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Usinas cancelam a exportação de 400 mil toneladas de açúcar

O derretimento dos preços futuros do açúcar, que ontem chegaram ao menor patamar em nove anos e oito meses na bolsa de Nova York, já levou usinas brasileiras a cancelarem contratos de exportação referentes a pelo menos 400 mil toneladas do produto, segundo Arnaldo Corrêa, analista da Archer Consulting. A iniciativa está partindo das próprias usinas e tem deixado as tradings de açúcar a ver navios.

O cancelamento da exportação desse volume significaria deixar de gerar uma receita de aproximadamente US$ 130 milhões, tendo como base o preço médio de exportação do açúcar bruto na última semana (US$ 325,40 por tonelada) reportado pela Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic).

O volume representa cerca de 2% do que o Brasil pode exportar nesta safra, considerando que as vendas externas correspondem a dois terços da produção – estimada em cerca de 30 milhões de toneladas pelas principais consultorias.

A decisão de cancelar contratos de exportação tem sido norteada pela comparação entre os preços do açúcar e do etanol, que continua sendo mais rentável para as usinas, mesmo depois da forte desvalorização desde o início da moagem da safra 2018/19 no Centro-Sul. Em cinco semanas, o indicador Cepea/Esalq para o etanol hidratado em São Paulo recuou 22%.

Com o cancelamento do contrato, essa quantidade de açúcar deixará de ser fabricada, então o caldo da cana deve ser destinado à produção de etanol. Assim, a oferta do biocombustível poderá crescer 240 milhões de litros nesta safra, estima Corrêa.

Analistas afirmam que o preço atual do açúcar está dando prejuízo, enquanto a cotação do etanol hidratado ainda proporciona alguma margem positiva, embora já esteja próxima do valor do custo de produção, como observou Plinio Nastari, presidente da consultoria Datagro, em apresentação recente pela internet.

Segundo Corrêa, está valendo mais a pena cancelar a exportação programada para produzir etanol do que trocar de contrato e exportar o açúcar na entressafra, período para o qual os contratos futuros proporcionam uma remuneração um pouco maior. Na bolsa de Nova York, o contrato do açúcar demerara para março de 2019 oferecia ontem um prêmio de 169 pontos sobre os contatos para entrega em maio.

Ontem, porém, todos os papéis aprofundaram as perdas diante da enxurrada de açúcar da Índia, Tailândia e da União Europeia. Os três têm surpreendido com produções acima do esperado. Os contratos para maio fecharam ontem a 10,86 centavos de dólar a libra-peso, com queda de 28 pontos.

"O mercado não esperava um excedente tão grande nesses dois países", diz João Paulo Botelho, da FCStone, ao comentar a oferta da Índia e da Tailândia. Ele estima uma safra de 31 milhões de toneladas no caso indiano, ante projeção inicial de 24 milhões de toneladas. Para a Tailândia, a previsão é de 15 milhões de toneladas.

Na Europa, a surpresa ficou por conta da área plantada de beterraba. As perspectivas de queda no próximo ano-safra diante dos baixos preços do açúcar parecem longe de ser confirmar – o que deve tornar o continente um exportador líquido pela segunda temporada consecutiva. Segundo Botelho, isso se deve principalmente a contratos de longo prazo que os produtores têm com as usinas e a um cenário pouco positivo para outras culturas.

Por Camila Souza Ramos e Cleyton Vilarino


Fonte: Valor Econômico