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Um pouco mais do mesmo, mas querendo ser diferente - Por Arnaldo Luiz Corrêa

Postado em 11 de Outubro de 2019

O pífio desempenho do mercado futuro de açúcar, encerrando o pregão da sexta-feira com o vencimento março/2020 cravando 12.41 centavos de dólar por libra-peso e acumulando na semana uma perda de quase 5%, reforça a ideia difundida por nove entre dez traders, de que o mercado de açúcar permanece restrito a um aborrecido intervalo de preços entre 12 e 13 centavos de dólar por libra-peso. Ou seja, comprar a 12 e vender a 13 parece uma estratégia de pequeno risco. No entanto, há mais por trás desse sentimento.

Na semana passada o mercado de energia se deteriorava com algumas das commodities caindo mais de 6%, caso do petróleo Brent e do WTI. Nesta sexta-feira última, a tela do computador estava tingida de verde com a quase totalidade das cotações dos mercados operando em território positivo. Adivinhe, caro leitor e estimada leitora, quais os únicos mercados que trabalhavam no vermelho? Um pirulito de morango para quem disse açúcar e café. Seriam os fundos novamente vendendo softs e comprando energia?

Pois bem, nossa leitura é que o movimento dos mercados segue a velha regra dos algoritmos e modelos matemáticos. Que se danem os fundamentos, já que eles ainda não mostraram seus dentes e suas garras. Dessa forma, uma operação de long-short, nem que seja de curto prazo, justifica o movimento dos fundos. Ou seja, vendem o açúcar e compram energia já que esta caiu demais nas últimas semanas e o risco de ficar short açúcar não á lá grande coisa.

É bom que se diga, que os fundos que hoje pressionam o mercado futuro de açúcar são os mesmos que há exatos três anos colocavam o contrato de NY próximo de 24 centavos de dólar por libra-peso e ninguém os questionava por isso. Estavam errados lá como, na nossa visão, estão errados agora. Mas o tempo se encarrega de corrigir os fundamentos.

Mas, não pode ser apenas um movimento de fundos, será? Bem, em cinco dias tanto o café (caindo 5.8%) como o açúcar (caindo 2.8%) ficaram na ponta inversa de gasolina RBOB, petróleo WTI e Brent, que subiram mais de 3.5%. Os fundos aumentaram suas posições vendidas à descoberto em quase 20,000 lotes no açúcar esta semana. Segundo o relatório publicado pelo CFTC, eles estão vendidos 170,000 lotes. Tire suas próprias conclusões.

Certamente, o que dificulta o mercado de açúcar de obter uma recuperação mais consistente é exatamente o fato de algumas usinas poderem estar premidas a fixar seus compromissos de exportação e não querem, não podem ou não devem esperar por preços melhores para não comprometer seu ano fiscal ou seu orçamento.

Outro fato alentador, nesse caso, é a combinação recente da queda do petróleo com a valorização do real. Gasolina mais barata em real diminui a arbitragem favorável que o etanol tem em relação ao açúcar e pode afetar o mix de produção do Centro-Sul para o próximo ano.

As nomeações de navio para carregar açúcar dos portos do Centro-Sul continuam aumentando, uma boa indicação de que existe demanda para o produto.

China e EUA fecham parcialmente acordo comercial que deve trazer um pouco de tranquilidade para o agitado mercado de commodities. De um lado os EUA reduzem algumas tarifas sobre os produtos chineses, do outro os chineses fazem algumas concessões na área agrícola. Bom para as commodities.

Temos ainda muito tempo até a expiração do março. Praticamente 20 semanas em que tudo pode acontecer. Ainda existem dúvidas em relação à safra indiana; do encerramento da safra do Centro-Sul; do nível de consumo do etanol, que pode enxugar o estoque de passagem e manter o mix para o próximo ano; do efeito do clima na safra Europeia; da redução de safra na Tailândia além do que esperávamos, entre tantos outros fatores exógenos.

São 20 semanas até o final de fevereiro. Tomara que sejam diferentes das últimas 20 semanas, pois nelas, o mercado variou muito pouco. De 10,68 a 12,93 centavos de dólar por libra-peso. À conferir.

 


Fonte: Archer Consulting