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Usinas de cana empregam menos, porém pagam mais

O setor sucroalcooleiro empregava em 2016 menos trabalhadores do que empregava antes do "boom" do etanol na primeira década deste século, mas os salários estão quase 50% maiores. Essa transformação, resultado de mudanças regulatórias, tecnológicas e de mercado que ocorreram nesse período, foi identificada por estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP.

Na avaliação do pesquisador da equipe de macroeconomia do Cepea, Leandro Gilio, a tendência verificada no estudo foi mantida em 2017. Segundo ele, que é um dos autores do estudo, a reforma trabalhista ainda não teve impactos significativos sobre o setor sucroalcooleiro no ano passado. "Talvez ano que vem tenha", disse.

Conforme o estudo, há dois anos, o setor empregava formalmente 749,9 mil trabalhadores no país. Esse foi o menor número de empregos formais desde 2004, quando as usinas empregaram 900,8 mil pessoas. Em 2002, o número de trabalhadores registrados foi um pouco menor, de 764,6 mil.

No período de 2000 a 2016 considerado no levantamento, houve uma primeira etapa de expansão das contratações, que atingiu o ápice em 2008, e posteriormente um período de retração. No primeiro período, o número de empregos formais quase dobrou, saindo de 642,8 mil em 2000 para 1,3 milhão oito anos depois.

A situação mudou em 2008, quando dois fatores contribuíram para a reviravolta, segundo o Cepea. O primeiro foi a mudança decorrente da assinatura do protocolo agroambiental pela União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica) e pelo governo paulista que antecipou a eliminação da queima da palha no Estado, o que seria realizado através da mecanização da colheita da cana. Isso desencadeou um processo de substituição dos trabalhadores que faziam o corte manual da cana por máquinas colhedoras.

O segundo fator foi a crise econômica internacional que eclodiu naquele ano, atingindo diversos setores da economia. A situação, diz o estudo, foi agravada pela crise vivida pelas usinas a partir de 2010 com o controle dos preços da gasolina pelo governo, o que resultou no fechamento de unidades.

Como consequência, de 2008 para 2016, o número de trabalhadores na área agrícola caiu 46%, para 555,9 mil. Até 2012, a redução dos empregos ficou concentrada no campo, poupando os empregos nas áreas industrial e administrativa, o que evidencia os impactos da mecanização.

Já a partir de 2012, com a crise do setor sucroalcooleiro, houve também redução nos empregos formais na indústria e na área administrativa. Dessa forma, nesse período de 2008 a 2016, o número de trabalhadores formais contratados pelas usinas recuou 38%.

Em contraposição, a "qualidade" dos empregos melhorou nesses 16 anos, segundo o Cepea. De 2000 a 2016, o salário médio dos trabalhadores das usinas cresceu 46,9%, já descontando a variação do IPCA com base em outubro de 2017. Em 2016, o salário médio real era de R$ 2.839, ante R$ 1.932 em 2000.

Não houve redução da média salarial em nenhum ano, mas a valorização passou a ser mais pronunciada a partir de 2006, início do movimento de mecanização, mostra o estudo do Cepea. (Colaborou Luiz Henrique Mendes, de São Paulo)

O texto integral sobre o estudo do Cepea está em www.valor.com.br/u/5653995

Por Camila Souza Ramos


Fonte: Valor Econômico