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Valorização do dólar faz açúcar e etanol subirem

As dúvidas sobre quem ocupará o Palácio da Alvorada nos próximos quatro anos deixam os usineiros de cabelo em pé, à espera das próximas políticas para os combustíveis, mas no curto prazo a incerteza, que também contamina o mercado financeiro, bem que lhes veio a calhar. A disparada do dólar depois das últimas pesquisas de intenção de voto melhorou a remuneração das exportações de açúcar e etanol e teve reflexos positivos sobre os preços domésticos, minimizando a pressão sobre as margens que marca a safra atual (2018/19), que começou em abril.

Até o início de agosto, o dólar forte era mais um motivo de preocupação do que um alento, dado que o câmbio compensava pouco os preços do açúcar deprimidos e inflava as dívidas atreladas à moeda. Mas, agora que a dólar ronda R$ 4,10, a remuneração esboça uma reação, mesmo com os preços do açúcar na bolsa de Nova York patinando na casa dos 10 centavos de dólar a libra-peso. Neste mês, o dólar Ptax já subiu 9,7%, enquanto os contratos do açúcar demerara para entrega em outubro recuaram 1,6% em Nova York.

Segundo a JOB Economia, o preço do açúcar exportado pelas usinas do Centro-Sul saiu de R$ 870 a tonelada, no início da semana passada, para R$ 910 agora. Para Julio Maria Borges, diretor da consultoria, o avanço já se refletiu no mercado interno. Em seu levantamento, o preço médio do açúcar cristal (com cor até 250) no mercado spot (à vista) em São Paulo subiu 7,3% na última semana, para R$ 51,25 a saca de 50 quilos.

O câmbio pode não ter sido o único fator responsável por essa recuperação – recentemente a União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica) informou que a moagem perdeu força no Centro-Sul na primeira metade de agosto e que as usinas continuam preferindo produzir etanol -, mas foi fundamental para ela, na avaliação de boa parte das usinas. "Não fosse o câmbio nas últimas duas semanas, o preço do açúcar no país ficaria parado", disse uma fonte.

A fonte avalia que, no momento, exportar açúcar é mais negócio do que a venda doméstica, mas diz que essa vantagem vai desaparecer. "Quando há uma puxada grande do câmbio, a arbitragem favorece primeiro a exportação, mas o mercado doméstico tem mais inércia". Para essa mesma fonte, a perspectiva é de mais ganhos na entressafra. "Historicamente, quando há quebra de safra, o mercado interno se descola da exportação na entressafra", concorda Luiz Gustavo Diniz Junqueira, diretor comercial da Usina Batatais.

Para as usinas focadas no mercado interno, sobretudo as que trabalham com marcas comercializadas no varejo, deixar de vender no país para negociar fora pode não ser um bom negócio. "Não podemos nos dar o luxo de ficar um mês inteiro fora do mercado", afirmou um diretor de uma usina que vende açúcar ensacado no país. Sua aposta é que o indicador Cepea/Esalq para o açúcar cristal (para cor entre 130 e 180) ainda tem de subir para cerca de R$ 55 a saca para remunerar o equivalente ao açúcar exportado. Na terça-feira, o indicador estava em R$ 53,78 a saca, alta de 8% desde o dia 17, quando atingiu seu menor patamar em três anos (R$ 49,80 a saca).

Alguns analistas observam que a alta do dólar também ecoa sobre o etanol, já que a Petrobras tem repassado no país parte do aumento do preço da gasolina importada. "Como a valorização da gasolina foi diretamente relacionada ao câmbio, o etanol acompanhou", afirmou Luis Gustavo Junqueira Figueiredo, diretor comercial da Usina Alta Mogiana, em São Joaquim da Barra (SP).

Na semana encerrada no dia 24, o indicador Cepea/Esalq para o etanol hidratado (que compete com a gasolina) vendido pelas usinas paulistas ficou em R$ 1,4572 o litro, com alta de 4,9% em duas semanas. Conforme levantamento da JOB Economia, houve alta de 7% apenas na última semana, para R$ 1,500 o litro (já descontando o pagamento de impostos). Nesta semana, a Alta Mogiana já conseguiu vender o produto por R$ 1,92 o litro para uma grande distribuidora, disse Figueiredo.

"Mas, antes dessas altas, açúcar e etanol haviam caído assustadoramente. Os preços continua horríveis", ressalvou Carlos Dinucci, presidente da Usina São Manoel.

Por Camila Souza Ramos


Fonte: Valor Econômico