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Volks defende uso de etanol como fonte de energia

Postado em 22 de Janeiro de 2021

Nos últimos meses, o presidente da Volkswagen na América Latina, Pablo Di Si, reuniu-se com produtores de etanol e visitou usinas. Das conversas com o setor surgiram novos planos para o etanol. O executivo acredita que o potencial do combustível derivado da cana de açúcar pode ir muito além do seu uso nos motores a combustão, como funciona hoje na maior parte da frota brasileira. Indústria e usinas começam a discutir a possibilidade de a energia gerada a partir do etanol servir para carregar as baterias de carros elétricos.

Trata-se de um passo além, também, do uso do etanol no carro híbrido. Esse tipo de veículo funciona com dois motores - um elétrico e outro a combustão. O motor a combustão, abastecido com gasolina ou etanol - é o que faz o elétrico funcionar e também faz o veículo rodar, dependendo das condições do trajeto e da velocidade.

A ideia, agora, é fazer com que o etanol seja mais uma fonte de geração de energia. Assim como hidrelétricas, energia solar, eólica ou o hidrogênio, em fase avançada na Europa. Durante entrevista na Live do Valor, ontem, Di Si destacou que o desenvolvimento de um projeto nesse sentido precisa envolver indústria, usinas, governos federal e estaduais e as áreas acadêmicas e de pesquisa.

Precisamos saber que tipo de país queremos; destravar a burocracia e liberar as empresas para serem mais leves”

“Não é importante só ter o carro elétrico, mas como abastecer. E por que não usar o etanol? A tecnologia não existe hoje, mas com pesquisas, podemos [alcançar isso]. Precisamos estudar como transformar esse etanol e abastecer o carro elétrico, mas não só no Brasil, mas nos Estados Unidos, na China”, disse.

Carros elétricos estão no planejamento de lançamentos da Volks no Brasil para os próximos cinco anos. Mas Di Si não revelou detalhes. Mundialmente, o grupo Volks anunciou o investimento de € 73 bilhões nos próximos cinco anos para o lançamento, ao longo de dez anos, de 70 modelos totalmente elétricos e 60 híbridos.

Di Si defendeu programas de transição para a eletrificação dos veículos com incentivos na compra de modelos elétricos. “O que se vê na Europa, nos Estados Unidos, são [políticas] que no período inicial incentivam o consumidor, não as empresas. Esses incentivos não duram a vida toda. Um, dois, três, quatro anos, o que seja”.

Ao falar sobre os incentivos fiscais para a indústria no Brasil, o executivo afirmou ser a favor da prática quando direcionada ao desenvolvimento de economias regionais e apenas por tempo limitado. “Para ajudar as economias regionais, é positivo um país dar [um incentivo] para a indústria farmacêutica ou de carros; mas limitado, com início, meio e fim. Uma vez que já se instalou, tem que seguir com suas próprias pernas”, disse.

Em relação aos motivos conjunturais, que contribuíram para a decisão da Ford e da Mercedes-Benz de fechar fábricas no país, o presidente da Volks disse estar preocupado também com decisões semelhantes em outros setores. “Precisamos entender que tipo de país queremos”.

Entre os entraves na atividade industrial, apontou o excesso de burocracia no país, especialmente a tributária “Precisamos destravar toda a burocracia e liberar as empresas para serem mais leves”.

“Não é só a Mercedes e a Ford, mas toda a indústria. Mas em vez de ficar chorando, de 'mimimi', vamos trabalhar juntos para resolver os problemas”. Di Si afirmou “não ter dúvidas” de que a reforma tributária está na agenda do governo. “Mas é importante resolver primeiro o problema da vacina (contra a covid-19), dos insumos para isso”, destacou. “A discussão da reforma tributária tem 30 anos. Não precisamos começar com uma mega reforma. Se for, aos poucos, reduzindo a burocracia, já ajuda”.

A Volks ofereceu às autoridades sanitárias suas quatro fábricas no país para servir de locais para vacinação contra a covid-19. A empresa reforçou protocolos de segurança e, na volta das férias coletivas, testou todos os funcionários.

Di Si prevê expansão de 15% a 20% tanto em produção como vendas de veículos no Brasil em 2021 na comparação com 2020. A boa notícia, segundo ele, é que a reação de outros mercados da América Latina, como a Argentina, tem sido melhor que no Brasil, o que favorece a indústria e em especial a Volks, maior exportadora do setor.

Quanto à desvalorização cambial, um dos problemas mais citados pelos setores que dependem de componentes importados, como o automotivo, Di Si disse que a estratégia de uma empresa não pode estar atrelada ao câmbio. “O importante é atingir o equilíbrio entre importações e exportações”.

A Volkswagen está prestes a anunciar um novo programa de investimentos no Brasil. O término do último plano, de R$ 7 bilhões, programado para o fim de 2020, foi prorrogado em seis meses por conta da pandemia.

Di Si acredita na possibilidade de o comércio exterior brasileiro se fortalecer com a chegada de um novo governo nos Estados Unidos. “É preciso tirar todo o ruído político; o Brasil tem muito a oferecer”, disse.

O executivo elogiou a decisão do presidente Joe Biden de recolocar os EUA no Acordo do Clima de Paris e disse que as ações de sustentabilidade criadas pela Volks foram o “lado bom” após o traumático escândalo que envolveu o grupo no chamado “dieselgate” - descoberta de fraude nos testes de emissões de gases poluentes nos motores a diesel. “A empresa admitiu o erro e a maior parte do time já mudou. Foram dois anos muito difíceis”, disse.

A diversidade é outro tema que não pode passar despercebido numa empresa que emprega mais de 10 mil pessoas na América Latina. Ao ser questionado sobre programas de contratação com esse foco, Di Si defendeu o sistema de cotas para “acelerar o processo de mudança”. “A parte mais fácil é dizer: vou contratar uma mulher, um negro. A mais difícil é que essa pessoa fique na empresa e se sinta bem. “Isso se chama abertura, cultura”.


Fonte: Valor Econômico