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Usinas de MS já moeram 46,8 milhões de toneladas de cana e processamento deve superar o da safra passada

Em entrevista ao G1, o presidente da Biosul apresenta uma avaliação da safra, e fala ainda da entressafra, efeitos do clima, expectativa do setor com o RenovaBio, mercado do açúcar, crescimento da bioeletricidade e perspectiva para o etanol.

As usinas sucroenergéticas de Mato Grosso do Sul processaram no acumulado da safra 2018/2019, até o fim de janeiro, 46,8 milhões de toneladas de cana-de-açúcar. O volume está bem próximo ao atingido no ciclo anterior, 2017/2018, quando foram moídas 46,9 milhões de toneladas do produto.

Com 5 usinas em operação neste mês de fevereiro de um total de 19 em atividade no estado, mesmo em um período que seria de entressafra, a Associação dos Produtores de Bioenergia do estado (Biosul), projeta que Mato Grosso do Sul deve no mínimo equiparar neste mês o processamento do ciclo passado. No próximo mês, outras 11 unidades retomam a moagem.

Em entrevista ao G1, o presidente da Biosul, Roberto Hollanda, que em 2019 completa 10 anos à frente da entidade, apresenta uma avaliação do andamento da safra, e fala ainda da entressafra, efeitos do clima, expectativa do setor com o RenovaBio, mercado do açúcar, crescimento da bioeletricidade e perspectiva para o etanol. Confira:

G1: Qual a situação da safra 2018/2019?

Roberto Hollanda: Nossa safra no estado começa oficialmente no mês de abril. No início foi sem chuva e as usinas aceleram a moagem. Em algumas quinzenas, chegou a estar em um patamar 20% acima do ciclo anterior. Depois a estiagem começou a preocupar. Estava atrapalhando o trabalho de plantio e começou a danificar as lavouras. O quadro então mudou. Começou a chover. No que seria o auge da colheita, entre agosto e outubro, registramos muita chuva e a moagem recuou. Quando chegou dezembro, em que deveria chover de novo, novamente estiagem. Aumentou o ATR [Açúcar Total Recuperável] por tonelada de cana, já que a planta por conta do estresse hídrico gera mais açúcar. Até o momento [segunda quinzena de janeiro] processamos 46,878 milhões de toneladas de cana e produzimos 933,72 mil toneladas de açúcar, 3,124 bilhões de litros de etanol, sendo 778,8 milhões de litros do anidro e 2,345 milhões de litros do hidratado. Estamos ainda mais alcooleiros, destinando 84,38% da produção de cana para o processamento de etanol e 15,62% para o açúcar.

G1: Quantas usinas temos operando nesse período de entressafra? Esse processamento vai ser suficiente para superar a produção do ciclo passado?

Roberto Hollanda: Temos atualmente 2 usinas moendo neste mês de fevereiro, de 19 em atividade em Mato Grosso do Sul. A questão da moagem na entressafra é que se a usina tem disponibilidade de matéria-prima e o clima está propício ela vai continuar a moer. Então no estado, acredito que não vamos ter mais esse período de entressafra, provavelmente nunca mais. Sempre vamos ter alguma planta processando nesse período. Na safra atual temos condições de superar o volume do ciclo passado, mas tudo vai depender do clima, da chuva. Cana para moer nós temos.

G1: O clima ainda continua a prejudicar muito a cultura no estado?

Roberto Hollanda: Estamos aprendendo a conviver com a imprevisibilidade. O clima neste ano foi bem atípico. Teve momento de estiagem, depois de muita chuva e depois de estiagem de novo. Ainda assim está dentro da expectativa, em torno das 50 milhões de toneladas. Vai chegar bem perto disso.

G1: A produção de etanol foi a grande estrela desta safra, com o processamento atingindo o recorde de 3,124 bilhões de litros. Qual a expectativa do setor para o biocombustível em 2019?

Roberto Hollanda: No que se refere ao etanol a nossa grande esperança é a implementação do RenovaBio. Já está praticamente fechado e tem alguns detalhes operacionais que tem de ser resolvidos, mas tem avançado de uma maneira muito firme, levando em consideração de que se trata de um programa muito complexo e que envolve muitos agentes.

G1: O que muda para o setor com o RenovaBio?

Roberto Hollanda: O RenovaBio é uma política de estado que traça uma estratégia conjunta, envolvendo o Poder Público, entidades representativas do setor, usinas, distribuidoras, postos, enfim toda a cadeia produtiva e os consumidores, para reconhecer o papel estratégico que todos os tipos de biocombustíveis, e não somente o etanol, têm na matriz energética brasileira. Ele não é subsídio, não é imposto e traz previsibilidade para o mercado. No médio prazo incentiva a eficiência e pode até refletir na queda de preços para o consumidor.

G1: Qual o princípio básico dessa política de estado?

Roberto Hollanda: Essa política de estado prevê que o país vai quase dobrar seu consumo de etanol na próxima década, passando dos atuais 26,7 bilhões de litros para um patamar em torno dos 46 bilhões de litros em 2030. Isso é oriundo dos compromissos de descarbonização que o país assumiu na COP 21 [Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, realizada em Paris, em 2015], das dificuldades do país em aumentar em curto prazo sua capacidade de refino de gasolina e da preocupação do país em não sujar sua matriz energética, em razão do crescente consumo de energia elétrica. Nesse contexto, o país precisa de combustível, precisa de produção de eletricidade, se não vai ter de importar. E por que importar, se o biocombustível gera divisas, gera emprego, aproveita terras sem precisar desmatar, e é bom para a economia? A racionalidade do RenovaBio é bem básica, vai valorizar o que temos aqui. Vai destacar o benefício gerado para a sociedade de forma difusa e não específica ao consumidor do etanol.

G1: Para as usinas, especificamente o que vai mudar?

Roberto Hollanda: A adesão ao RenovaBio vai ser voluntária. E as usinas que forem participar vão ter de ser certificadas. Elas vão ter de prestar uma série de informações, detalhando aspectos das áreas agrícola e industrial e vão receber uma nota. Quando venderem o etanol para as distribuidoras, essa comercialização vai gerar o Crédito de Descarbonização (CBIO), que vai levar em conta a nota das usinas. O CBIO será vendido nas bolsas e vai representar mais caixa para as usinas, que por conta disso vão querer ser cada vez mais eficientes e sustentáveis, para que tenham uma nota melhor. E quem vai comprar os créditos. As distribuidoras. Elas vão ter metas de descarbonização. Dependendo da quantidade de combustíveis fósseis que comercializarem vão ter de adquirir CBIO para compensar.

G1: O fato da ministra Tereza Cristina (da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA) conhecer o setor pode ajudar na implementação do RenovaBio?

Roberto Hollanda: A despeito do assunto estar mais vinculado ao Ministério de Minas e Energia, o MAPA vai desempenhar um papel importante e a ministra Tereza Cristina é profunda conhecedora do setor. Não tenho a menor dúvida de que ela sabe dos benefícios que o setor traz e é uma defensora disso. Ela inclusive, teve um papel importantíssimo, enquanto foi deputada federal representando nosso estado, na tramitação do RenovaBio na Câmara, sendo uma das congressistas de maior destaque nessa articulação.

G1: Ainda falando em etanol, qual perspectiva temos a médio e longo prazo para o biocombustível em razão da chegada ao mercado dos carros elétricos?

Roberto Hollanda: O primeiro aspecto que temos de analisar sobre isso é que a regionalização das soluções é muito importante e nesse sentido o Brasil tem na produção de biocombustível a partir da cana-de-açúcar algo bastante unificado. O motor a combustão hoje passa por um momento muito interessante, com a tecnologia downsizing, que encolhe o tamanho, reduz a poluição e o consumo, por meio da sobrealimentação por turbocompressor. Esse e outros avanços tecnológicos fez com que aquele referencial de 70% para a escolha do etanol ou gasolina na hora de abastecer um veículo flex não exista mais. É uma nova conta nessa questão da paridade do veículo. Outro aspecto, é que nas medições das emissões dos gases de efeito estufa (GEE) não se considera mais somente o que o carro consume, mas no ciclo todo, da produção do combustível até o consumo final, é o chamado conceito do poço à roda. Utilizando esse conceito, quando se usa um carro elétrico, muitos estão pensando que estão salvando o mundo, mas não pensam de onde vem a energia elétrica que eles estão usando para abastecer esse veículo. Em alguns países da Europa, vem do carvão, ou seja, estão varrendo a sujeira para debaixo do tapete do vizinho. Vai abastecer uma frota inteira de veículos elétricos onde? Cadê a energia para termos uma frota totalmente elétrica? Digamos que tivéssemos disponibilidade de energia, onde abasteceríamos? Nas casas? Precisaríamos de cobre para isso. Outra questão são os materiais de que são feitos as baterias atualmente: lítio, cobalto, estanho. É tudo fóssil. Uma pesquisa da KPMG com executivos do setor em todo mundo, diz que maioria concorda que os motores de combustão ainda vão ser importantes por um longo tempo.

G1: Em razão desse contexto, qual seria a alternativa então?

Roberto Hollanda: O que a indústria acredita para um futuro é a célula de combustível. Um motor que quebra a molécula de hidrogênio e nesse processo gera energia elétrica que move um motor elétrico. Aí não precisa de bateria. Então seria um carro elétrico sem bateria. Resolve a questão da bateria. Qual o problema então? Tem que andar com um tanque de hidrogênio, que é caríssimo. Qual foi a solução, que já foi inventada, inclusive. Os carros ganham um reformador. Com isso, o veículo é abastecido com etanol, o combustível passa por uma espécie de peneira molecular e saí somente o hidrogênio, que é o que o carro vai precisar. Os especialistas apontam que nesse contexto, o Brasil já teria resolvido o problema de uma rede de postos para usar o hidrogênio. São os postos que oferecem o etanol. A eletrificação do carro é inadiável, ela vem, mas com o uso do etanol para a extração do hidrogênio é a melhor solução para nós hoje.

G1: Se para o etanol a perspectiva é muito positiva qual panorama temos para o açúcar?

Roberto Hollanda: O superavit mundial de açúcar que antes seria de 5 milhões de toneladas, e depois caiu para 3 milhões de toneladas, não é bem isso. Está em torno das 500 mil toneladas, um patamar bem justo. Não sei como vai se comportar o mercado diante desse quadro, mas temos um horizonte um pouco melhor para o açúcar no momento e o alimento pode voltar a ter um preço melhor ao longo da próxima safra.

G1: Qual o panorama da bioeletricidade cogerada pelas usinas?

Roberto Hollanda: Todas as usinas cogeram energia. Temos 12 que além do consumo próprio disponibilizam essa bioeletricidade para o Sistema Interligado Nacional (SIN). Essa quantidade exportada já é maior do que todo o consumo residencial de Mato Grosso do Sul. Da energia de biomassa cogerada no estado, 70% vem do setor sucroenergético.

 

 

 

 


Fonte: Portal G1