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Usinas diluem etanol para fabricar álcool antisséptico contra o coronavírus

Postado em 25 de Março de 2020

As usinas sucroalcooleiras estão começando a transformar uma parcela do etanol que está estocado em seus tanques em álcool antisséptico para ser doado ao sistema de saúde no combate ao avanço da pandemia de coronavírus. Como a maior parte das unidades está em entressafra, está sendo transformado produto já fabricado no período de moagem de cana-de-açúcar da safra atual (2019/20), que terminará no fim deste mês.

O etanol hidratado (usado diretamente nos tanques dos veículos) e o etanol anidro (que é misturado à gasolina), que tem concentração de álcool de mais de 93%, estão sendo diluídos em água desmineralizada até chegar à concentração de 70%, que é a recomendada pelas autoridades para realizar a higienização apropriada contra o vírus.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomenda álcool líquido e em gel na concentração de 70% para o combate eficaz a vírus e bactérias -- não são eficientes concentrações inferiores a essa, como 46%, nem superiores a 90%.

Em nota técnica editada no fim da última semana, a Anvisa determinou que a produção do álcool para doação deve ser feita sob a supervisão de um profissional técnico registrado, atendendo as regulamentações de segurança, com matérias-primas de acordo com os requisitos técnicos e garantindo a ausência de contaminantes. O documento também traz orientações sobre as informações nos rótulos.

No fim de semana, a agência também liberou por seis meses a venda de álcool 70% na forma líquida no varejo, o que estava proibido desde 2002 para evitar acidentes, já que o produto é muito inflamável. Esse álcool poderá ser vendido em embalagens de até 1 litro nesse período.

Até o momento, o Fórum Nacional Sucroenergético organizou suas associadas para produzir e doar 1,1 mil litros de álcool 70%, enquanto a União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica) anunciou a doação de mil litros através de suas associadas. Por sua vez, o Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool do Estado de Pernambuco (Sindaçúcar-PE) anunciou a doação de 55 mil litros de álcool 70%, que será produzido em 11 das 12 usinas do Estado, para atender à necessidade indicada pelo governo estadual.

As usinas associadas ao fórum atenderão estabelecimentos de saúde, asilos, unidades socioeducativas e presídios de nove Estados (Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Minas Gerais, Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Bahia) e de mais de 120 municípios onde estão localizadas as usinas e suas lavouras de cana-de-açúcar. Também há tratativas para realizar doações aos governos de Rio Grande do Norte, Maranhão, Piauí e Pará.

As associadas à Unica doarão álcool para os governos de seis Estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Paraná e Santa Catarina. Algumas associadas, como a Raízen, joint venture entre Cosan e Shell, está concentrando suas doações aos hospitais da Grande São Paulo, onde se concentram os casos da covid-19.

Como as usinas não possuem linhas de envase de álcool em suas instalações, elas deverão entregar carregamentos de 1.000 litros ao poder público. No caso das doações coordenadas pela Unica, os volumes serão entregues até pontos indicados pelas secretarias de Saúde de cada Estado, onde ocorrerá o processamento industrial para a transformação em gel ou envase da solução líquida. Depois, os governos estaduais organizam a distribuição para os estabelecimentos.

Nas doações coordenadas pelo Fórum, alguns carregamentos serão entregues diretamente a alguns estabelecimentos, como hospitais e presídios, afirma André Rocha, presidente da organização. Em outros casos, as usinas estão realizando acordos com revendedoras de bebidas para a realização do transporte e envasamento dos produtos em frascos individuais, de 450 mililitros.

A autorização da Anvisa para a produção de álcool antisséptico foi dada apenas às usinas que processam cana, mas as usinas que utilizam milho como matéria-prima também estão considerando requisitar essa concessão, segundo Guilherme Nolasco, presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem).


Fonte: Valor Econômico