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Vendas em alta no campo enfraquecem pedidos de ampliação do Moderfrota

Postado em 1 de Fevereiro de 2021

No Banco do Brasil, principal financiador da atividade agropecuária do país, entre julho e dezembro de 2020, a demanda por investimentos no setor cresceu 35%. Para a aquisição de máquinas, as liberações para pequenos, médios e grandes produtores no período somaram R$ 4,5 bilhões, ou 51% a mais que no segundo semestre de 2019, quando os desembolsos somaram R$ 3 bilhões.

Com a forte demanda por crédito, a principal linha do BB para o agronegócio esgotou-se rapidamente na atual temporada – os R$ 2,5 bilhões de sua linha própria similar ao Moderfrota, mas sem equalização, duraram apenas até novembro. O BB também operou cerca de R$ 78 milhões do recurso equalizado vindos do BNDES. A instituição fez um aporte extra de R$ 1 bilhão, dos quais R$ 770 milhões já estão comprometidos, mesmo com prazo menor e juros mais altos.

Os dados atestam vendas aquecidas, a despeito do aumento dos preços, que ocorreu não só por causa da ampliação da demanda, mas também do encarecimento do minério de ferro e outras matérias-primas. Para uma fonte do governo, a constatação enfraquece os constantes pedidos da indústria por mais recursos públicos para a equalização de juros do Moderfrota, que se esgotaram em janeiro.

“As condições fiscais estão bastante restritivas, e qualquer expansão de gastos encontrará grandes dificuldades”, diz Rogério Boueri, subsecretário de Política Agrícola e Meio Ambiente do Ministério da Economia. Na semana passada, o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, César Halum, já havia descartado a possibilidade de um aporte extra de recursos para este Plano Safra.

João Luiz Guadagnin, consultor em crédito e desenvolvimento rural, diz que o esgotamento de recursos equalizados prejudicou mais de 30 mil unidades familiares de produção. “Faltou cerca de R$ 1,5 bilhão para o crédito rural do Pronaf Investimento nesta safra”, afirma. O preço médio das máquinas para essa categoria foi de R$ 54 mil em dezembro, 28% superior à média de R$ 42 mil registrada em janeiro.

Wilson Vaz de Araújo, diretor do Departamento de Crédito e Informação, da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, lembra que o valor contratado no Pronaf, de R$ 20,3 bilhões entre julho e dezembro, foi 14,3% maior que o do mesmo período do ciclo anterior. “Do total de recursos programados para investimento no Pronaf, foram contratados até dezembro 66%”, diz.

Segundo ele, a Pasta tem monitorado as contratações de todo o crédito rural e encaminhado ao Ministério da Economia sugestões de remanejamento entre as linhas com recursos equalizados. “O Ministério da Agricultura tem se empenhado, mas a suplementação orçamentária para a equalização de recursos de investimento é difícil”.

Para o secretário de Política Agrícola da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Antoninho Rovaris, os recursos foram mal alocados na construção do Plano Safra. Foram R$ 19,4 bilhões para custeio e R$ 13,6 bilhões para investimentos, valor considerado baixo pela entidade. “Havia mais de R$ 1 bilhão em pedidos represados da safra passada”, diz. O Pronaf Mais Alimentos, linha destinada para compra de máquinas e equipamentos, especificamente, recebeu R$ 2,8 bilhões.

O setor vai cobrar de bancos e governo um remanejamento de recursos para suprir a demanda dos próximos cinco meses. “Vamos tentar deslocar recursos que sejam destinados a custeio para investimento para tentar garantir a aplicação”, contou.

A ideia não tem a simpatia de quem está à frente das tratativas, segundo outra fonte. “Trazer recursos de custeio para investimento alavanca muito pouco. Os custos de equalização são muito diferentes. É um dinheiro usado em operações de 18 meses, no máximo, que passaria para outras de até dez anos. Tira-se R$ 100 milhões para viabilizar R$ 15 milhões. Não vale a pena”.

Sem opção de equalização para compra de maquinário, ao menos os produtores contam com oferta de recursos livres mais baratos. De acordo com o Banco Central, a taxa média pré-fixada saiu dos 9,6% de julho a novembro de 2019 para 7,5% no mesmo período do ano passado. Para o dinheiro captado pelas Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) e emprestado aos produtores, a taxa caiu de 8,1% para 6,8%. Na Poupança Rural Livre, o recuo foi de 8,3% para 5,9%. As taxas valem para todos os financiamentos, não só de máquinas.


Fonte: Valor Econômico