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Usinas se organizam após crise

A produção e os investimentos em cana-de-açúcar bateram recorde, mas o mercado não seguiu o ritmo e o setor sucroenergético passou a viver um ciclo de endividamento que já dura dez anos. Para tentar reverter isso, empresas recorrem a alternativas a fim de ampliar o fôlego e aproveitar os sinais de melhora da economia e do mercado para o etanol. Com a crise, de 39 empresas instaladas em Goiás, dez estão em recuperação judicial – no Brasil, são cerca de 80 – e três ficaram paradas na última safra.

O endividamento no País chega a R$ 100 bilhões, valor próximo ao faturamento anual do setor. De acordo com o Sindicato da Indústria de Fabricação de Etanol de Goiás (Sifaeg), o comprometimento foi menor em comparação ao faturamento no Estado, mas não menos preocupante. “As empresas estão em recuperação e algumas ainda com dificuldade, mas via de regra o cenário agora melhorou um pouco, porque há uma política mais clara para a gasolina, que acompanha a cotação internacional”, pontua o presidente do Sifaeg, André Rocha.

“O setor quebrou quando seguraram o preço da gasolina e além de tudo estava investindo, praticamente dobrou de tamanho, estava alavancado”, completa. Agora, com as dívidas, André lembra que para sair dessa situação as empresas se voltaram primeiro para aumentar a eficiência, a produtividade, no caso das que ainda tinham fôlego. Também houve os casos em que foi preciso se desfazer de ativos, unidades foram vendidas, ou ao menos parte delas, além das que entraram com processo de recuperação judicial.

“O empresário é um pouco artista, ele tira leite de pedra, porque as mudanças são colocadas na nossa frente”, defende o diretor-presidente da Jalles Machado, Otávio Lage de Siqueira Filho. No caso da empresa, a conclusão em agosto de 2016 era de que o investimento na produção de açúcar era mais promissor, porque o etanol estava com preço abaixo do esperado. “Pagaríamos o investimento em dois anos, corremos, fixamos o preço para a safra seguinte e investimos R$ 80 milhões em prazo recorde”, diz.

No meio do projeto, o preço do açúcar despencou quase 50%. “O etanol de repente começou a subir, teve demanda, porque a Petrobras mudou a política de preços. As usinas vão fazer mais etanol que açúcar e isso vai fazer com que suba preço do açúcar de médio a longo prazo”, avalia ao citar que há possibilidade de flexibilizar o mix para aproveitar melhor o momento.

Outra estratégia adotada pela Jalles diante da crise para conseguir crescer foi a venda de 60% e 65% em 2017 e 2015, respectivamente, de termoelétricas de cogeração a partir do bagaço de cana para a francesa Albioma. Para eles, a opção foi uma saída para ter capital e a expertise de uma empresa que pode trazer maior retorno para o que não era o foco do negócio. “Depois, elas voltarão a ser nossas com previsão de compra e venda por valor simbólico. Farão investimento para aumentar a eficiência e participamos de leilão de venda de energia.”

Otávio Lage pontua que também é preciso ter custos competitivos para enfrentar a situação de mercado e outra ação também é reduzir custos e inovar. “Vamos fazer investimento em irrigação por gotejamento para rentabilizar melhor.”

André Rocha, do Sifaeg, pontua que são diversas as alternativas adotadas para conter as dívidas e em alguns casos também se destaca o investimento em usina de milho “para um ativo que trabalha o ano todo”, sem entressafra. “De maneira geral, é olhar para o umbigo, ver que pode fazer para melhorar, usar tecnologia, corte de despesas e isso tem sido a regra do setor.”


Fonte: O Popular - retirado do site Canaonline