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Usinas testam retorno à bolsa com estreia da Jalles Machado

Postado em 8 de Fevereiro de 2021

A abertura de capital da Jalles Machado nesta segunda-feira já é vista como um possível marco de retorno à B3 do setor sucroalcooleiro, ainda desconhecido para muitos investidores. O início de um novo ciclo deve ocorrer caso a oferta de ações da estreante seja bem-sucedida, segundo gestores e executivos consultados pelo Valor.

O resultado da captação de investidores para a Jalles Machado oferece alguns sinais positivos. A demanda pelas ações, por exemplo, superou a oferta em duas vezes, o que deve levar à emissão de ações suplementares (em até 15% da oferta inicial). Não serão emitidas ações adicionais, segundo informações do prospecto definitivo publicado na sexta-feira.

Por outro lado, o preço teve que ser reduzido para R$ 8,30, valor abaixo da faixa indicativa, diante da comparação com os papéis da São Martinho, que balizam a precificação. Com as ações suplementares, a captação deverá ficar em R$ 737,7 milhões; sem elas, em R$ 641,5 milhões. Do valor levantado, 80% vai para seu plano de crescimento (oferta primária) e 20% aos acionistas (secundária).

No mercado, outras usinas estão cogitando seguir a trilha da Jalles Machado, como a CerradinhoBio, a Cocal, a CMAA e a Colombo, conforme apurou a reportagem. Ao Valor, a CerradinhoBio disse que "não tem nada planejado". Procuradas, a CMAA preferiu não comentar e Cocal não retornou. A Colombo, por sua vez, já manifestou sua intenção de abrir capital em entrevista recente ao Valor, mas os planos são mais de médio prazo, para até cinco anos.

Na avaliação de um executivo de banco, ao aumentar a quantidade de empresas do agronegócio na B3, o IPO da Jalles Machado deve exigir que os gestores aprofundem seus conhecimentos sobre o setor e que os bancos contratem analistas para acompanhá-lo.

"Hoje só tem três empresas do agro com parcela relevante de ações na bolsa, então os gestores, mesmo que alocados nesses papéis, não davam muita atenção. Falta expertise", disse. "Com mais empresas, os gestores terão que se especializar, e os próximos IPOs podem ser mais fáceis." Para um gestor, a alta dos preços de commodities agrícolas também deve contribuir para mais aberturas de capital no segmento.

Se novas capitalizações ocorrerem via IPO, as usinas entrantes na B3 poderão também abrir um novo capítulo de aquisições, segundo analistas. Esse já é o plano da Jalles Machado, que declara em seu prospecto de emissão de ações a intenção de utilizar cerca de 50% dos recursos líquidos da oferta primária para comprar uma usina de porte pequeno a médio, moendo 2 milhões de toneladas de cana por safra, para depois investir e ampliar.

Há cerca de 15 anos, após a primeira onda de IPOs do setor - de Cosan, São Martinho e Tereos, entre 2005 e 2007 - houve em seguida a entrada de novos investidores no ramo, como tradings e petroleiras. É diferente do que ocorreu na segunda onda de ofertas iniciais de ações do setor, entre 2011 e 2013, quando Biosev e Adecoagro abriram capital - esta última na bolsa de Nova York. Nesse segundo intervalo, o segmento já passava pelo rescaldo da crise de 2008, tanto que algumas empresas buscaram capital no exterior com emissão de bonds. Duas delas, Aralco e Tonon, pediram recuperação judicial.

Agora, há muitos ativos à venda, o que abre caminho para uma nova onda de consolidação. "Mas é preciso de dinheiro para boas compras. Por isso, períodos de capitalização podem levar a aquisições", disse Juliano Merlotto, sócio da consultoria FG/A. Ele não comentou, porém, o impacto do IPO da Jalles Machado, já que a consultoria prestou assessoria para a companhia no processo.

Algumas das usinas que cogitam abrir capital já estão em grande parte seguindo os passos da Jalles Machado, que fortaleceu nos últimos anos seus mecanismos de gestão e governança e passou a testar o mercado de capitais não de ações, mas de dívida.

Segundo levantamento feito pela FG/A para o Valor, nos últimos sete anos, a Jalles Machado fez sete emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), sendo que duas operações nos primeiros anos foram de colocação privada (pela resolução 476 da Comissão de Valores Mobiliários). Somando todas essas operações, sem realizar correção monetária, a companhia levantou R$ 747 milhões.

Uma usina que começou a "testar" o mercado via emissão de CRA foi a Colombo - na semana passada, o grupo deu início a um processo para levantar R$ 300 milhões. Outra que já vem acessando esse mercado é a CMAA, que já tem registro na CVM na categoria B (apenas para emissão de dívida). Em sete anos, a companhia realizou quatro emissões de CRA e levantou R$ 729 milhões (sem correção). A Cocal, também candidata a um IPO, também já captou R$ 490 milhões em duas emissões de recebíveis feitas desde 2017.

Também atuaram com força no mercado de CRA a São Martinho, única "puro sangue" do setor na B3 e que se tornou referência para a precificação de qualquer outra oferta, e a Tereos, que saiu da bolsa em 2016.

 


Fonte: Valor Econômico - retirado do Portal SIAMIG