Artigos

Xadrez das perdas brasileiras com o acordo EUA-China - Por Luis Nassif

Postado em 18 de Outubro de 2019

Dentro da diplomacia, os gestos políticos são mais relevantes que as regras burocráticas. Em outros tempos, um país com o peso político, econômico e diplomático do Brasil jamais ficaria na fila para respeitar a ordem de precedência

Os recentes movimentos de Jair Bolsonaro em relação aos Estados Unidos, e o início do acordo EUA-China, mostra os prejuízos trazidos ao país por uma diplomacia amadora, e os riscos de colocar na embaixada de Washington uma pessoa despreparada como Eduardo Bolsonaro, sem nenhuma noção sobre o chamado interesse nacional.

Entenda como se dá o jogo de interesses internacionais.

Peça 1 – o acordo de Bolsonaro “I love you” com Trump

Jair Bolsonaro aguardando uma hora e meia para cumprimentar Donald Trump e, explode coração, tascar um “I love you” para ele, certamente é a cena mais constrangedora na história da diplomacia internacional.

Mas não significou apenas um deslumbramento de jeca-fundamentalista. Tinha-se, em uma ponta, um empresário-executivo, claramente empenhado em tirar vantagens nas negociações. De outro, um grupo fundamentalista, com Bolsonaro e o inacreditável Ernesto Araújo, Ministro das Relações Exteriores, ambos empenhados em agradar o macho-alfa e em fortalecer a frente anticomunista mundial.

Como declarou Bolsonaro, “sempre fui grande admirador dos EUA, e a minha admiração aumentou com sua chegada à Presidência. O Brasil e os EUA estão irmanados na garantia da liberdade, temor a Deus, contra ideologia de gênero, politicamente correto e as fake news.”

O encontro resultou nas seguintes trocas:

Concessões dos EUA

Apoio às pretensões do Brasil de ingressar na OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico), cujas pré-condições tirar do país qualquer possibilidade de exigir tratamento diferenciado em fóruns de comércio.

Concessões do Brasil

OMC – Hoje em dia, o Brasil tem o direito de se classificar como país em desenvolvimento no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio). Essa classificação permite ao país acordos de preferências comerciais. Por eles, o país pode reduzir tarifas de parte dos produtos importados e não é obrigado a reduzir barreiras de mais de 85% dos produtos importados, para assinar um acordo comercial. Bolsonaro abriu mão desse tratamento diferenciado. Segundo o comunicado conjunto, a decisão se deveu ao fato do Brasil “seguir seu status de líder global”. China e Índia são países que se beneficiam desse mecanismo.

Trigo – o Brasil aceitou uma cota anual de importação de 750 mil toneladas de trigo a tarifa zero, prejudicando um parceiro comercial relevante, a Argentina.

Etanol – foi prorrogada por um ano, e aumentado de 600 milhões para 750 milhões de litros, a importação de etanol sem tarifas de importação de 20%. A medida beneficia diretamente produtores americanos de etanol de milho – 99,7% das importações de etanol vêm dos EUA -, em detrimento de produtores do Nordeste.

O Brasil não conseguiu avançar na reabertura do mercado americano para carne bovina in natura, nem na redução da tarifa sobre as exportações de açúcar.

Indagado pelos jornalistas sobre esse desequilíbrio nas concessões, do alto de seu conhecimento sobre negociações comerciais, Bolsonaro respondeu: “Alguém tem que ceder o braço, ou melhor, a mão. Primeiro fomos nós”.

Peça 2 – o apoio à OCDE

Esta semana, os Estados Unidos formalizaram seu apoio à entrada da China e da Romênia na OCDE. Não se manifestou sobre o Brasil. Há várias explicações. Ambos os países iniciaram, antes do Brasil, sua preparação para ingressar na OCDE. E os EUA não queriam uma adesão sem controle ao organismo.

Dentro da diplomacia, os gestos políticos são mais relevantes que as regras burocráticas. Em outros tempos, um país com o peso político, econômico e diplomático do Brasil jamais ficaria na fila para respeitar a ordem de precedência.

De qualquer modo, a entrada na OCDE significaria, para o país, abrir mão de uma série de benefícios que, hoje em dia, ele tem nas negociações comerciais.

Peça 3 – o acordo EUA-China

Ontem foi anunciada a primeira rodada do acordo comercial EUA-China.

Da parte dos EUA, se compromete a não incluir a não aumentar de 25 para 30% a alíquota de importação sobre US$ 250 bilhões em produtos chineses. Em contrapartida, a China se compromete a adquirir de US$ 40 a US$ 50 bilhões em produtos agrícolas dos EUA.

Soja é o produto agrícola mais importado pela China. Os maiores exportadores são (dados de 2017):

Brasil: US$ 48 bilhões

EUA: US$ 12,4 bilhões

Canada – US$ 775 milhões

Não é necessário muito esforço para se constatar quem pagará a conta, para esse aumento da cota dos Estados Unidos.

Peça 4 – o peso das exportações para a China

Vamos a uma pequena análise da balança comercial brasileira, para avaliar o impacto do acordo China-EUA sobre as exportações brasileiras para a China (no ano  até setembro).

A China respondeu por 75,85% das exportações de soja brasileira.

No total, foram US$ 46,27 bilhões exportados até setembro.

O saldo comercial brasileiro (acumulado de 12 meses até setembro) está em US$ 49, 19 bilhões, dos quais US$ 30 bilhões acumulados com a China.

Ainda não se sabem os efeitos da política anti-ambiental brasileira sobre as exportações de alimentos para a União Europeia.

O pior é que essa desmoralização absoluta não recai apenas sobre a troupe Bolsonaro, mas sobre o Brasil.

Luís Nassif é jornalista brasileiro. Foi colunista e membro do conselho editorial da Folha de S. Paulo, escrevendo por muitos anos sobre economia neste jornal. Nas composições que faz dos possíveis cenários econômicos, não deixa de analisar áreas correlatas que também são relevantes na economia, como o sistema de Ciência & Tecnologia.

 


Fonte: Jornal GGN