que vai oferecer cota de 70 mil toneladas por ano para a entrada de carne bovina do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai no mercado comunitário, provavelmente livre de tarifa. São 35 mil toneladas para carne congelada e outros 35 mil para carne fresca.


A oferta europeia foi de 100 mil toneladas em 2004, quando a negociação foi suspensa. No ano passado, Bruxelas acenou com cota de 78 mil toneladas, que acabou não colocando na mesa diante da reação hostil da França, Irlanda e outros produtores protecionistas.


Produtores de vários países europeus, contrários ao acordo, reclamam que países do Mercosul já têm acesso exagerado no mercado europeu, com 74% de toda a carne bovina importada, somando 246 mil toneladas por ano, em média.


Para o etanol, outro produto sensível para os europeus, a cota oferecida é de 600 mil toneladas para o Mercosul, sendo 400 mil para uso industrial e 200 mil para combustível. É idêntico ao proposto em 2004. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) considera a oferta "inaceitável", conforme Géraldine Kutas, assessora-sênior para assuntos internacionais da presidência da entidade.


"A Unica está contente que a UE tenha completado sua oferta, que devia ao Mercosul desde maio de 2016. Isso mostra compromisso da UE com a negociação", afirmou ela. "Porém, a Unica está decepcionada com o volume para etanol. É inaceitável, considerando o potencial de redução de gás de efeito estufa de nosso etanol e nossa potencial contribuição à bioeconomia."


Nesta sexta-feira (29/09), haverá a reunião mais política e formal da Comissão Europeia com os Estados-membros, para a oferta em seguida ser enviada ao Mercosul. Ninguém espera que as cifras para carne bovina e etanol mudem. Em todo caso, países favoráveis ao acordo com o Mercosul se articulavam para se contrapor ao grupo de 11 protecionistas, liderado pela França e Irlanda, que enviou carta à UE pedindo o adiamento da oferta agrícola.


O embaixador do Brasil para a UE, Everton Vieira Vargas, liderou intensa movimentação diplomática nas últimas semanas, junto a representantes dos Estados-membros e outras personagens influentes na negociação.
A mensagem do Mercosul é de que o acordo precisa ser "ambicioso e equilibrado". E que a UE não pode, na hora da barganha final, oferecer na agricultura - de maior interesse ofensivo do Mercosul - algo que o bloco não possa vender internamente.


"Os europeus são ambiciosos em compras governamentais, propriedade intelectual, acesso de bens industriais", observou Vargas. "E o equilíbrio deve ser entendido entre agricultura e indústria, por exemplo'', disse. "Esse é um tema que vai mobilizar importantes forças políticas e econômicas do Mercosul, e a UE precisa fazer uma oferta com credibilidade, que permita ao Mercosul considerar que se está levando a negociação a sério'', afirmou o embaixador.


Apesar de forte resistência de países protecionistas na agricultura, Vargas nota que a Comissão Europeia, braço executivo da UE, tem os instrumentos para concluir a negociação. Tem o mandato para negociar o acordo de livre comércio com o Mercosul, outorgado em 2000, e essa autonomia foi reconhecida pela Corte Europeia de Justiça, em abril deste ano.


Para o embaixador, a comissão e bom número de países sabem que a negociação com o Mercosul tornou-se mais interessante para a UE diante da nova atitude isolacionista dos EUA em relação a livre comércio e congelamento do Acordo de Livre Comércio e Investimento Transatlântico (TTIP).


Um acordo com o Mercosul será o mais importante para a UE, depois daquele com o Japão. A corrente de comércio entre UE e Mercosul foi de € 84 bilhões em 2016, e da UE com o Japão, de € 124 bilhões. Diante das dimensões da economia japonesa, comparada às economias do Mercosul, não há distância muito grande. Em 2016, os europeus, mesmo com a crise brasileira, tiveram superávit de € 1,6 bilhão na balança bilateral, enquanto sofreram déficit de € 8,2 bilhões com o Japão.


O embaixador do Brasil destaca igualmente o aspecto geopolítico de um acordo, no momento em que a China se converte no principal sócio comercial do Mercosul, com impacto que vai além dos números do comércio. Os europeus vão perder terreno, se não fizerem logo um acordo de troca de preferência, que dará vantagens para as empresas dos dois blocos nos respectivos mercados, por exemplo na concorrência com chineses, americanos e outros.


A tendência é mesmo de oferta agrícola europeia na mesa de negociações, enfim, na semana que vem em Brasília. O Mercosul, por sua vez, vai provavelmente ajustar sua oferta industrial diante das cifras europeias.


Fonte: Valor Econômico