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Uma conversa com Arnaldo Sucroenergético Jardim

Dissociar o setor sucroenergético do deputado Arnaldo Jardim é algo bastante complicado, sua participação nos desafios em torno da produção de cana, açúcar, etanol, bioeletricidade, plástico verde, biometano e tudo mais que se pode produzir dentro dessa cadeia é tão intensa que soa naturalmente a leitura de seu nome acrescentando a nomenclatura do segmento.

Em uma conversa bastante franca,o deputado conta sobre inúmeras batalhas vencidas dentro do espectro político, também relata as brigas atuais e deposita no RenovaBio e tudo que o cerca a possibilidade do setor recuperar a plena capacidade respiratória depois da asfixia sofrida em governos anteriores.

Confira o nosso diálogo:

Revista Canavieiros: Sua carreira de trabalho no setor é longa. Dos tempos de assembleia legislativa, quais batalhas ficaram eternizadas em sua memória?

Arnaldo Jardim: Tem razão. Há tempovenho trabalhando ao lado do setor. Quando fui deputado estadual coordeneia frente parlamentar em defesa da energia limpa e renovável.Na época trabalhei para proteger o então álcool combustível, era um período anterior aos carros bicombustíveis, batalhamospela frota verde.
Uma das primordiais açõesfoi a aprovação e depois a sanção pelo governador Alckmin da diminuição da alíquota do ICMS sobre o etanol de 25% para 12%, o que significou um escudo para o biocombustível em relação à grave crise vivida naquela época.

Revista Canavieiros: Com certeza a redução do ICMS salvou muita gente da falência. Mas em paralelo os produtores de cana tiveram um grande desafio, que foi a pressão pelo fim da colheita mecanizada. Conte um pouco sobre esse período.

Jardim: Havia muita pressão de vários setores da sociedade, dentre eles o Ministério Público, que exigiao fim imediato dessa prática. Sabendo do desastre que isso poderia significar, e me atento aqui somente à questão do desemprego repentino sem a implementação de um plano de reinserção no mercado de trabalho que tal medida geraria, conseguimos mudar a opinião de diversos atores, a de que deveria acontecer um processo de transição, e então aprovamos a legislação que estabeleceu a redução gradual do corte manual.

Revista Canavieiros: Se até hoje o setor busca a plenitude de produtividade adotando o corte mecanizado, imagina se a lei mudasse do dia para a noite? Seria uma tragédia. Mas falando em produtividade, quando foi secretário você esteve muito próximo dos institutos estaduais de pesquisa que trabalharam ativamente com os produtores nessa questão. Você já havia desenvolvido algum trabalho parecido nos tempos de deputado estadual?

Jardim: Com certeza. Inclusive nessa época fiz minha ação que considero mais emblemática, que foi um esforço muito grande para que o Estado de São Paulo fosse protagonista, através da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), no desenvolvimento dos sistemas de injeção de carburação que foram a base para a viabilização industrial do carro flex.

Revista Canavieiros: Imagina se hoje a frota nacional não fosse flex, não existiria RenovaBio, talvez nem etanol, diante da atual crise de preços, poucas usinas produziriam açúcar, ou seja, o setor poderia estar fadado ao fim. Tocando no assunto do RenovaBio, o qual sua aprovação foi uma vitória e tanto, quais suas primeiras conquistas agora olhando para o Congresso Nacional?

Jardim: Lá sempre estive na liderança dos principais assuntos ligados ao setor, trabalhei em questões referentes ao financiamento agrícola, com foco especial aos incentivos à renovação de canaviais e também instalação de novas unidades industriais.
Houve um desafio importante envolvendo a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), que iniciou quando a cogeração de energia a partir da queima do bagaço da cana começou a ganhar força, onde tivemos um empenho grande na solução de problemas relacionados à conexão de linha e também na criação de leilões específicos para a aquisição dessa eletricidade, feito isso conseguimos abrir o caminho da sua inserção na matriz energética nacional.

Revista Canavieiros: Como foi a criação da frente parlamentar em defesa do setor sucroenergético?

Jardim: Diante de tantos desafios era fundamental a criação da frente, onde eu, ao lado de amigos parlamentares montamos esse grupo importantíssimo no sentido de salvaguardar várias decisões de interesse direto de toda cadeia. Quando terminei minha passagem pela Secretaria de Agricultura de Abastecimento do Estado de São Paulo e retornei ao Congresso Nacional fui reconduzido à liderança na frente, onde tive a experiência de trabalhar ativamente na aprovação daquele que é um dos maiores programas da história desse setor, o RenovaBio.

Revista Canavieiros: Um legado do seu trabalho como secretário com certeza foi a redução do hiato que existia entre os institutos de pesquisa e os canaviais. Como você vê essa afirmação?

Jardim: Me empenhei para o fortalecimento do Centro de Cana do IAC, bem como dos outros institutos de pesquisa no sentido de trabalharem em conjunto com ele.O maior resultado em termos de aceitação comercial foi a difusão da MPB (Mudas Pré-Brotadas) através da técnica de meiosi. Porém, se essa filosofia tiver segmento, muitos resultados práticos sairão do time do Marcos Landell.
Pensando nessa questão de resultados práticos de minha atuação como secretário, quero ressaltar a iniciativa de estabelecer uma nova resolução sobre o uso e conservação do solo em áreas de plantio de cana-de-açúcar, o que resguardou as novas características de ocupação da cultura em decorrência da busca de ganho de produtividade em um cenário de mecanização de diversas fases de seu manejo.

Revista Canavieiros: Como você bem lembrou a continuidade do trabalho é fundamental, para isso é preciso eleger representantes comprometidos com o setor, quais características dos candidatos, tanto para o executivo como para o legislativo precisam ser observadas pelos eleitores que ganham a vida com cana, açúcar e etanol?

Jardim: A primeira característica é ver se o candidato conhece de fato toda a cadeia produtiva, isso porque, por incrível que pareça, há um grande número que desconheceessa virtuosidade, não sabeos efeitos benéficos para a sociedade e o meio ambiente. Em sequência se ele tem alguma raiz com o setor, se trabalhou nele de alguma maneira, se é de alguma região ligada com esse mundo.
Para a escolha do Presidente da República, o eleitor precisa ficar atento explicitamente a uma questão, que é o seu comprometimento na implementação do RenovaBio, pois é primordial para o setor que o próximo presidente apoie o programa.
E por fim é necessário constatar a disposição do candidato em defender o setor, em brigar contra os mais variados preconceitos dos quais ele ainda é vítima, a visão míope que a sociedade tem sobre a atividade agrícola, da degradação ambiental, que há relações de trabalho antiquadas e fora da lei, entre outras.

Revista Canavieiros: Fale um pouco mais desses preconceitos.

Jardim: Eu como fui secretário da agricultura recentemente sei de todos os cuidados que há em relação à proteção de nascentes, na manutenção de matas ciliares é um absurdo alguém apontar o dedo para a cadeia canavieira e dizer que essa é irresponsável sob esse ponto de vista. Sobre as relações trabalhistas, hoje o setor é referência para outros segmentos, através de um alto grau de formalização, muito superior que há nas cidades.

Revista Canavieiros: O RenovaBio será a sua maior briga no dia seguinte após a eleição?

Jardim: É o primeiro assunto da fila com atenção mais que especial.Embora esse processo estejacaminhando bem,com o decreto de regulamentação saindo antes do prazo máximo previsto e termos vencido a grande disputa no momento da fixação de metas, quando tivemos que enfrentar o lobby do lado comprometido com os combustíveis fósseis que tentaram estabelecer metas muito modestas, o trabalho continuará intenso até a sua entrada em operação.
No momento trabalhamos para a definição de como funcionarão as agências certificadoras, ao final desse processo de qualificação saberemos o queos responsáveis pela definição da quantidade de Cbios que cada unidade industrial poderá emitir terão que fazer para prestar tal serviço. Também já começaram as tratativas junto ao mercado financeiro, mais especificamente com a B3 (antiga Bovespa), local onde ocorrerão os movimentos de compra e venda dos certificados, de como funcionará esse comércio.

Revista Canavieiros: E quem mais está na fila?

Jardim: Ainda teremos batalhas na questão ambiental, embora tenhamos sido vitoriosos no Supremo, que finalmente, depois de sete anos, acabou acatando a visão que estabelece a constitucionalidade do novo código florestal,aguardamos a publicação do acórdão, assim que isso for feito, teremos um impulso para o processo de implantação efetiva do código florestal.
Sob a pauta voltada ao meio ambiente tem também a nova lei dos agroquímicos que permitirá ganhos de tecnologia e a desburocratização da pesquisa e desenvolvimento para todo o mundo agro. Nesse sentido também temos o compromisso de desenvolver várias outras medidas de desregulamentação, ou seja, estabelecer regras acessíveis a todos, cito como exemplo a criação em São Paulo, quando fui secretário, o PTV (Permissão de Trânsito Vegetal), que consistiu na introdução dessa autorização ser emitida de maneira eletrônica.

Revista Canavieiros: A situação delicada que a Embrapa atravessa também não é uma prioridade de trabalho?

Jardim: Vivemos hoje um momento delicado da Embrapa, é necessário que ela recupere a sua vitalidade e tenho certeza que poderei colaborar muito nessa empreitada, pois um dos trabalhos que mais me orgulho por ter participado em São Paulo foi a recuperação dos seis institutos de pesquisa do estado.
A manutenção e ampliação de investimentos em pesquisa e desenvolvimento não é uma prioridade de trabalho minha, mas uma marca do meu trabalho, defender essa matéria está no meu DNA.

Revista Canavieiros: Dessa sua vocação ninguém duvida. E com essa experiência já adquirida na matéria, qual é a virtude principal para acelerar essas instituições?

Jardim: Implantando dinamismo nelas, volto mais uma vez a citar como exemplo o trabalho relacionado ao Centro de Cana, o qual foi integrado de maneira intensa tanto em suas unidades (Ribeirão Preto, Assis e Jaú), como os outros institutos de pesquisa do estado e o setor produtivo. Um outro exemplo que merece destaque é o Bioen (Pesquisa em Bioenergia), da Fapesp, que concentra esforços em questões como o etanol de segunda geração e a utilização de células de combustíveis em veículos elétricos movidosa etanol.

Revista Canavieiros: Vamos voltar ao RenovaBio, o fato dele ter sido aprovado com quase unanimidade em tempos de extremos na política nacional, dá para concluir que pelo menos em Brasília o etanol é quase uma unanimidade?

Jardim: Eu festejo muito essa aprovação do RenovaBio, a única exceção foi do PSOL. Isso demonstrou um avanço importante na convergência necessária para que uma política pública não seja uma decisão momentânea, monocrática de Governo, mas estratégica para o país.

Revista Canavieiros: Quais motivos geraram essa convergência?

Jardim: Sem dúvidas as virtudes que há na cadeia do setor sucroenergético, que é ambientalmente correta, socialmente equilibrada e economicamente desenvolvimentista, portanto essa conjunção de efeitos faz ela ter uma boa aceitação.Porém não podemos nos distrair pois existem riscos de assuntos já superados que podem voltar a ser obstáculos para o programa, comoos irracionais ecochatos, que podem retomar a questão da expansão de área de cultivo para produzir bioenergia em detrimento na produção de comida,o que já é provado que não é verdade, fatos já comprovaram isso, mas o risco de discussões como essa ressurgirem sempre existe.

Revista Canavieiros: Quem você aponta como os principais concorrentes dos biocombustíveis na conjuntura atual?

Jardim: Tem a oposição vinculada aos combustíveis fósseis, porém uma nova força é o surgimento dos defensores do carro elétrico (a bateria) que faz com que alguns questionem os biocombustíveis. Sob esse aspecto, os dados não mentem ao mostrar que a virtuosidade ambiental desses veículos existe até se observar a geração de energia elétrica que vai abastecer essa frota, eles não falam do alto custo de produção de baterias e o problema do descarte das mesmas e também não pontuam a necessidade de se construir uma nova rede de alimentação, ou seja, discutem o fato em si, sem falar o contexto que eles acontecem.

Revista Canavieiros: Conte agora um pouco sobre a enrascada que o Governador Márcio França se envolveu ao aprovar a lei que proíbe a caça controlada do javaporco?

Jardim: A questão do javaporco eu sou totalmente a favor da caça de controle.É uma barbaridade a propagação dessa espécie exótica, leia-se que veio de outro país, portanto não tem um predador natural e por isso provoca desequilíbrio ambiental afugentando outras espécies, causando destruição de nascentes, além de grandes danos a lavouras de milho, grãos, entre outras.E não tenho dúvida que o melhor método de controle é através da caça.
Com relação à participação do governador Márcio França nisso, é preciso esclarecer dois lados: primeiro pontuar que a medida foi aprovada por unanimidade, por incrível que pareça, pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, portanto apoiadores do França, do Dória, do Skaf, de todos os candidatos a governador votaram a favor. E, segundo, depois que ele sancionou,determinou que fosse feita uma regulamentação para disciplinar a caça de controle e essa foi promulgada. De qualquer forma eu acho que a lei foi um grande equívoco e tenho publicamente me manifestado sobre isso.

Revista Canavieiros: Mas em seguida ele se envolveu em outra lei que não foi engolida pelo mundo agro, a da proibição de exportação do gado vivo. A que você deve essa postura?

Jardim: Realmente o governador se manifestou publicamente a favor dessa lei, que ainda não foi votada na Assembleia Legislativa, eu acho temerário que nós estamos discutindo esses temas totalmente desprovidos de ciência, sem base nenhuma.
Sou a favor da exportação do gado vivo e espero que esse texto não seja aprovado, porém é preciso ressaltar que em Brasília também está tramitando uma lei parecida, de autoria do então deputado e hoje candidato ao senado Ricardo Tripoli, portanto estou focado em derrubar essa proposta tanto no estado como no país.

Revista Canavieiros: A impressão que dá é que alguns políticos, talvez por não ter uma bandeira verdadeira para defender, se apoiam na “causa ambiental” com muletas para sustentarem suas carreiras.

Jardim: Estamos vivendo um período muito perigoso, tempos de irracionalidade na criação de leis sem base científica nenhuma, e que propõe uma demagógica proteção ambiental. Vejam só, há um projeto que proíbe o confinamento, com isso deixariam de funcionar granjas de suínos, de aves, os próprios zoológicos teriam que ser fechados.Outro texto absurdo é sobre a proibição da pulverização aérea, não se atentam que vivemos uma verdadeira revolução na tecnologia de precisão, eles se baseiam simplesmente na possibilidade que podem acontecer erros e jogar produtos fora das regiões-alvo, acho que agora precisamos usar a ciência contra esse verdadeiro teatro de absurdos.

Revista Canavieiros: Vamos aproveitar essa temperatura mais alta para falar da questão do glifosato, ainda bem que a irresponsável medida do juiz de primeira instância já caiu, mas ela já gerou uma insegurança jurídica a qual outra medida parecida pode acontecer e, dependendo da situação, causar estragos maiores no campo. Como você vê isso?

Jardim: Mais uma vez se trata da febre demagógica sobre preservação ambiental que atinge o país fazendo com que análises científicas sejam completamente ignoradas.
Todos sabemos que há um grande movimento no sentido dos orgânicos, não contra a produção e quem escolhe por esse tipo de alimentação, mas esse mercado deve crescer de uma forma natural. Mas é lógico que para alimentar toda humanidade não é possível fazer agricultura sem o uso de produtos químicos, quer seja como adubo ou defensivos.Aliás, o governador Geraldo Alckmin sacramentou uma frase profundamente lúcidasobre esse tema: - É remédio contra pragas e doenças, o uso dos químicos não é veneno. Da mesma forma que o ser humano também faz uso da química para enfrentar seus problemas de saúde”.

Revista Canavieiros: E essa frase é praticamente o mantra da nova lei dos defensivos

Jardim: A noção de veneno começa quando se tem uma dose excessiva ou o uso inadequado de qualquer substância que seja. Com isso a lei nova dos defensivos se torna importante por se tratar de um processo de análise mais ágil e objetiva daquilo que são novidades, muitas vezes mundiais de novas moléculas, que são descobertasfruto de muita pesquisa, cuidados,investimentos, isso faz com que, através de um raciocínio lógico, elassejam mais eficientes em relação aquelas que já estão sendo usadas, ou que causem menor impacto ao meio ambiente, enfim como novos remédios elas trazem uma eficiência maior.
Estas muitas vezes são aprovadas antesem países da União Europeia ou Estados Unidos, que possuem, como nós, regras muito rigorosas sobre toxicidade e outros possíveis prejuízos ao meio ambiente, portanto o que estamos fazendo basicamente com a edição da nova lei é tornar o processo de reconhecimento, análise e incorporação dessas novidades científicas e tecnológicas em uma forma mais ágil, para romper o burocrático procedimento que faz demorar em média de seis a oito anos para um avanço como esse possa ser colocado à disposição do produtor brasileiro.

Revista Canavieiros: Há candidatos fortes contra essa lei?

Jardim: Há sim, muitos candidatos, também acontece um movimento de mídia descriterioso que confunde a opinião pública identificando essa lei como o pacote do veneno.Isso para estimular uma sensação na população de que o agricultor estaria oferecendo alimentos comprometidos, olha o absurdo, o agro brasileiro busca resolver o problema da fome brasileira e mundial.

Revista Canavieiros: Sobre essa lacuna entre campo e cidade, como parlamentar, você enxerga alguma maneira de contribuir para a redução dela?

Jardim:Eu vejo as campanhas como a veiculada pela Rede Globo “Agro é Pop”, que deixou muita gente perplexa com a complexidade de uma cadeia produtiva e por outros aspectos, que são: primeiro, demonstrar que a produção agropecuária que se faz no Brasil é sustentável; segundo, mostrar que as relações de trabalho no meio rural são sérias, que há alto grau de formalidade no campo; terceiro, apresentarque o setor não é antiquado como boa parte da população urbana imagina, ele é moderno, tanto é que boa parte dos aplicativos desenvolvidos no Brasil são veiculados no meio rural.
Divulgar mais isso, mostrar a virtuosidade das cadeias produtivas, e convencer que é nesse campo, da produção agropecuária, que o Brasil é campeão mundial e tem vantagens competitivas e comparativas em relação a outros países do mundo é fundamental.

Revista Canavieiros: Seu trabalho à frente da Secretaria do Estado de São Paulo na última gestão Alckmin já o coloca como um forte candidato a ser o ministro da Agricultura se esse vencer as eleições. Mesmo que não seja o escolhido qual o perfil ideal para o ocupante dessa cadeira?

Jardim: A minha experiência como secretário da Agricultura de São Paulo na gestão Alckmin foi altamente compensadora, realizadora do ponto de vista pessoal.
Dentre os diversos desafios eu acabei me tornando presidente do Conselho dos Secretários da Agricultura do Brasil, o Conseagri, onde normalmente o cargo é ocupado por um ano e acabei ficando por dois devido à solicitação dos colegas dos outros estados, fato também que me deixou muito contente.
Isso me permitiu utilizar o que fizemos em São Paulo, principalmente minhas quatro diretrizes principais, que foram: trabalhar para que a agricultura tenha cada vez mais em harmonia com a questão ambiental, incentivar o associativismo e cooperativismo, dar dinamismo aos institutos de pesquisa e produzir alimentos saudáveis, e replicar em âmbito nacional.
Ainda como presidente do Conseagri fui além, trabalhamos na matéria a respeito do plano safra, defendemos uma forma de torná-lo plurianual, como o Alckmin colocou em seu programa de Governo, a ampliação da área irrigada no Brasil, um instrumento muito importante para estimular a nossa produtividade;tivemos também a defesa do seguro agrícola, para ele ganhar abrangência, cobrir uma área maior, ir além de ser um seguro contra as intempéries e oscilações climáticas,mas caminhar para se tornar um protetor de renda, ou seja, dar mais estabilidade ao produtor.
Essa experiência me trouxe muito conhecimento e preparo do ponto de vista do agro nacional, mas mais importante de ser eu ou não, será que o ministro da Agricultura tenha essa visão, trabalhar nas mesmas linhas, com objetivos parecidos e, além disso, volto a repetir a minha preocupação com a situação que está a Embrapa, a qual passa por uma fase difícil, necessitando de dinamismo.
Fora isso, um ministro da Agricultura precisa ser muito ousado na defesa de mercado internacional para o nosso produto, contra o protecionismo de outros países, vide o caso que estamos enfrentando atualmente de uma concorrência desleal no que diz a respeito do açúcar.

Revista Canavieiros: A atual crise de preços do açúcar é um caso de total abandono governamental para um produto, o que fazer para reverter essa situação?

Jardim: Essa é uma pergunta muito importante porque toca em um ponto estratégico do setor, nós precisamos de garra e agressividade para defender o nosso mercado internacional de açúcar. O Brasil é disparado o melhor produtor do mundo, tanto em preço como em qualidade, e hoje está perdendo espaço por conta de subsídios principalmente o europeu e dos asiáticos (Índia, Tailândia e Paquistão). Isso acabou incentivando o crescimento da oferta mundial de açúcar para números muito além da demanda e consequentemente seus preços caíram abaixo do custo de produção.
Recentemente estive nos Estados Unidos onde como parlamentar pude estabelecer diálogos sobre o futuro do setor e essa questão esteve muito presente. Inclusive conseguimos reunirAustrália e Canadáe planejar uma ação integrada para combater os principais subsidiadores.
Ações como essa têm que ser feitas à exaustão, inclusive do Itamarati na OMC (Organização Mundial do Comércio), pois somente assim poderemos normalizar novamente o mercado de açúcar.

Revista Canavieiros: Existe um absurdo potencial de aumento na geração de eletricidade a partir do bagaço da cana, pelo menos o dobro dos 7 GW do que é colocado na rede hoje. Estima-se que metade desse crescimento deve vir de ampliação da capacidade de unidade que já cogera, enquanto que a outra parte virá de projeto Greenfield, nessa seara entrará o biogás a partir da vinhaça. Qual deverá ser o posicionamento do Governo diante desse cenário?

Jardim: Hoje já produzimos energia a partir da queima do bagaço da cana referente a mais de uma Itaipu e temos o potencial adormecido de pelo menos mais duas usinas. Para chegar na situação atual participei de todo o caminho, vi todo o processo no âmbito da Aneel, que permitiu a definição de regras no que diz a respeito de conexão, ou seja, para que a produção pudesse ser alçada na rede de média tensão e depois colocada na de alta.
Estou empenhado em fortalecer a bioeletricidade que já é uma virtuosidade do país e tenho certeza que ganhará cada vez mais força agregando valor nessa espetacular cadeia que é a baseada em cana-de-açúcar.

Revista Canavieiros: A cada dia a corrida tecnológica entre os carros elétricos movidos à bateria e etanol fica mais acirrada, o biocombustível tem a vantagem aqui no Brasil da infraestrutura de abastecimento, ou seja, dá para mudar o tipo de motor sem precisar usar um centímetro de cobre, porém quem dita os padrões da indústria automobilística mundial apresentam forte tendência a utilização do modelo a bateria. Essa é uma trincheira já armada em Brasília sabendo que o Governoé um importante balizador desse futuro através da implantação de leis de incentivo ao desenvolvimento tecnológico?

Jardim: É preciso entender que muitas vezes as políticas públicas parecem ignorar o impacto de certas medidas.Para ilustrar isso eu lembro de uma decisão do Governo de anos atrás para incentivar a inovação tecnológica de motores através da constituição de um programa denominado “Inovar-Auto”.
Sua essência era baseada em isenções tributárias para o desenvolvimento de motores, o detalhe é que na época de sua aprovação tivemos que trabalhar muito para incluir os motores flex no programa, isso porque simplesmente no projeto original só estavam sendo amparados os movidos somente à gasolina.
Recentemente o Governo fez um novo pacto com a indústria automobilística e lançou o“Rota 2030”, que também consiste em incentivos fiscais e tributários para o desenvolvimento de novas gerações de motores e,mais uma vez, entrei com emenda para fazer com que o desenvolvimento do motor híbrido, que é a combustãoe elétrico, fosse feito tendo o etanol como combustível. Esse ponto não estava no texto do projeto inicial.
Diante disso, a atenção é constante e sempre que percebermos algum movimento onde o etanol levará desvantagem entraremos em ação.

Revista Canavieiros: Para fechar, o que você espera dessas eleições?
Jardim: Tenho uma preocupação muito grande com as eleições, precisamos ter eleitos menos gladiadores e mais construtores, precisamos de pessoas capazes de produzir o consenso e realmente comandar o país, tanto a nível do legislativo como do executivo é extremamente necessária a formulação de políticas públicas estáveis e duradouras e com isso trazer o clima de pacificação e estabilidade.
O Brasil é muito grande, muito especial, enquanto outros países se separam por questões raciais e religiosas nós temos aqui um clima de convergência e convivência inédito no mundo, isso somado com seu tamanho continental e diversidade cultural nos dá as condições ideais para sermos uma grande nação, como disse o então candidato à Presidência da República Eduardo Campos na sua última entrevista: - Nós não vamos desistir do Brasil.
E acrescento, não vamos desistir do agronegócio, do cooperativismo, da pesquisa, da cana-de-açúcar, do açúcar, do etanol e da bioeletricidade, pois através desse pacote estaremos colocando o Brasil no lugar certo.

 

Por: Marino Guerra 


Fonte: Revista Canavieiros