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Uma Minas Gerais cada vez mais sucroenergética - Por Mário Campos

Postado em 13 de Março de 2020

Uma entidade de classe tem como objetivo principal a defesa do interesse setorial e, dentre seu vasto leque de atuação, consideramos como uma das mais importantes a manutenção de um bom ambiente de negócios. Acreditamos que, se o ambiente de negócios fornece uma certa previsibilidade e segurança jurídica, sem dúvida conseguimos traçar uma boa trajetória para o setor. O restante são questões relacionadas ao próprio risco do negócio, mas, nesse quesito, todos os nossos concorrentes também estariam expostos às variações do mercado de commodities agrícolas e de energia.

Em Minas Gerais, a agroindústria canavieira alcançou reconhecimento e valorização através da união das empresas em torno de uma entidade forte e atuante, a Siamig, que mantém um trabalho focado e interlocução em todos os processos decisórios relacionados ao segmento. Minas Gerais sempre foi um estado diferente, alguns dizem que somos a síntese do Brasil, com todas as misturas representadas na sua população e no seu processo de decisão política e econômica.

Talvez seja por isso que a atração dos grupos do Nordeste na década de 1990, aliados a vários empresários mineiros e paulistas do setor, juntamente com a cultura das multinacionais que chegaram mais tarde, tenha se transformado em uma união de sucesso que, hoje, se reflete em todo o ambiente de negócios do setor em Minas Gerais. 

 Na safra 2019/2020, Minas Gerais realizou a sua maior moagem de cana-de-açúcar da história. Com a produção de março, é provável que o estado alcance 68 milhões de toneladas. Depois de cinco safras consecutivas de estagnação, ao que tudo indica, o estado entra agora em mais um período de expansão. Na safra 2020/2021, estaremos de forma vibrante comemorando a reativação de duas unidades que foram fechadas durante a crise e, assim, teremos 36 unidades produtoras de cana, açúcar, etanol e bioeletricidade, de forma eficiente para atender ao mercado consumidor.

Não resta dúvida de que o bom momento do setor reflete as decisões políticas do eleitor mineiro e brasileiro. As eleições do governador e empresário Romeu Zema, do Partido Novo, e do presidente Jair Bolsonaro adicionaram uma pitada de ânimo ao setor e tem moldado o bom momento atual, com governos com tendências liberais e desburocratizantes, preocupados com a eficiência e, principalmente, com o fato de não olhar o setor empresarial como inimigo da sociedade, mas, sim, como o motor, a peça fundamental da engrenagem para a retomada do crescimento econômico. 

Diversas decisões no campo da relação do trabalho, na agilidade nos processos ambientais e na manutenção das diversas conquistas setoriais influenciadoras de mercado, têm elevado a confiança e, dessa forma, o espírito empreendedor, já demonstrado em diversas vezes na história desse setor resiliente e forte.

A produção sucroenergética de Minas Gerais está presente em mais de 120 municípios com unidades industriais em 27 deles, gerando, entre empregos diretos e indiretos, mais de 160 mil oportunidades. O setor se desenvolveu com práticas altamente sustentáveis, com a eliminação da queima da palha da cana, a redução do uso da água nos processos e na regularização das propriedades rurais. Atualmente, quatro grupos produtores preservam mais de 27 mil hectares de RPPN no norte de Minas.

A maior região produtora é o Triângulo Mineiro, que se tornou uma das principais do setor no País. Essa região sempre foi reconhecida como um grande hub de logística no Brasil, e o crescimento do setor possibilitou diversos outros investimentos. O etanolduto chega a Uberaba, assim como tem a presença do maior terminal rodoferroviário de granéis do Brasil, por onde pode ser escoado o açúcar. Além disso, a divisa com o estado de São Paulo propicia a utilização de uma série de estruturas logísticas já existentes. Também é bom lembrar que a Ferrovia Norte-Sul corta o extremo do Triângulo e poderá também ser uma grande oportunidade de otimização de logística para o setor.

Dizem que Minas são muitas, e o setor não está só no Triângulo Mineiro: cerca de 30% da produção está espalhada por outras regiões, com destaque para o noroeste do estado, onde há projetos importantes de produção de cana aliados à irrigação. Minas Gerais é o segundo maior produtor de açúcar do Brasil, com capacidade produtiva que pode chegar a 4,5 milhões de toneladas por safra. Boa parte desse produto é destinado à exportação, contudo o estado conta com uma indústria alimentícia importante, além de ter o açúcar incorporado à sua cultura, dando ao mercado interno grande pujança.

Quanto ao etanol, o estado possui a segunda maior frota de veículos do Brasil e, desde 2015, possui o maior diferencial do País entre alíquotas de ICMS do combustível limpo e renovável e a gasolina. O setor possui, em expansão, um parque produtivo desse produto, e, atualmente, a capacidade de produção já supera 3,6 bilhões de litros por safra.

Em 2019, o consumo de etanol hidratado no estado alcançou mais de 3,1 bilhões de litros, recorde absoluto, consolidando o mercado de biocombustíveis em Minas Gerais. O estado possui 853 municípios e praticamente em 800 deles há bomba de etanol nos postos revendedores, mostrando a capilaridade e o potencial de crescimento do consumo desse produto. Apesar do recorde, cerca de 40% do consumo do ciclo Otto em 2019 foi relacionado ao hidratado, ou seja, ainda há espaço para crescimento.

Nos últimos anos, as unidades mineiras priorizaram, além da melhoria agrícola, o investimento da capacidade de flexibilidade das fábricas, podendo, dessa forma, realizar a melhor escolha de mix entre etanol e açúcar, otimizando suas receitas. Cabe destacar os investimentos realizados na produção de bioeletricidade, sendo que, atualmente, 23 unidades exportam energia para o sistema. Em 2019, mais de 3,1 milhões de MWh foram exportados, um crescimento de mais de 8% sobre 2018. Em alguns meses de safra, a exportação do setor chega a representar 15% de toda a energia gerada no estado. 

Todos esses números não seriam possíveis se não tivéssemos empresas e produtores rurais com capacidade de realizar, no campo, uma produção de cana eficiente, entregando produtividade agrícola com ATR. Em recente ranking divulgado, Minas Gerais compareceu com 4 das 10 primeiras colocações entre as unidades mais produtivas do Brasil. Algumas regiões são procuradas por interessados em aprender o que é feito no estado. Destaque para tecnologias de ponta que visam à aplicação de práticas mais ecológicas na produção e que servem de exemplo para o País. 

Na logística, as empresas do setor foram responsáveis pela pavimentação de mais de 300 quilômetros de rodovia nos últimos anos, em parceria com o governo do estado. Agora, o setor entra em um novo momento, até 2032 há um plano ousado de investimento de mais de R$ 500 milhões em melhorias de trechos e obras de arte, pavimentação e trevos, que possibilitarão mais segurança e eficiência no transporte de cana pelas unidades produtoras.

Para o futuro, além da continuidade da busca pela melhor eficiência, o setor continuará focado no crescimento e na expansão da flexibilidade e da diversificação da produção. Já há alguns grupos se preparando para investir na produção de etanol de milho e biogás/biometado, todos animados e motivados com o RenovaBio. O setor em Minas continuará crescendo, esse é o nosso compromisso com os mineiros! 

Mário Campos é presidente da SIAMIG

 


Fonte: Extraída da Revista Opiniões/Mapeamento do Sistema Sucroenergético – Nº 63 – Fev.Abr/20